Sobre rezas e afins

A casinha era de alvenaria, mas muito simplória, com janelas um tanto carcomidas pela ferrugem e paredes descascando de tal modo que era impossível lhe determinar de que cor, originalmente, eram. Apesar da humildade inconteste do imóvel, havia ali uma aura de templo. Não pela aparência, mas para o que nos representava. Era para lá que os pais nos levavam, quando nós, as crianças, éramos acometidos de males que não soavam como tão urgentes a ponto de demandar médico. Contornava-se a casa por um corredor à esquerda e se chegava aos fundos, onde, sob um teto de zinco, recebíamos os cuidados de Don’Ana, a benzedeira da vila.

Com um misto de fascínio, medo e respeito, eu a via surgir pela porta dos fundos, miúda, de cabelos cor de cinza e muito curtos, e que vinha com um sorriso resplandecente a contrastar com as cores sóbrias do vestidinho que sempre usava. O ritual dependia de o quê o paciente padecia: quebrante, susto, vento-virado, machucadura, encosto ou cobreiro. Em regra, Don’Ana nos benzia com galhinhos de arruda, enquanto murmurava rezas ininteligíveis, como se concentrasse em si toda a fé do mundo. Por fim, dava-nos para beber uma infusão secreta (“uma água suja”, pensava eu), enquanto nos lembrava: “Só encontra a cura quem acredita”. No fim das contas, a gente “sarava” do que quer que fosse – não sei se por acaso, por fé ou pelos dons da velhinha.

A última vez que visitei benzedeiras foi no finzinho de 2014. Não as procurei por precisar de seus préstimos, mas para ouvi-las para uma reportagem. Quando chegamos à casa de uma delas, Dona Geni atendia, então, um operário que a procurara por estar entrevado por uma dor no ombro. Enquanto vociferava sua oração, a senhorinha cosia um retalho de pano, com os olhos fixos em um prato com água fervente posto à pia e sobre o qual jazia uma tampa de metal. Conforme a reza avançava, a água borbulhava, fazendo trepidar a vasilha. “Se fez bolha, é porque tem espírito ruim, que tá saindo”, anunciou a benzedeira, com feição séria de feiticeira, escorada sobre sua bengala de madeira.

Enquanto registrava cena, o fotógrafo Brunno Covello, que me acompanhava na pauta, suspirou: “Meu, de repente, bateu um calorão!”. De seu lugar, Dona Geni explicou com a maior naturalidade: “É que você tá no caminho da porta, que é por onde os espíritos ruins tão indo embora”. Apesar de ser mais ateu que um pedaço de madeira, até o Covello, naquele instante, se arrepiou. Por fim, o bom retratista acabou ganhando uma benzida para cobreiro (a saber, uma irritação na pele), mas que não lhe surtiu efeito. Ah, homem de pouca fé!

Na mesma empreitada, uns quarteirões adiante, encontramos outra rezadeira, em um casebre à beira de um córrego, nos recônditos da CIC. Dona Dorva era uma senhorinha atarracada e de pouca prosa, que já vinha cansada pelas décadas através das quais vinha exercendo o que chamava de sua missão: interceder pela cura de quem quer que lhe procurasse, sem pedir nada em troca. Sonhava, então, “passar o dom” para sua neta. Coisa de um ano depois da publicação da reportagem, recebi um e-mail: Dona Dorva havia morrido. Ainda hoje me pergunto se a neta dela se interessou em dar continuidade ao nobre ofício da avó. Ainda hoje recebo mensagens, clamando pelo contato das rezadeiras (o que não tenho, registre-se).

Para além do aspecto sobrenatural (ou divino) da coisa, tenho pra mim que a essência do fazer dessas mulheres está correlacionada à tradição segundo a qual a cura para os nossos males está disponível na natureza – e como se quisesse reforçar de onde viemos. Quando eu era moleque, os remédios estavam logo ali, no quintal. Para dor de barriga, chá de hortelã. Para dormir, camomila. As avós sempre tinham uma receita milagrosa, que faziam crer que losna, carqueja, boldo, cidreira, capim-limão e afins eram ingredientes cotidianos. Tudo colhido à mão e na hora. Nada dessas ervas vendidas em supermercados, que vêm em saquinhos insípidos. Uns anos atrás, vi que essa cultura ainda se mantém vívida na Bolívia, pelas mãos das cholas que comungam em sagrada relação com a Mãe Terra (Pacha Mama, em quéchua).

