Dor de vida

luva

Trata-se de um macete já manjado, mas eficaz: exaurir o físico até o limite, como se em corpo extenuado a alma não tivesse tempo de sentir. Lembro-me dessa estratégia pessoal conforme meus punhos atingem o alvo, aprofundando desconfortos que, se não chegam a ser insuportáveis, me fazem vociferar desaforos ou urrar grunhidos neandertais. Não é nada grave. Luxações agudas, apenas. O fenômeno se mostra mais lancinante em dois golpes específicos: o cruzado com a canhota (que torna evidentes as contusões nos dedos anelar e mínimo) e o upper com a direita (cujo punho anda em frangalhos).

Quanto mais dói, mais tenho ganas de bater, o que provoca mais dores, que fazem com que eu aumente a intensidade dos socos, num eterno suceder-se que, para quem está de fora, pode soar um tanto irracional. Explico: é como se as dores ou seus efeitos realçassem a condição humana. Por isso, apesar do cansaço, sobrevém a sensação plena de se saber vivo, vivo, vivo.

Falando em golpe e em dor, 2016 foi um ano sui generis em ambos os quesitos. No aspecto político, um governo legítimo (ainda que insosso e capenga) foi destituído, aparentemente para estancar uma “sangria”, em um acordão nefasto “com o Supremo, com tudo” (JUCÁ, Romero). Enquanto, em menos de seis meses, se deflagrou uma devassa em direitos conquistados historicamente, as ratazanas que ocupam “instituições” (cof, cof, cof) tripudiavam de nós, como uma desfaçatez sem tamanho. Assistimos a tudo, bestializados, com espasmos de resistência.

Não se poderia esperar muito de um ano que começou nos levando David Bowie. Talvez fosse um prenúncio de que o equilíbrio universal seria rompido, libertando e aprofundando forças espúrias que, até então, estavam semi-adormecidas, como Bolsonaros e afins e ladainhas rasas como a meritocracia e a tese do “bandido-bom-é-bandido-morto”. Não me assombra que 2016 tenha ceifado Muhammad Ali e Cauby ou que tenha sido o ano em que se assistiu tragédias inomináveis – como a do avião da Chape – e atentados sangrentos – Síria, choro por ti.

Dia desses, uma jovem viajava em pé, espremida no ônibus expresso, lotado em pleno horário de pico. Ela trazia um ar de cansaço, perfeitamente traduzido pela frase que estampava a camiseta que vestia: “São tempos difíceis para os sonhadores”. Quis prestar solidariedade e lhe dizer que havia sido um ano estranho mesmo e que, por isso, era necessário ser forte, mas não pude chegar a ela. Quando a garota foi desembarcar, por detrás da multidão, dirigi-lhe um riso de cumplicidade, que ela pareceu entender.

Soou-me representativo. É como se a menina do ônibus simbolizasse essa conjuntura, na qual “a minha gente hoje anda falando de lado/ Olhando pro chão, viu” (perdoe-me, Chico, pela apropriação). Nas sarjetas dos botecos “pé-sujos”, entre uma cerveja e outra, meus amigos tentam assimilar o golpe (sem trocadilhos), sob a tônica de um desalento, que tende a pender mais para a desesperança do que para a reação.

Da minha parte, chego ao fim do ano como se tivesse acabado de lutar um combate de doze assaltos, contra um adversário de categoria superior, que dominou a luta inteira, mas que não me levou a nocaute. É óbvio que ele vai me vencer por pontos, mas não lhe dei o gostinho de me ver na lona e, de quebra, acertei-lhe, também, umas quantas pancadas. Os ombros pesam, as pernas bambeiam, os braços latejam e os punhos pulsam de dor. Posso, por um lado estar exausto, mas, por outro, as dores tornam mais evidente a condição humana. Apesar de exausto, me sinto vivo, vivo, vivo.

