Uruguai e a lição de tango

 

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A grelha estalava sobre o fogo, oferecendo-nos uma autêntica parrillada. Há sempre quem defenda que é pelo estômago que se adentra a uma cultura. A nós – Flavinho, Zé Renato e a mim –, o Uruguai se abriu por meio do sabor característico de chinchulines, morcillas e chorizos, preparados com alegria efusiva pelos nossos anfitriões, em um quintal verde, cheio de árvores e sem muros. Varamos a noite de lua exibida em copos e mais copos de bom vinho, que pairavam sobre a conversa, desenrolada em desavergonhado do portunhol. Borrachos, bebemos com gosto toda nossa vã filosofia. De quando em quando, algum dos uruguaios preparava e fumava sem cerimônias um cigarro de maconha de produção própria, cujas arvorezinhas ficavam ali na horta, entre cebolinhas, hortelãs e alecrins – “libre de la figura del tráfico”, frisavam. Eu me lembrava, então, da vó Dita, que costuma alumiar suas prosas, pitando um cigarrinho de palha e fumo caipira. Nós, os brasileños, não aderíamos à marijuana, porque, apesar da barba crescida, da feição de comunista e de vez ou outra levar a pecha, o fumo não nos apetece – não por preconceito, mas por gosto mesmo.

Havíamos conhecido três dos uruguaios – Fernando, El Gordo e Alejandro – dois anos antes, em um encontro improvável ocorrido em uma estalagem poeirenta (a única, em um raio de cem quilômetros) em pleno deserto boliviano, a caminho do Salar de Uyuni. Um deles viajava para superar a perda da mulher, recém-levada pelo câncer; outro, para pôr os próprios medos à prova; e o último, por ter o peito aberto. Topar com eles naquelas circunstâncias nos pareceu uma revelação, de modo que os apelidamos de “entidades” e, para reforçar a alcunha, eles fizeram nova aparição dias depois e ao acaso, em La Paz, onde passamos alguns dias. Quando fazíamos o caminho de volta ao Brasil, ainda demos de cara com Alejandro em uma pitoresca quermesse na praça central de Santa Cruz de la Sierra. Agora, íamos pela primeira vez ao Uruguai, conhecer a sua Piriápolis, uma cidade-balneário simpaticíssima, em que as pessoas batizam as casas com nome de gente – e o fazem constar em uma placa afixada no jardim. Às margens de uma rambla, nos fascinamos por um paredão que avança mar adentro e onde estava grafitado: “Apaga la tele y encendé tu mente”. Deixamo-nos fotografar ali e, na imagem, aparecemos meio sem jeito, contraídos pela friagem e eu, com os cabelos esvoaçantes ao vento.

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Zé, eu e Flavinho, em Piriápolis

Dois dias depois, já em Montevideo, engrossávamos todos o coro da hinchada carbonera na Tribuna Amsterdan, o setor mais popular do legendário Estadio Centanario. Ali, o Peñarol enfrentaria o Deportivo Ichique pela última rodada da primeira fase da Libertadores. Em transe, a torcida cantou do primeiro minuto ao apito final, extasiando até mesmo o Flavinho, avesso ao futebol, mas que se maravilhava com a experiência sociológica que, então, vivia. O Peñarol, que precisava ganhar por quatro gols de diferença, meteu três a zero. O time saiu de campo desclassificado, mas ovacionado. A noite se estendeu até um boteco atulhado de cacarecos, cujo dono – Pablo –, apesar da cara de poucos amigos, era na verdade um gorducho bonachão. Terminamos com uma paella caprichada e etílica do repertório do Fernando, preparada na casa do Chiqui, nosso novo amigo. No dia seguinte, o El País estamparia na manchete: “Triunfo amargo”, o que sintetizava em cheio o desfecho do jogo.

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Tribuna Amsterdan, Estadio Centenario

Tivemos dias suficientes para esquadrinhar os quatro cantos de Montevideo: as ramblas, pelas quais se passeia com termo y mate a tiracolo; a Ciudad Vieja, em que a vida parece transcorrer em ritmo suave; o Cafe Brasilero, onde se tem a impressão de que se vai encontrar Galeano em uma das mesas; e toda sorte de teatros, museus e barres que conseguimos avistar. Nenhum lugar, entretanto, me encantou mais que o Baar Fun-Fun, tradicionalíssima casa de tango fundada em 1895. Pode parecer imponente, mas o espaço é mais prosaico do que se possa imaginar: umas poucas mesas simples, paredes cobertas de fotos, recortes de jornal e bandeiras. Entre as fotografias, algumas de Carlos Gardel, autografadas pelo próprio. Entre as páginas de jornal, um pôster da seleção uruguaia que silenciou o Maracanã na Copa de 1950. Entre as flâmulas, uma do Santos, outra do Palmeiras.