Lembrei-me disso tudo, filosofando em vão numa dessas noites de insônia. Pois é. Basta que eu encoste a cabeça no travesseiro para que o sono se evapore. Só durante a manhã seguinte é que Morpheus dá as caras, fazendo me pesarem as pálpebras, de tal modo que nem café dá jeito. Tenho pra mim que é quebrante. Vá saber. Sem uma benzedeira, não há como fechar diagnóstico e, pior, não há reza para restituir meu sono de beleza. Também já não tenho um quintal como o da infância, que me caía como panaceia. Por sorte, paliativamente, conheci o mulungu, uma planta medicinal que tem me garantido ao menos umas horas de bom repouso. É desses comprados em casas de produtos naturais, mas fazer o quê? É o que temos. Mas que uma benzidinha cairia bem, isso cairia.

 

Crônica originalmente publicada em 29 de março de 2019, no Plural.

A lista sem fim

A lista era tão extensa, tão extensa, que eu deixei de atualizá-la já há alguns anos. Não sou sequer capaz de apontar com exatidão onde ela se encontra. Sei que está em algum arquivo digital, perdido entre os gigabites do meu antigo notebook, em que raramente toco. Talvez eu a tenha deixado ali, inconscientemente, como quem oculta um segredo irrevelável. Muito de vez em quando e às escondidas, procuro-a sorrateiramente, clico duas vezes sobre o iconezinho, fazendo se materializar na tela diante de mim o motivo de uma das minhas vergonhas obtusas: o rol de livros obrigatórios que nunca li. Conforme faço o cursor avançar sobre as linhas que elencam os títulos – que se contam às centenas –, sou acometido de uma sensação de culpa e da certeza de que não passo de uma fraude. É em vão. Trata-se de uma batalha perdida, senhoras e senhores.

Lembrei-me da lista por causa de Truman Capote. Confesso, aqui, uma das minhas misérias pessoais: nunca li A sangue frio. Há um bom tempo, no entanto, venho disposto a corrigir essa falha de caráter e tenho procurado pelo título feito um perdigueiro. Farto de, sem o menor sucesso, zanzar por livrarias e casas do ramo, passei a procurar um exemplar pela internet. Algumas semanas atrás, um site me apontava que havia um volume dando sopa em um sebo perto da catedral. Fui direto ao balconista e, sem sequer desejar-lhe “boa tarde”, já fui perguntando pelo famigerado.

“Xi, moço! Você ‘tá sem sorte. O A sangue frio’ foi vendido hoje, no fim da manhã”.

Até tive ganas de praguejar feito um excomungado, mas me resignei, em boa medida, por causa de um porém: ainda que eu tivesse voltado triunfante, com o exemplar debaixo do braço, sabe deus quando eu conseguiria encaixar a leitura no meu cotidiano bagunçado, que transcorre aos atropelos. Assim que cheguei em casa, isso se tornou mais evidente. Em cada cômodo, tropeço neles, os livros que comecei a ler, mas que jazem pela metade, com um marca-páginas fincado em suas entranhas. É como se reivindicassem minha atenção ou se quisessem expor o meu fracasso a quem quer que apareça pra um café.

No braço do sofá, ao lado de uma resma de páginas por revisar, está O nosso reino”, de Valter Hugo Mãe. Salvo engano, interrompi a leitura no ponto em que Carlos morre. Gosto das observações do protagonista, que tem um quê de santo. No meu quarto, sobre a banqueta que faz as vezes de criado-mudo, estão duas releituras (Fernando Pessoa e Febeapá”, do Ponte Preta – que soa atual ao Brasil de agora, diga-se), um exemplar de crônicas de boteco, do Aldir Blanc, e uma coletânea de textos imbatíveis de García Márquez. No gabinete do banheiro, permanece um livreto de Manoel de Barros.

Nem só de papel vive um leitor em pecado. Desde o ano passado, aderi a mais uma “modernidade” e passei a usar um Kindle para as leituras em que sacolejo no ônibus, espremido, a caminho do trabalho. Na telinha, vinha apegado a Por quem os sinos dobram” (Hemingway), mas me vi obrigado a interromper temporariamente a leitura já no finzinho, em que Robert Jordan, enfim, está prestes a explodir a ponte. Tudo por culpa de Ana Terra” (Érico Veríssimo), que encontrei na Tuboteca, em uma edição velhinha. Tem ainda o Honra teu pai” (Gay Talese), que desponta na pilha da escrivaninha, com a trajetória da família Bonano.

Na estante da sala, ainda aguardam pacientemente a sua vez a biografia do Chaplin, os dois volumes de Os miseráveis (Victor Hugo) e A hora da estrela (Clarice Lispector). Ainda assim, no domingo retrasado fui à feirinha do Largo e, num arroubo, arrematei uma edição de capa dura e cheirando a traça de Os trabalhadores do mar (Victor Hugo), por módicos dez reais. Só não trouxe um Jorge Amado, porque me contive. (E olhe que o vendedor tem bons argumentos: “Na dúvida, leve mais de um”, diz).

Vez ou outra, dou com a máxima atribuída ao argentino Jorge Luis Borges, para quem o paraíso seria uma biblioteca cheia de livros. Em tempos de redes sociais, achei por bem checar. No fim das contas, não é que a frase é dele mesmo? Está em “Poema de los dones”: “Lento en mi sombra, la penumbra hueca/ Exploro con el báculo indeciso,/ Yo, que me figuraba el Paraíso/ Bajo la especie de una biblioteca”. Fiquei matutando. Com os volumes todos a me espreitar da estante, pensei na planilha dos “não lidos”, que só faz aumentar, ainda que mentalmente. Nunca a vencerei. Talvez o paraíso até possa ser uma biblioteca, mas desde que tenhamos, de fato, toda a eternidade para ler. Porque a lista, Borges, a lista não tem fim.

 

Crônica originalmente publicada em 22 de março de 2019, no Plural.

Liberal, pero no mucho

Assim que entrei no carro do motorista de aplicativo, foi impossível não notar os indefectíveis versos do clássico de José Augusto. O refrão desaguou ainda antes de a corrida começar e, enquanto me acomodava no banco traseiro, inventei de fazer graça e cantei junto, arremedando os trejeitos do cantor romântico de antanho: “Agora aguenta coração/ Já que inventou esta paixão…”. Satisfeito, o chofer – um velho de cavanhaque branco e com pinta de bicheiro – abriu um sorriso largo. “Meu pen-drive tem feito sucesso”, disse, antes de começar uma manjada lenga-lenga calcada em preconceito musical, como se as gerações anteriores fossem melhores e mais educadas por terem ouvido, por exemplo, Ritchie e Fagner – que vinham logo a seguir, na playlist do figura.

Só então percebi que meu gracejo havia aberto uma porta perigosa. (Há quem diga que, assim como os taxistas, certos condutores de aplicativo têm carteirinha de reaça). Fechei-me em copas, mas a Mariana – que, por ter bom coração, é incapaz de cometer um ato de grosseria – deu ouvidos ao nosso interlocutor, que descambou a conversa para a política. Um tanto envergonhado, acabou admitindo que votara no Capitão, mas justificou, argumentando que só o fez “pra tirar aquela turma”, porque o único candidato “que prestava” (o tal do “Novo”) não tinha chances. Em seguida, atacou as cotas raciais, mas vislumbrou um Brasil ideal em que as escolas fossem todas (todas!) estatizadas.

Do meu canto, pensei em protestar: “Pô, amigo! Ou você vota no Amoêdo ou você defende a estatização do que quer que seja. Os dois não dá!”. Talvez seja reflexo da idade, mas tenho ponderado que não vale a pena bater palmas pra maluco dançar, de modo que permaneci quieto. Em seguida, voltou sua metralhadora de asneiras ao aspecto moral e só faltou usar a expressão “ditadura gayzista”. Resisti ao suplício com estoicismo e só não me atirei do carro em movimento, porque queria chegar o quanto antes ao botequim. Fui obrigado a tomar umas cervejas a mais para me refazer da exposição à ladainha do velho – e coloco na conta dele os eventuais excessos que eu tenha cometido naquela noite.

A linha de raciocínio do chofer de aplicativo, contudo me parece longe de ser exceção e talvez até traduza bem a essência do “Liberalismo à brasileira”, resumido pelo mote “liberal na economia, conservador nos costumes”. Soa como um pastiche paradoxal: um Estado enxuto, que interfere minimamente no mercado, que passa a bola da regulação e dos serviços à iniciativa privada, mas que tem tempo e disposição para se ocupar dos orifícios alheios. E, neste ponto, justiça seja feita: como este governo gosta de cuidar dos cus de seus concidadãos (desculpem-me o palavrão)! Episódios não faltam. Não vou me dar ao trabalho de enumerar – e você, aliás, já deve estar de saco cheio.

Às vezes, esse salsicheiro danado chega a dar um nó nas ideias do caboclo. Nesta semana, mesmo, eu esperava o ônibus, que estava um tanto atrasado, quando um cidadão de bem começou a discursar contra a (má) qualidade do transporte público. Com dedo em riste, bradava que o mais lógico seria “privatizar tudo, que coisa pública não presta mesmo”. “É tudo um antro de corrupção”, esbravejou. Desta vez, no entanto, arrisquei uma tímida intervenção: “Olhe, senhor… já é privatizado. Quem toca o sistema de ônibus são empresas privadas”. Pra quê? O homem vociferou que essa era só a minha opinião e fim de papo. Quando o coletivo, enfim, aportou na estação, o sujeito entrou pisando duro, não sem antes me lançar um desaforo: “Comunista!”.