O que me arrebatou, contudo, foi o palco reduzido, onde um casal desfiou passos de tango que rescendiam a sensualidade e, em seguida, uma cantante se apresentou com uma verdade que, talvez, eu só tenha visto em Maria Bethânia, Elis Regina e, mais recentemente, Bruna Caram. Devia ter uns 60 anos, lábios complacentes e usava um chapéu à la Gardel e que escondia um coque bem atado. Ao se apresentar, interpretava cada palavra e fitava a plateia com olhar tão profundo que dava a cada expectador a impressão de que era para si que ela cantava. Fazia parecer bonito o sofrimento e, por isso, a dor se carregava de algum sentido.

No intervalo, percebi-a sozinha, junto ao balcão. Inventei de ir ao banheiro e, na volta, mandei minha timidez às favas e, com meu portunhol desarvorado, entabulei conversa. Ela estava, então, sem o chapéu e de perto parecia ainda mais expressiva e, apesar da elegância, tinha um quê de tristeza perene. Lá pelas tantas, arrisquei uma pergunta-clichê: como era capaz cantar de forma tão legítima, como se realmente sentisse todas as desventuras que cantava? A resposta veio em tom solene e me soou emblemática. “Hay que sufrir por amor, porque sufrir por amor es mejor que sufrir por una enfermedad”. A partir de então, não me lembro de mais nada do que conversamos. Nem seria preciso.

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Após a paella: El Gordo, Zé Renato, Flavinho, Camillo, Chiqui; eu, Fernando e Alejandro
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Sobre ouvir e outras prosas

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Todo mundo tem algo a dizer. Todo mundo. A coisa é que as pessoas andam tão absortas em si mesmas e dando demasiada importância ao próprio umbigo, que mal notam o outro, de modo que se torna praticamente impossível que se lhe dê ouvidos. Que pena. As lições mais valiosas, os diálogos mais saborosos e as melhores surpresas vêm de quem menos se espera. Um tanto disso, desenvolvi exercendo o ofício de jornalista, que prescinde de um naco de sensibilidade e de humildade para entender que, ao menos em certas ocasiões, não são as perguntas o que mais importa, mas as respostas. A gente existe em função do outro – de contar a história – e não o contrário.

Tenho pra mim que dei de ouvir desde lá de casa, cedinho. Vó Dita – que, na verdade, era minha bisavó – era toda tradição oral. A velhinha morava em outra cidade e quando nos visitava, arrastava uma cadeira até o quintal ou ao terraço, acendia um cigarrinho de palha, fechava os olhinhos mirrados e desatava a falar, emendando causo atrás de causo. Versava sobre gente a quem não conhecíamos e, às vezes, sobre um tempo que não vivemos, mas o fazia com tanta graça e com fartos detalhes que é como se tudo nos fosse familiar. E era tão bonito vê-la, sentada muito ereta, com o coque bem atado no topo de cabeça, que eu desejava um dia ter jeito pra contar histórias daquele modo, prendendo a atenção de tudo quanto fosse ouvinte.

Quis o destino, no entanto, que eu me tornasse um rapaz tímido e sem traquejo pra falar, mas, por outra via, ganhei certo tino pra ouvir. Sou desses, que dá conversa ao chofer de táxi, ao tiozinho do ônibus, à mocinha da fila do cinema, ao zelador do prédio. Não que eu seja o cara mais simpático da América Latina. Pelo contrário. Sou acanhado pr’essas coisas, já disse, mas me interesso sinceramente pelas pessoas e não me furto em ouvi-las. Nessas, já calhou de eu convidar um morador de rua para tomar café da manhã numa padaria, só para trocar dois dedos de prosa com ele. Tratava-se de um velho de modos elegantes e cheio de dignidade, apesar de sujo e metido em molambos. Ante os olhares desaprovadores dos outros clientes, em reação, ele puxou um livro do saco de estopa que carregava e o brandiu, feito um padre que exorciza demônios. “Falta-lhes leitura”, sentenciou.

N’outra feita, interessei-me por uma senhora que se fixou na esquina meu prédio, no Centro, onde passou a mendigar. Era negra retinta, de corpo atarracado e que, apesar de morar na rua, vestia-se impecavelmente – sempre uma bata e um turbante. Cada vez que eu entabulava conversa, ela se apresentava com um nome diferente (estratégia comum dos que não têm teto, até sentirem confiança no outro). A surpresa: não era dada a pedir dinheiro ou comida, mas que lhe comprassem cadernos de folhas sem pauta e canetas pretas. Desenhava maravilhosamente e com um estilo muito próprio, a partir de pequenos círculos, com os quais formava o que quisesse – de pessoas a paisagens –, numa espécie de releitura do pontilhismo. Uma noite em que eu passava por ali, ela me chamou e me mostrou sua carteira de identidade: chamava-se Sebastiana. Depois daquele episódio, nunca mais a vi.