Fosse assim tão bom, não haveria uma onda considerável de reestatizações, conforme assinalou reportagem do UOL, publicada na semana passada. Segundo estudo do holandês Transnational Institute (TNI) – que embasa a matéria – , desde o ano 2000, pelo menos 884 serviços que haviam sido repassados à iniciativa privada voltaram a ser estatizados, em síntese, porque priorizavam apenas o lucro e, em razão disso, estavam “caros e ruins”. “As reestatizações aconteceram com destaque em países centrais do capitalismo, como EUA e Alemanha”, assinala o texto, da repórter Juliana Elias.

Você até pode fazer coro ao camarada do ônibus, ali de trás, e dizer: “Ah, mas há corrupção generalizada no serviço público”. Se a preocupação fosse bem essa, penso que deveria haver um punhado de gente se descabelando em praça pública, dando faniquito, por exemplo, pelos assassinatos cometidos de forma calculada com frieza pela Vale (privatizada na onda liberal do FHC, registre-se) e pelo esquema arraigado de desvios nas concessionárias de rodovias que operam aqui na província. Cadê?

Enfim… lembrei-me de um meme que circulou esses tempos atrás e que virou até fantasia de carnaval país afora. Em primeiro plano, aparece um homem vestido socialmente, com gravata borboleta e tudo. No entanto, o espelho postado na parede logo atrás denuncia que o personagem traz toda a retaguarda descoberta – e revela que usa lingerie e cinta-liga. A legenda: “Conservador nos costumes… Liberal na economia”. Eu ri, mas estou escaldado com essa prosa. A partir de agora, por via das dúvidas, sempre que pegar Uber, só falarei sobre futebol.

 

Crônica originalmente publica em 15 de março de 2019, no Plural.

Cinzas

Após a última marchinha, as luzes do salão se acendiam, indicando que deveria ser o fim do carnaval. Mas, como era terça-feira, havia uma tradição: os músicos do conjunto, com instrumentos de percussão e metais em mãos, saiam em fila indiana, seguidos pelos foliões remanescentes, que entoávamos: “Atrás da banda/ Atrás da banda/ Eu vou, eu vou, eu vou/ Toca, toca bandinha/ Que atrás da banda/ Eu vou na minha”. O cordão seguia, então, até a praça em frente ao clube, como se quisesse estender a festa até mais e mais além, varando a madrugada. Mas quando o sol nascia, não tinha jeito. Era fim de carnaval e ponto. Sem alternativa, minha irmã e eu pegávamos o caminho de casa e, ao longo do caminho, dávamos de frente com as velhas beatas, que rumavam à missa de cinzas – e que faltavam fazer o sinal da cruz quando topavam conosco, como se fôssemos assombração ou merecêssemos a excomunhão. Era Quarta-Feira de Cinzas.

Quarta-Feira de Cinzas sempre me soou como um dia estranho. É como se fosse um domingo, só que prolongado, potencializado, em que o tédio se mistura a uma paúra depressiva, sem que se precise, para isso, da trilha do Faustão. Quase o prenúncio de uma segunda-feira que, irremediavelmente, vai se estender por meses a fio. Não tem jeito. Invariavelmente, fico com um certo gosto amargo na boca – e nem estou falando de ressaca. Talvez, inconscientemente, nos pese o fato de sermos obrigados a esperar mais um ano para o “sanatório geral”. Talvez nos ressintamos dos amores fugazes que nos escaparam por entre os dedos ou, quem sabe, dos que não aconteceram – é aquela história: “a vida que poderia ter sido e não foi”. Talvez o melhor mesmo seja nos unirmos às velhas beatas e cairmos em penitência.

Se a Quarta-Feira de Cinzas calhar de cair num dia trevoso e chuvisquento, como a desta semana, então, nem se fala. Sei lá. Parece castigo, o universo nos dando na cara ou algo que o valha. Tudo bem que não sou mais tanto de folia, como fui em outros carnavais, sambo com os indicadores em riste, feito turista gringo e tudo, mas sei um repertório considerável de marchinhas e tenho lá meu ziriguidum. E daí? De nada me vale. “Pô, até ontem havia bloquinhos, escolas de samba, a banda do Xapoca e do Jack. E Agora?”. Agora, a vida real. Enfim, o troço todo só não se mostrou pior, porque – graças aos céus – não vi ninguém postar “Todo carnaval tem seu fim” nas redes sociais. Ufa!