Quando me mudei para o bairro, notei que um dos vizinhos do bloco lateral é cego e anda com a bengala tateando o caminho. Calhou de encontrá-lo num domingo em que eu voltava do mercado. “Quer carona?”, perguntei, oferecendo o braço para guiá-lo e puxando prosa. Seu Aleixo mora na vizinhança desde o começo da década de 1980, é casado, mas gosta de ir sozinho às compras. No curto trajeto, ainda deu tempo de contar que é evangélico e que costuma viajar com os irmãos de igreja, cantando em tudo quanto é cidade. Tem um vozeirão de bom timbre e, à guisa de comprovar o talento, deu uma canja de “Deixa a luz do céu entrar”. Atualmente, torço para topar com ele novamente. Quero saber como que diabos ele acha as mercadorias e descobre os respectivos preços. Quem sabe ele me convide pra um café…

No outro bloco, há uma vizinha que todo-santo-dia permanece à janela do seu apartamento, no térreo. Traz sempre fones metidos nas orelhas e o celular à mão. Deve ter coisa de uns cinquenta anos e é dona de um olhar perdido em algum canto escuro de si mesma. Sempre tive ganas de parar e trocar umas palavras com ela, mas, sabe como é: a gente tende a adiar o que parece corriqueiro. Ontem, no fim da tarde, no entanto, fui surpreendido quando passava apressadamente: “É duro gostar de alguém, né, moço?”, tascou, como quem procura aprovação aos próprios dilemas. A pergunta me pegou desprevenido. Voltei, apoiei-me na grade e falei a primeira coisa que me veio à cabeça: “É duro. Mas é inevitável”. Por dois segundos, senti-a arisca, como se, talvez, tivesse se arrependido por ter dado margem para que eu descobrisse porque os olhos dela vivem à penumbra. “Mas, no fim, tudo se resolve. Assim é a vida”, acrescentei. Ela deu meia-volta e entrou sem dizer nada. De cá, espero que o gostar lhe faça bem e aguardo novos capítulos da prosa.

Curitiba 17 de dezembro de 2017

Castigo de Deus

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Dentre os inúmeros moleques que, com as mais diversas estripulias, davam vida às ruas do bairro em que eu morava, o que tinha a melhor pontaria era o Edgard. Quando ele empunhava o estilingue e, num cacoete que parecia uma espécie de rito, virava para trás o boné já encardido do “Curíntia”, punha a língua para fora, no canto esquerdo da boca, e fazia mira com concentração inabalável, não havia pássaro que escapasse. Pardais, rolinhas, pombas, caga-sebos… Todos sucumbiam aos disparos precisos do meu amigo. Havia ocasiões em que os garotos se juntavam apenas para acompanhá-lo em suas caçadas urbanas e, por conseguinte, vê-lo abater uma a uma as aves que lhe cruzavam o caminho. Alguns dos meninos mais entusiasmados com a matança chegavam a vilipendiar ou esquartejar o cadáver dos pobres passarinhos. Qual um snipper bem treinado, Edgard raramente errava, o que lhe rendeu certo prestígio entre os moleques. O estilingue era a brincadeira da estação e Edgard, seu esponte máximo.

De início, eu não cedi à moda. Não gostava de que judiassem de qualquer animal, que dirá exterminar à toa um bicho tão inofensivo, feito passarinho. É bem verdade que eu era dado a cortar rabos de lagartixas só para vê-los serpentear, como se tivessem vida própria. Mas o fazia porque sabia que a cauda lhes tornaria a crescer. Está bem! Confesso que também gostava de tacar sal sobre lesmas, mas, de todo modo, não as considerava como bicho, posto que não manifestavam dor. Além do mais, uma coisa era decepar um ou outro rabo de lagartixa ou fazer derreter um punhado de lesmas; outra coisa – muito mais grave, pensava eu – era promover uma chacina de pássaros, só para lhes ver o tombo.

Apesar disso, como a febre do estilingue custava a passar, resolvi aderir. Aliei-me ao Thiagão, que também precisava de uma arma para participar das caçadas. Munidos de um facão que ele pegara de sua avó (sem permissão, é claro), fomos a um pasto que ficava atrás da escola da vila, onde era possível encontrar árvores leiteiras, que são as que têm madeira ideal para cabos de atiradeiras. Cada um escolheu e cortou um galho em formato de “y”, com a angulação e empunhadura que considerava ideal para oferecer melhor mira. Voltamos com alguns carrapatos e esbaforidos por culpa de um boi que nos empreendera perseguição, mas triunfantes, cada com qual com a sua forquilha. Por fim, era descascar a madeira e deixá-la secar ao sol – caso contrário, a seiva poderia “comer” as tripas-de-mico (as tiras de borracha, para os leigos). Dentro em breve, teríamos nossos estilingues.

Com a arma em mãos, fraquejei. Por óbvio, eu já tivera estilingues, sabia atirar e até que gozava de boa mira, mas nunca tinha sido capaz de matar um pardal sequer. Quando apontava contra um passarinho e firmava pontaria, na última fração de segundo, o remorso prévio acabava fazendo com que eu desviasse levemente a empunhadura, errando o tiro propositalmente. De quebra, meus pelotaços tortos provocavam uma revoada de aves assustadiças, o que tolhia a oportunidade de meus amigos, que, fulos da vida, viam suas pretensas vítimas baterem asas pra longe.

Desta maneira, tornei-me um tipo de justiçador. A cada bando que eu espantava, sentia que havia salvado uns quantos passarinhos da sanha assassina dos meus amigos. Entretanto, como tudo na vida tem um preço, comecei a ser deixado de lado pelos moleques, que já desistiam de ralhar comigo a cada tiro errado. Aos poucos, fui voltando minha mira exclusivamente para latas de alumínio ou, quando muito, para frutas do pomar da dona Catarina – uma vizinha que furava as bolas que porventura, derrubávamos em seu quintal. Estava prestes a abandonar definitivamente o estilingue, mas uns quantos meninos, vendo meu bom desempenho no tiro-ao-alvo, começaram a suspeitar de que eu desviava os disparos de propósito e nisso passaram a pressionar pelo meu “batismo de sangue”.

Disposto a provar coragem, no comecinho de uma tarde de céu azul de sábado, Thiagão e eu armamos tocaia sobre o muro do quintal de minha casa, de onde observávamos dois sanhaços e uma rolinha, que bicavam um mamão do pomar de dona Catarina. Mesmo à longa distância, bati no peito, como se chamasse a responsabilidade para mim. Ajeitei a munição e disparei, mas a pedra foi dar no caule do mamoeiro, afugentando os pássaros. Assustada, a rolinha pousou no galho de um limoeiro carregado, no quintal vizinho e bem mais perto de onde estávamos. O meu amigo reivindicou a vez:

-É agora, Felippão…

O tiro partiu certeiro e só quando pulamos o muro às pressas e nos achegamos é que constatamos que não havia uma, mas duas aves abatidas. Para nosso espanto, Thiagão havia alvejado um ninho, matando dois filhotes de rolinha, cuja plumagem mal tinha começado a despontar. Dali, vimos a rolinha-mãe voar de árvore em árvore, qual estivesse aflita, se lamentando em arrulhos que me soaram lancinantes. Era como se ela chorasse.

Arrependidos, tratamos de nos escafeder dali. Mal nos sentamos na calçada de minha casa, umas poucas nuvens despejaram uma garoa fina e sem força, mas que caiu por uns quinze minutos. Enquanto chovia, era possível ver o horizonte azul, ensolarado. Parecia mau agouro.

– É castigo de Deus. – sentenciei.

Desde então, nunca mais apontei mira a nenhum passarinho.

Adeus em mi menor

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A mais recente foto que tenho com o maestro é também a de que mais gosto. Foi tirada pela Cris Seciuk, no fim de maio. Crédito: Cristina Seciuk

 

Na última vez em que o visitei, como de costume, subi ao quarto número 222 sem ser anunciado. Desta vez, no entanto, já o encontrei aprumado, sentado à escrivaninha, posto a vasculhar uma pasta que continha partituras escritas a próprio punho em papeis amarelados pelo tempo, como se, com o ato, pudesse revolver a própria memória. Já trazia o chapéu panamá metido à cabeça e envergava seu paletó de veludo, que parecia vir bem a calhar naquela manhã de julho de ar gélido. Quando deu por mim, insistiu para que eu alcançasse uma cadeira de madeira ali perto e tomasse assento. Não quis, contudo, estender muito a prosa.

– Vamos descer ali embaixo? Eu queria pegar um pouco de sol – disse-me, um pouco adiante.

Conduzi-o a um banco no calçadão, quase em frente à entrada do hotel. Sentamo-nos lado a lado e ficamos ali, calados, vendo a manhã se findar com vagar, como se dispuséssemos de todo o tempo do mundo. Sabíamos, contudo, que a realidade nos apontava o contrário: em questão de dias, ele embarcaria rumo ao Rio de Janeiro, onde passaria a morar com uma das filhas. Aquela poderia, portanto, ser a nossa última conversa antes que ele partisse. Nem por isso nos pesamos de qualquer urgência ou angústia. Era um entendimento quase mudo – que música também tem muito de silêncio.