Um parêntesis para registrar pelo menos um alento na cinzentisse: a Mangueira veio como desforra a esses tempos sombrios em que pessoas têm orgulho da própria ignorância. Com “Histórias pra ninar gente grande”, a Verde e Rosa cantou heróis que não estão nos livros de escola. Uma ode a “índios, negros e pobres” e, mais uma vez, a lembrança de Marielle Franco, cuja morte está prestes a completar um ano. (A propósito: quem matou Marielle?). O triunfo carioca se juntou ao da Mancha Verde, de São Paulo, que levou à avenida um desfile igualmente emblemático, em que discutiu a escravidão, direitos dos negros e das mulheres e intolerância religiosa. Carnaval é política, é contestação, embora haja quem queira fazer crer que a festa se restrinja a mijo (“O que é golden shower?”).

Já no fim da noite, quando a Quarta-Feira de Cinzas estava a alguns minutos de seu fim oficial, ouvi alguns acordes. Fui à janela e, maravilhado, constatei que começavam uma serenata, do lado de fora do prédio. De onde estava, pude ver dois rapazes no meio da rua – um ao violão, outro ao pandeiro – tocando para que outro, da calçada, começasse a cantar. “Meu coração, não sei porquê/ Bate feliz, quando te vê…”, atacava, como se se dirigisse a alguém do segundo andar. Debrucei-me para contemplar melhor, enquanto algumas luzes dos apartamentos vizinhos de acendiam. Enlevado, disse para mim mesmo: “Mesmo nessa treva toda, ainda há poesia”.

Mas era Quarta-Feira de Cinzas. Do quarto andar, alguém rugiu: “Vamos parar com essa merda aí!”. Outro carrancudo ainda acrescentou um “Eu vou chamar a polícia!”, antes que a rapaziada colocasse a viola no saco e batesse em retirada, interrompendo a cantoria. É, amigo… nem Pixinguinha é capaz de embevecer um curitibano em noite de cinzas. Tenho pra mim que esses resmungões não devem conhecer os versos e a melodia de Vinícius e Carlinhos Lyra: “E no entanto é preciso cantar/ Mais que nunca é preciso cantar/ É preciso cantar e alegrar a cidade”, que, por acaso, leva o título de “Marcha da Quarta-Feira de Cinzas”. E, como vocês sabem, Quarta-Feira de Cinzas é um dia estranho.

 

Crônica originalmente publica em 8 de março de 2019, no Plural.

Coisa de criança

Assim que desembarquei no terminal, o céu desatou a despejar chuva em tamanho volume e de forma tão ininterrupta, que cheguei a pensar que estaria diante de uma segunda edição do dilúvio. Ainda que tivesse em mãos o velho guarda-chuva, ele de pouco me valeria ante o aguaceiro inclemente que não deixava indício de trégua. Resignei-me, não sem uma ponta de mau humor. Ao lado, um meninote – devia ter uns sete anos, se muito – passou e me espiar com curiosidade, de mãos dadas com a mãe. Assim que nossos olhos se encontraram, mostrei-lhe a língua com ar de troça, ao que ele devolveu escancarando uma careta. Rimos os dois. Foi o garotinho quem puxou conversa:

– O que é que você faz, moço?

– Eu escrevo.

– Escreve? O quê?

– Sobre tudo… e sobre o nada. Às vezes, coisas que interessam às pessoas. Outras vezes, o que eu escrevo não interessa a ninguém.

– Que engraçado! E o que você vai ser quando for criança?

Enquanto eu ponderava sobre a pergunta, suspirei em reticências, sem saber o que dizer. Nisso, a mãe do meu pequeno interlocutor o puxou pelo braço, interrompendo a nossa prosa: “Deixe o moço em paz, Juan!”, disse, já saindo feito um tiro em direção a um ônibus que acabava de estacionar em um dos pontos adiante. Lá se foram os dois a bordo do coletivo, deixando-me com o dilema atirado pelo menino. Mas que diabos! Dei de ombros à chuvarada e saí com os pingos grossos a ensopar minha roupa, à medida que eu cismava com aquilo. Cheguei em casa encharcado como se tivesse atravessado o oceano a nado… e completamente sem resposta.

Agora, revisitando o episódio, tudo me parece mais claro. Ora, se eu voltasse a ser criança eu seria Manoel de Barros. Estalo os dedos, corro à estante, alcanço meu exemplar de “Menino do Mato” – que por muito tempo ficou à cabeceira – e o abro aleatoriamente. “Eu queria pegar na semente da palavra”. Está vendo! Tento outra: “Eu vivo do meu relento”. E ainda: “Visão é um recurso da imaginação para dar às palavras novas liberdades?” ou “A gente não gostava de explicar as imagens porque explicar afasta as falas da imaginação”. Ora, era óbvio. O velho poeta pantaneiro evoluiu tanto em sua existência que voltou a sentir como um infante. Eis aí!