Ora ou outra, ele puxava assunto. Banalidades típicas de quem parece estar em paz. Observou, por exemplo, que aumentara o número de moradores de rua ali nos arredores, de modo que ele já não os conhecia pela feição ou pelo nome; contou um causo sobre o funcionário de uma loja ao lado; reclamou do frio; e elogiou o porte das mulheres que passavam pelo calçadão (“Uns mulherões enormes pacas. Parece que antigamente elas não eram tão grandes nem tão bonitas assim, não”). De quando em quando, algum passante o saudava – “bom dia, maestro” –, ao que ele respondia com um sorriso ou aceno de cabeça. Parecia pertencer àquela ruela de petit-pavé.

Perto do meio-dia, fiz alusão de me levantar para partir, ao que ele virou o rosto em minha direção e disse, com um meio-sorriso: “Já vai? Fica mais um pouco”.  Até então, eu nunca o havia visto reivindicar a presença de ninguém, afeito que é a fechar-se em seu mundo. Considerei o convite significativo, como um presságio de que aquela seria mesmo a última prosa antes do embarque. “Que seja, maestro”, respondi por fim, lisonjeado, ajeitando-me novamente no banco. Abri mão do meu almoço e permaneci ali, ao lado dele, até que, quase uma hora adiante, o dever me chamasse definitivamente.

Despedimo-nos sem cerimônia nem sentimentalismo, qual fôssemos nos ver novamente no dia seguinte. Se houvesse uma ou outra conversa mais, talvez ele desatasse a falar sobre João Gilberto ou escavasse alguma história dos tempos de parceria com Gebran Sabbag – como já havia feito nas dezenas e dezenas de prosas que tivemos (mais de trinta delas, gravadas em áudio) desde que me dispus a tentar resgatar sua biografia em livro. Com o tempo, percebi que havia me perdido na linha tênue que o Jornalismo insiste em traçar entre o repórter e a fonte. Tornamo-nos como amigos.

Só então entendi que é impossível entrevistá-lo, dentro do conceito que se tem de entrevista, com o jornalista fazendo as perguntas, dono da situação. O maestro só se entrega quando se sente parte e faz as revelações quando quer, quando menos se espera. Às vezes, a resposta para determinada pergunta só vai vir dias adiante, em meio a uma xícara de café ou a uma caminhada na praça. Dia desses, quando eu lhe disse que era ele quem conduzia as entrevistas, e não o oposto, ele riu: “Vai ver que é porque eu sou maestro, acostumado a reger orquestras, os músicos…”, disse, em tom de galhofa.

Em fins de maio, a Cris Seciuk – jornalista de peito aberto e fotógrafa oculta – também passou a visitá-lo, a fim de escrever sobre ele. Em uma dessas manhãs em que eu estava por lá, vi-a clicar uma série em que o maestro está a vasculhar partituras. Apareço em algumas das imagens e uma dessas é a de que mais gosto: estamos ele e eu, sorrindo com leveza. O ensaio da Cris parece ter captado a essência do personagem, que certa feita Alice Ruiz definiu com propriedade: “ele tem alma de passarinho”.

Recebi a notícia no meio da tarde de ontem: o maestro embarcaria naquela noite. Assim que encerrei expediente no jornal, acorri ao hotel, onde encontrei o porteiro sentado à porta. “Ele já foi tem mais de meia hora”, tascou, rispidamente. Telefonei ao Kito Pereira, seu grande amigo e fiel escudeiro, que me informou que a família achara por bem adiantar em uma hora a ida ao aeroporto, para garantir que não perderiam o voo. “Mas é isso. Tudo vai ficar bem”, tranquilizou-me.

Sob a garoa fina que caía, fiquei alguns minutos ali, petrificado por não ter conseguido me despedir. Fitando o banco vazio, lembrei-me de que, na última prosa com o maestro, eu divaguei que achava que o mi menor era o acorde mais triste que havia. O maestro entabulou uma explicação técnica, mencionando as terças e evocando a escala dórica, mas interrompeu o raciocínio do nada, com um movimento com as mãos, como se desistisse do próprio racionalismo teórico. “O mi menor é o mais triste, porque é o único que vai morrer no chão”, sacramentou, por fim. Enquanto voltava pela Rua XV quase deserta, eu pensei de novo no maestro e quase pude ouvir meu adeus em tom de mi menor.

 

Curitiba, 18 de julho de 2017

Fora da bola

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– Cabôôôôô! Caboôôôôôôô!

Era sempre assim. Lá pelas quatro e meia da tarde, quando o sol se tornava menos inclemente, os mais velhos invadiam o campinho de areia, cheios de autoridade, colocavam fim à nossa pelada e nos espaventavam sem dó nem piedade. Pouco importava se a partida estava empatada ou se faltava apenas dois minutinhos para o tempo regulamentar se esgotar. Capaz que se dignariam a esperar ou a negociar! Quando eles chegavam, cabia a nós, os mais novos, sair de banda, gritando “filhadaputas” e “àputaqueosparius”, fugindo dos cascudos e pontapés com os quais os maiores tentavam acelerar a nossa expulsão sumária.

Tínhamos, então, entre dez e doze anos – faixa etária que não nos credenciava a jogar com os maiores, que tinham pra mais de dezesseis e alguns adultos. Restava-nos o período anterior ao da chegada deles. O problema é que neste horário a areia fervilhava sob sol de verão e, como jogávamos descalços, tínhamos que suportar as bolhas de sangue que se formavam na sola dos pés e nos acostumarmos a ter o corpo torrado pelos raios ultravioleta. Quando a brisa de fim de tarde ameaçava começar a soprar, pronto: lá vinham eles, qual fossem dono do campinho, e nos botavam pra correr.

– Cabôôôôôôô! Cabôôôôôôô!

Em situação desfavorável, desenvolvemos alguns macetes com o passar do tempo. Para amenizar a incandescência da areia, formávamos pequenas poças d’água às margens do campo, onde metíamos os pés para aliviar a quentura. Outra tática era, assim que a gente visse os mais velhos chegando, meter um bicudão na bola, fazendo-a cair no meio do rio – que ficava ao lado da arena. Se nós perderíamos o direito de jogar, pelos menos lhes daríamos algum trabalho. Nessas ocasiões, no entanto, era melhor apertar o passo, posto que, caso nos pegassem, os pés-no-ouvido seriam mais fortes.

Sem bola e sem campinho, ficávamos à beira do rio, vociferando desaforos e maquinando vinganças. Numa dessas, arquitetamos um ardil mais elaborado, que levamos a cabo no dia seguinte: espalhamos meia dúzia de tijolos em pontos diferentes da quadra e os cobrimos com areia, dando feição de que se tratava de castelinhos de areia. Quando os marmanjos nos escorraçavam do campinho, em meio aos “vaitomarnocus”, vimos um deles chutar um dos montes e, ato contínuo, cair aos berros. Havia acertado uma das pedras ocultas e destroncado o dedão.

Talvez isso não dê conta de elucidar a questão, mas aprendemos, na prática, que a malandragem é tão somente o último recurso do mais fraco, um mecanismo de defesa de quem se vê exausto de sofrer injustiças imutáveis. Embrutecemo-nos por reação instintiva, por estratégia de sobrevivência, não por gosto ou má índole. Entre apanhar cotidianamente e sair com o rabo entre as pernas, optamos pelos riscos das mínimas desforras. Era a nossa forma de resistência.

Uns verões adiante, quando já contava quatorze anos, fui intimado a jogar com os mais velhos, numa tarde em que faltava um para completar o time. Eu não passava de um moleque magrelo, mas tinha fôlego sem fim, era um carrapato pra marcar e tinha passe regular. Deste modo, os convites se sucederam e passei a integrar o esquadrão dos maiores. Como tal, passei a chegar ao campinho com eles, gritando “cabôôôôôôô”, fazendo menção de chutar o traseiro dos meninos que demorassem a bater em retirada. Embora já tivesse sofrido com aquela prática, dei de agir como os que até ontem eram meus algozes.

Eu era muito moleque e, como tal, não tinha discernimento para avaliar a profundidade de minhas ações – apenas agia. Assim, só fui fazer um mea-culpa anos mais tarde. Agora, penso que aquelas passagens no campinho podem ser metáfora perfeita para a sociedade contemporânea e, por conseguinte, para muito do que se vê nesses dias de polarizações, de extremos e de devassas em direitos históricos. Brada-se por vidraças quebradas, mas se cala diante da fome do outro. Assimila-se e se legitima o discurso de quem fustiga, enquanto, no fundo no fundo, se sonha em ter o chicote para si. Em síntese, o poder corrompe quem não está apto a tê-lo nas mãos. Na época, eu não conhecia George Orwell, nem Paulo Freire. Hoje, sinto que eles tinham razão.

Agora eu era herói

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Assim que subi as escadas da estação do metrô Consolação, a Paulista (a avenida) se abriu, impávida feito esfinge: “Decifra-me ou te devoro”. Parecia que ela, toda concreto, arranha-céus, vai-e-vem incessante de gente e turbilhão de automóveis, era a síntese da capital que se me descortinava. Só ali tive certeza de que havia me lançado a nova vida. Poucos minutos atrás, eu, recém-formado, desembarcara na rodoviária da Barra Funda, trazendo nas costas uma mochila, a necessidade de me perder para me encontrar e uma gana sem fim de abraçar o mundo. O ano era 2005 e aquela seria a minha primeira passagem por São Paulo – dessas que a gente fica pra morar.