Essas carraspanas têm o poder de nos tirar subitamente do piloto-automático. É como se, de repente, nos mostrassem uma dimensão a que desaprendemos a ver, por termos puro condicionamento. Talvez bastem olhos e ouvidos atentos e um mínimo contato com crianças para reabrirmos esse portal. É aí que se dá peso exato aos acontecimentos e, assim, a vida flui com mais leveza. Creio que seja universal, porque tenho visto, deliciado, esses despertares catalisados pelos pequenos, por meio de passagens tornadas públicas em redes sociais de mães e pais do meu círculo. (Estão aí as peripécias dos “2 piás” da Dani e as “Claricices” da Joana, para servirem de exemplo). Você mesmo, enquanto me lê, deve estar se lembrando de uma ou outra peça da criançada do seu convívio.

No meu caso, o que me transformou – para melhor, creio – foi o nascimento da Julia, minha sobrinha. Na condição de tio e padrinho, tenho a prerrogativa – quiçá o dever – de estragá-la. Assim, foi por minha obra que, pela primeira vez, a Juju tomou chuva, entrou no rio, se pintou de palhaço e pegou um violão. Mas, por mais piegas e clichezento que pareça, sou eu quem tenho aprendido com ela a contato, ao longo desses sete anos e meio. É que ela tem uma sensibilidade e um coração tão imensos, proporcionais ao sorriso que me põe no rosto quanto está por perto. Em silêncio, penso: “Putaqueopariu, a vida é boa!”.

Sempre que me visita, a Ju se encanta com as minhas Olivettis, como se as visse pela primeira vez. “Põe um folha?”, pede e, em seguida, datilografa cartas, com as quais me presenteia, junto com desenhos de toda sorte. Também é dada a inventar palavras, como “deslembrar”, que, conforme ela argumenta, tem significado mais exato do que “esquecer”. Gosto de lhe perguntar com o que sonhou e de saber o que pensa sobre as mínimas coisas. Quando tinha quatro anos, por exemplo, veio com uma boa: diferentemente das amiguinhas, não queria ser mãe. “É que filho dá muito trabalho e eu quero ser professora”, justificou. Dia desses, deu uma bronca no meu pai, que gozava dos modos espalhafatosos com que se vestia um funkeiro na tevê. “Você é ele, vovô? Então deixa ele”, tascou.

Uma das grandes lições que as Jujuzices mantêm vívidas é que a vida urge e, por conseguinte, há que vivê-la, dia após dia. Sem esquecer de si mesmo. Sem esquecer de quem se é. Quando a tarde já se vai pela metade e ela considera que ainda não desfrutou em sua plenitude, reivindica seu direito inalienável à felicidade, com intensidade máxima: “Eu não tô me divertindo! Já é tarde! Eu preciso me divertir!”, diz, exasperada, como quem carece de cumprir uma obrigação ou como se fosse uma adepta de primeira hora à filosofia do Carpe Diem. E lá vamos nós, inventar alguma brincadeira. À noite, Julia luta às últimas forças para não se entregar ao sono e aproveitar o dia até o último quinhão. É ela quem me deixa claro, por seu exemplo, que a vida é uma sequência de hojes. Coisa de criança…

(De minha parte, já me vou. As horas já se avançam e ainda não me diverti.)

 

Crônica originalmente publicada em 1º de março de 2019, no Plural.

O vendedor que não desistia

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Postado diante da mesinha mambembe armada em pleno calçadão, o homem fatiava uma cabeça de repolho com elogiável destreza. Enquanto reduzia a hortaliça a um amontoado de tiras milimétricas, apregoava o instrumento que tinha em mãos: “Vejam que maravilha da cozinha! Descasca a cenoura, corta a verdura! Olhem como é fácil!”. Embora estivesse vestido de maneira simples – tênis gasto, calça e uma camisa que parecia um tanto maior –, tinha a elegância de um maître. O produto que colocava à venda não tinha nada de sofisticado: consistia em um cabo plástico alaranjado que terminava em uma forquilha, na qual estava afixada uma lâmina afiada. Nada mais. Mas a forma como ele o anunciava – sempre com voz clara, pronunciada com entonação de locutor e ornamentada por um sorriso de indelével confiança – fazia crer que, de fato, se tratasse de um utensílio indispensável.

Eu já havia topado com o vendedor em outras ocasiões – na entrada de um supermercado, nos arredores da feirinha do Largo ou ali mesmo, no calçadão –, mas naquele comecinho de tarde ele me chamou a atenção em especial. Talvez porque o entusiasmo com que enumerava as qualidades do item que vendia contrastava com os modos insossos de seus colegas ambulantes: uma jovem a serviço de uma operadora de celular, um rapaz que oferecia carregadores para smartphones e um homem de maus bofes, que portava uma placa em que se lia “compro ouro”. Esses pareciam estar ali a contragosto, entediados e sem o mínimo resquício de orgulho do próprio ofício, ao passo que o homem continuava a bradar as maravilhas do descascador de verduras, como se desempenhasse a mais nobre das profissões.