Os primeiros passos que meus All Star já gastos deram para além da boca do metrô se fizeram acompanhar pelas notas de uma sanfona. A música fez com que eu estacasse e seguisse até a lateral da entrada da estação, onde um sujeito com traços de caboclo tocava com graça e sorria para quem parasse para ouvi-lo. Do instrumento, saía “João e Maria”, que me soou com beleza ímpar, qual se a ouvisse pela primeira vez. Conforme a melodia dançava, eu me recordava da letra, de poesia tão leve, que contrastava com a magnitude daquela metrópole. À rua, um nordestino se apresentava para um caipira (eu), ambos retirantes. Serendipity (perdoe-me o anglicanismo). Aos acordes finais, apertei a mão do músico e disse um comovido “obrigado”. Aquela música fez com que eu sentisse certa coragem e começasse a decifrar a cidade grande.

(“E agora eu era um louco a perguntar/ O que é que a vida vai fazer de mim?”)

Lembrei-me desse episódio na semana passada, em típica manhã de impetuoso frio curitibano, em que eu andava contando os pinhões desenhados em mosaico no petit-pavé (“pedras portuguesas”, para os paulistas) do calçadão da Rua XV. Quando dei por mim, estava diante de um trio (violino, violão e percussão), que executava “João e Maria”. A música engatilhou o mesmo alumbramento de anos atrás, ajudando a me trazer de volta a um eixo do qual eu vinha um tanto fora de órbita. Não esperei o fim da apresentação. Enquanto deixava a melodia para trás, pensava em como uma canção – qual seja – pode unir as pontas de uma existência e, ao olhar em retrospecto, concluí que ainda tenho muito daquele rapazote que almejava levar o mundo inteiro no bolso. Penso que isso seja essência. Talvez a gente nunca deixe de ser menino, de sentir saudade e de carregar sonhos na mochila. Vá entender… Talvez seja este o maior dos enigmas da esfinge.

Uns anos atrás, quando eu embarquei no ônibus que me levou a minha segunda passagem por São Paulo, foi minha mãe quem me levou à rodoviária. Era uma manhã fria de junho, uma sexta-feira, 13, e, embora fizesse sol, eu me peguei meio cismado em face da data de mau agouro. Pouco antes de me despedir, achei por bem partilhar da minha angústia – que é muito próprio das mães ter a palavra certa para as horas de infortúnio.

– Pense que é dia de Santo Antônio. E seu avô Antônio está lá em cima, olhando por você. – respondeu-me ela, com uma singeleza de desarmar qualquer um.

Beijei-a no rosto e entrei no ônibus, apto a enfrentar o que viesse pela frente. Ainda hoje, quando as coisas pendem a sair fora dos esquadros, gosto de recordar deste dia e de pensar que vô Antônio zela por mim, com seus olhos que sempre foram pura bondade. É mais fácil ter coragem quando se sente protegido. Tenho pra mim que há uma relação entre esta passagem e as aparições de “João e Maria” no meu caminho. Numa dessas, calha de a gente personificar o menino da música, enfrentar “os batalhões/ Os alemães e seus canhões”, quiçá gritar que “pela minha lei/ A gente era obrigado a ser feliz”.  Nem que seja só até o fim da brincadeira.

Curitiba, 9 de julho de 2017

 

João e Maria (música: Sivuca/ letra: Chico Buarque)

 

 

 

 

“La perra”

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Pendurada na parede do corredor à entrada do quarto, a lousa branca me incomodava. Talvez por destoar gravemente da rusticidade da casa, o quadro atraía invariavelmente o meu olhar, provocando um pequeno mal-estar. Intacto, nunca trazia nada escrito, um risco sequer, fazendo parecer que emoldurava o nada, um sem-fim branco. Naquela manhã, no entanto, enquanto eu esfregava os olhos, tentando a muito custo despertar definitivamente, notei, no canto inferior esquerdo do quadrilátero, duas palavras grafadas em pincel atômico preto. “Vámo, compañera”.

A letra denotava um quê de vacilância, apesar aparente do esforço do autor para parecer firme. A expressão de incentivo vago não poderia ter sido escrita por outra pessoa, senão pelo anfitrião, um homem que era todo lucidez e serenidade. O silêncio que abraçava a casa tornava os rabiscos ainda mais significativos. De imediato, deduzi que as palavras teriam relação com “la perra”.

Não me disseram qual era o nome ou a raça da cachorra, se comia ração, se gostava de correr entre os pinheiros. Tampouco eu nada lhes perguntei. Soube apenas que a mascote contava dezesseis anos e vivia com os pais da “compañera” – era, portanto, como da família. Vinha severamente enferma e os murmúrios aflitos que acresceram nos dois últimos dias indicavam que seu quadro clínico estava à beira do irremediável.

Quando a porta dos fundos se abriu num rangido lamentoso, notei que o anfitrião tinha os olhos mais expressivos que o habitual. Vinha exasperado, tropeçando em si mesmo (ele, tão compenetrado), como quem carrega um mau prenúncio. Com voz pausada, quase solene, mas da qual se depreendia um acento de tristeza, comunicou-me que seguiriam as orientações do veterinário: sacrificariam “la perra”.

Sentou-se, acendeu um cigarro e se absteve em uma dimensão paralela, particular. Tentava entabular conversa, mas se perdia e silenciava, envolto à fumaça que soltava em baforadas confusas. Pensava, talvez, na dor da “compañera”. O calor e a umidade pareciam nos soterrar ainda mais, impingindo peso descomunal ao acontecimento e fazendo com que gotas de suor se arrastassem com imenso pesar por nossas têmporas. Calei-me também. Pousei minha mão em seu ombro, como se dissesse “estou aqui”, e ali ficamos, compartilhando daquela quietude, que parecia congelar temporariamente a vida, até que adviesse o inadiável.

Este se apresentou tão logo ouvimos um carro estacionar no gramado lateral à casa. “Mi compañera”, murmurou ele, tirando a camiseta e atravessando num átimo a porta dos fundos. Tive ganas de segui-lo, mas me contive. Imaginei um momento deveras particular – abraços, lágrimas e manifestações íntimas – que não deveriam ser violadas por um terceiro. Deixei-me cair sobre uma cadeira, tentando adivinhar o que se passava lá fora.

Um punhado de minutos depois, o anfitrião – que havia tornado a entrar para pegar uma garrafa d’água – desviou o olhar para o chão, sugerindo incômodo, quando eu lhe supliquei, meio sem jeito e em portunhol torto: “Deja que te ayude”. Deixou-se permanecer com o olhar perdido num ponto qualquer, a ponderar. Por fim, sacudiu a cabeça e suspirou um indeciso “ai, vá”.

Do lado de fora, a “compañera” vinha como que anestesiada, com olhar morteiro. Como que para desmentir o peso da cena – ou, talvez, para amenizar a própria dor –, minimizou a perda, quando timidamente manifestei meu pesar. “Era muy vieja”, disse, com voz embargada, me atando a um abraço apertado e prolongado.

Como que por instinto, descalcei os chinelos, tomei a pá, me meti dentro da cova que abriam – e que já tinha cerca de meio metro de profundidade – e passei a cavar com vigor. O solo era arenoso e cedia fácil aos golpes, mas o emaranhado de raízes, que formavam uma rede subterrânea, dificultava o trabalho. Quando dei por mim, já não sei quantos minutos adiante, em pleno sol das onze horas, minhas roupas já estavam encharcadas de suor e minha coluna latejava pelo esforço repetitivo. Era, contudo, como se a dor e o incômodo expiassem minha culpa por não estar sofrendo como eles pela morte de “la perra”. Quanto mais me cansava, com mais violência eu atacava o terreno. Mordia o canto da boca para não arfar e acusar que estava extenuado.

Assim que se tornou impossível ocultar meu esgotamento físico, o anfitrião tomou a pá de minhas mãos e, em alguns movimentos rápidos, finalizou o trabalho. Quase em seguida, a “compañera” se aproximou carregando “la perra”, envolta em um lençol de cor clara, quase branco. A mulher caminhava com tanto cuidado e delicadeza que era como se a cachorra ainda estivesse viva em seus braços. Tão logo passou por mim, vi o rosto do animalzinho desfalecido, pendendo para fora do tecido. Tratava-se de uma vira-lata preta, com pelos alvos em torno da boca. Por um instante, parecia que dormia. Mas ao fitar com mais atenção, vi que a boca de “la perra” denunciava um aspecto de bicho morto. O cambalear do corpo ampliava a certeza de que se tratava de um cadáver.

Antes que a “compañera” pousasse o animal no fundo da cova, o anfitrião teve o cuidado de, às pressas, colher um flor cor-de-rosa no jardim e depositar no túmulo improvisado. Em seguida, deu dois tapinhas no meu ombro: “Vámo!”. Permaneci sob a sombra de um pinheiro, mirando a copa da árvore que se erguia para mais de vinte metros. Ele sentou-se no porta-malas do carro e pôs-se a fumar mais um cigarro. Mantivemos a privacidade do último ato do sepultamento.

Quando o anfitrião se aproximou novamente, pedi perdão por ter invadido um momento tão íntimo – talvez ele tivesse preferido ficar a sós com ela, para se despedirem de “la perra”. “Mejor así”, tranquilizou-me. Para mim, era apenas uma cachorra que eu sequer havia conhecido, de modo que, apesar da tristeza vulgar que sempre bate nesses momentos, aquela morte não me dizia tanto quanto para eles e eu me penitenciava por assumir aquilo. Para eles, eram dezesseis anos de sabe-se lá de que tipo de cumplicidade e convivência. Até a morte é relativa, apesar de sempre provocar dor. “Así es la vida”, resumiu o anfitrião, sob o sol de verão de minhas vacaciones que gritavam que ela, a vida, continuava.

 

Piriápolis, Uruguay – Fevereiro de 2016

(editado em Curitiba, março de 2017)