Parei para contemplar. Apesar de todos os salamaleques do mercador e de sua apresentação resoluta, quase ninguém dava por ele. Nos cinquenta minutos em que fiquei ali, de butuca, apenas duas freiras e uma senhorinha desviaram o olhar para o vendedor por uns poucos segundos, mas nem sequer chegaram a parar para ver o funcionamento do utensílio fabuloso. Não vendeu um descascadorzinho que fosse. Nem por isso, no entanto, o homem esmoreceu. Resiliente, permaneceu anunciando seu produto, qual falasse para um público seleto que lhe desse plenos ouvidos. Apesar de tudo – ou melhor, do nada – ele seguia, com fé inquebrantável.

Quando o relógio me chamou de volta à rotina, parti, dividido. Por um lado, sentia pena do pobre homem, porque apesar de toda devoção que dispensava ao seu ofício, o sucesso profissional lhe passara longe. Fico me perguntando se naquele dia ele voltou pra casa com o gosto do fracasso na boca, depois de ter passado o dia em pé, gastando seu latim ininterruptamente e em vão. Não deve ser fácil. Por outro lado, no entanto, era louvável adignidade que aquele camelô mantinha, cumprindo sua ventura e entregando o melhor de si. Creio que, apesar de tudo, naquela noite ele deve ter dormido o sono dos justos e, nos dias seguintes, persistido até tempos mais favoráveis.

Agora por esses dias, no finzinho de dezembro, lembrei-me do ambulante durante uma conversa com ela, enquanto olhávamos o ano em retrospecto, em uma espécie de balanço. Foram meses difíceis, é escusado dizer. (A vida, às vezes, nos mete em um emaranhado tal, que nem um abraço é capaz de proteger). Para ela, no entanto, o fardo parece ter sido maior. Alguns acontecimentos quase a tiraram de seu curso, enquanto, em outra seara, outros quase a puseram estática. A quantos não devem ter ocorrido dissabores em série, de forma semelhante? Ao longo da prosa, o episódio do mercador do calçadão emergiu como ensinamento. Pode soar elementar, mas em meio a turbilhões acabamos por nos esquecer do óbvio. O que eu queria que ela se lembrasse neste novo ano é de que há ocasiões em que nos cabe apenas isso, mesmo: pôr um sorriso no rosto e seguir com nosso propósito com determinada convicção e integridade. Há que persistir. Como o vendedor.

 

Crônica originalmente publica em 16 de janeiro de 2019, no Plural.

A carne mais barata

Em um domingo qualquer de verão, eu caminhava em direção à pensão em que morava, na Rua São Francisco. O ano era 2009, de modo que a via ainda estava a alguns anos de passar pelo festejado processo de “revitalização” que atrairia uma dezena de bares de classe média e uma legião de jovens descolados. Àquela altura, a rua continuava a ser uma espécie de cracolândia: uma viela obscura e inóspita, com vultos maltrapilhos se esgueirando pelos cantos, cachimbos improvisados à mão. À noite, sempre que eu descia para usar o orelhão, dava de cara com algum desvalido encolhido, estourando crack em pipadas rápidas. Nunca me dirigiram palavra pra pedir uma moeda que fosse.

Naquele domingo, contudo, o sol ainda não havia se posto e eu ia tranquilo, proseando com o Galão, que me acompanhava. Uns metros atrás, vinham dois rapazes como nós, com uma única diferença: eram negros. Só demos por eles instantes depois que passamos por uma equipe policial que os abordou com truculência ostensiva, com direito a safanões e armas em punho. Voltamos e questionamos os agentes sobre os motivos da revista, já que os rapazes nada tinham feito, além de transitar pela rua como qualquer um. “Fica na sua! Eles têm aparência criminal”, resumiu um dos soldados, com frieza e rispidez. Permanecemos ali, como se a nossa presença pudesse lhes garantir a integridade física. Após o esculacho, sem razão para mantê-los, os militares liberaram os jovens. Enquanto tornávamos a caminhar, Galão observou: “Ser preto deve ser foda…”.

A frase do meu amigo sempre me ecoa nas ideias, principalmente porque resume uma verdade que se tenta manter oculta: vivemos em uma sociedade tingida por um racismo estrutural. Nos anos em que exerci a função de repórter policial (aquele que cobre segurança pública, de delegacia em delegacia) isso se tornou mais evidente. Quando havia “locais de morte” (jargão para ocorrência em andamento, com morte violenta), quase sempre eu me deparava com um cadáver negro crivado de balas (eles representam 74,5% das vítimas, segundo o Atlas da Violência 2017). Quase sempre, a carnificina se dava na periferia, onde predominam moradores de pele escura, como se, por uma condição histórica, tivessem sido impelidos para lá, longe dos cartões-postais e das vistas dos “cidadãos de bem”. Às expensas dos meus esforços, as matérias não rendiam comoções: eram pretos e pobres, distantes dos ares nobres do Batel.

Em um desses plantões, fui parar em um dos rincões da CIC (se não me falha a memória, na Vila Sabará), após a polícia ter informado que havia um “Código 4” (ocorrência com morte). Quando cheguei, por detrás da linha de isolamento do IML, vi que a vítima era um menino negro, que jazia dentro de um bar, perto do balcão. Tinha oito anos de idade e havia sido atingido por uma bala perdida, disparada por alguém que abriu fogo contra o botequim. O garoto morrera segurando a nota de dois reais com a qual compraria uma coxinha. Naquela tarde, até o delegado – um dos bons, por quem tenho respeito – engoliu seco. Tinha um filho da mesma idade da criança assassinada e a comparação lhe foi inevitável:

“Meu filho é branco e mora em um bairro bom. Nunca vai passar por isso. Já esse povo daqui, é como se já nascesse marcado, predestinado à tragédia”, desabafou, ainda no local do crime. Um pouco adiante, enquanto o IML recolhia o corpo do menino ao rabecão, outros dois moleques – ambos negros – brincavam de carrinho ao lado da fita de isolamento, indiferentes ao sangue, como se nada de extraordinário tivesse acontecido. É como se já estivessem acostumados à violência e à morte. (Como cresceriam?). Quanto a mim, ainda sonho com o garotinho negro assassinado.

Em outra ocasião, a PM fez descer do camburão um homem negro, algemado com as mãos para trás, e o posicionou em frente ao paredão da Delegacia de Furtos e Roubos, apresentando-o como “ladrão” de um estabelecimento comercial. Enquanto cinegrafistas o filmavam, o preso alegava aos repórteres de tevê que era inocente. O oficial, então, o puxou de canto e ordenou que ele se calasse. Talvez tenha o ameaçado, porque, de fato, o acusado não disse mais nada. No dia seguinte, no entanto, o rapaz teve sua voz ouvida. Constatou-se que havia sido preso por engano, confundido com um ladrão, porque estava vestido de modo humilde, porque estava correndo na rua, atrasado… e porque era preto.

Se nas carceragens das delegacias e nas celas do sistema penitenciário eles são mais de dois terços, contam-se nos dedos os negros que estão do outro lado do balcão. Quando estão, chega-se a duvidar deles, como se causasse estranheza o fato de terem uma caneta em mãos – e não um par de algemas. Um desses casos que cobri se tornou emblemático: a advogada Andreia Vitor foi detida e torturada por policiais, ao questionar abusos em uma abordagem, no Bairro Alto. Quando informou que era advogada, foi ironizada – e talvez isso tenha lhe doído tanto quanto as agressões. “Advogada? Com essa corzinha?”, disse-lhe o PM. O processo contra os policiais corre até hoje.

Outro que sentiu na pele o fardo de ser negro foi o advogado Renato Freitas. Quando era candidato a vereador, o jovem foi abordado pela Guarda Municipal, preso por desacato e sofreu humilhações e torturas psicológicas. Em seu depoimento, relatou que os guardas se referiam a ele como “negrinho” e que falavam que gente como ele não chega a advogado. “Diziam que as músicas que eu estava ouvindo eram de favelado e que minha carteira da OAB era falsificada”, contou-me à época, ao ser libertado. Freitas ainda passou por outros maus bocados com a polícia, mas, pelo que pude conhecer dele, sei que vai continuar a peitar o racismo, apesar do preço que paga. Renato é “zica”.

Na quinta-feira da semana passada (14), você deve ter lido por aí ou assistido na tevê: Pedro Gonzaga, de 19 anos, foi imobilizado por um segurança do supermercado Extra, que o estrangulou por mais de cinco minutos, até a morte. Muito já se escreveu sobre o episódio, que teve repercussão nacional, de modo que eu – branco, de classe média e privilegiado – pouco tenho a acrescentar ao debate. Mas é inevitável que me lembre de tudo isso que relatei acima e de muito mais. É diuturno. São muitos Pedros, Andreias e Renatos, a cada dia e em cada canto deste país. Não é possível que consideremos normal que eles continuem morrendo – agora, talvez, sob justificativa de “escusável medo, surpresa ou violenta emoção”. Como disse meu amigo: “Ser preto deve ser foda…”.

 

Crônica originalmente publicada em 22 de fevereiro de 2019, no Plural.