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Fale com elas

flores

Vó Inês não gostava de flores de plástico. Certa vez, diante dos meus “por quês” de criança, confidenciou-me o motivo pelo qual ela tanto cismava com os arranjos artificiais. Não se tratava meramente de estética, mas de uma questão muito mais profunda. Apontou que, para que a flor se abrisse, é preciso cultivo, regas, podas. Dedicação. Por isso, considerava a flor como um “presente da planta”, que a dava em troca dos cuidados recebidos. As “flores de mentira” claramente subvertem essa lógica, já que carregam uma beleza vazia, infértil, fria, encerrada em si mesma e que se resume apenas à aparência. Corpo sem alma, casca sem conteúdo.

“Quem não tem paciência e amor pra cultivar, não merece ter flor pra admirar”, disse-me dona Inês, na época. Anos depois, ao ler “O Pequeno Príncipe”, reconheci ali a essência do pensamento da vó: “Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que a fez tão importante”. Penso, de certo modo, que isso se aplique a outros campos da existência. Ainda hoje, desconfio de quem mantêm flores artificiais. Sabe como é. A gente acaba carregando essas coisas pra vida.

A casa de vó Inês ostentava um jardim vistoso logo à entrada. Pitangueira, coroa-de-cristo, três palmeiras, uma árvore e uma roseira. De quando em quando, o Compadre Paulista, que tinha mão boa pra planta, aparecia, podava todas elas e aparava a grama. Na garagem e no quintal, vasos de tamanhos variados continham toda sorte de espécies, em uma orgia de tons de verde e formato de folhagens.

As que eu mais gostava eram as samambaias – que eu chamava de “salambaias”, porque achava engraçado – e que pendiam dos vasos, feito vastas cabeleiras. Havia uma dezena delas. Também me deslumbrava o antúrio, que ainda hoje tem folhas enormes em formato de coração e flores vermelhas e que fica ao fundo da entrada da garagem – muito embora por causa dele eu não podia jogar futebol ali, porque a vó ficava brava se a bola acertasse a qualquer planta, que diria aquela, que era bonita que só.

Aqui em minha casa, as plantas são poucas: uma violeta (cujo vaso derrubei e que suportou com galhardia o replantio e que se mostra viçosa); um bonsai de araçá (que, ao que parece, anda meio tristonho); uma jiboia (que começa acenar com folhas pra cima); e um mini-cacto (sisudo, introspectivo e forte). Estudo ampliar minha flora residencial. Queria girassóis – minha flor predileta –, mas não sei se eles resistiriam ao clima hostil e de pouca claridade. Veremos.

Todas as vezes em que me visitava, a moça ia de vaso em vaso. Ficava muitos minutos ali, examinando cada detalhe da terra, das folhas, do caule. Para esmiuçá-las, pousava-lhes a mão com delicadeza, como se tocasse um recém-nascido. Era uma entendida, de fato. Eu achava engraçado, porque, para se referir às plantas, ela empregava verbos que normalmente se usa com gente. “Ela se ressente”, “ela gosta”, “ela se anima”, “pra ela não se magoar”, “senão ela reclama”. Talvez isso explique porque a moça murmurava com as plantinhas, como se proseasse com elas. Proseava mesmo. Mais que isso: passou a me cobrar. “Você tá falando com elas? Tem que falar com elas, poxa! Tem que falar!”.

Tímido, até hoje fui incapaz de trocar uma palavrinha que fosse com as minhas crias. Nem com a jiboia, que anda feliz da vida; nem com vigorosa violeta; nem com o bonsai, que atravessa uma fase sensível. Com o cacto, melhor nem tentar: ele é mais na dele do que eu.  Agora, cá estou, às vésperas de fazer as malas para passar dez dias fora. Sei que as plantinhas vão sobreviver, mas carregarei uma inevitável pontinha de angústia por causa delas. Espero que fiquem bem. Vou confiá-las aos cuidados de dona Mercedes, que mora na casa da frente. Espero que a vizinha siga as minhas recomendações para regá-las e que, principalmente, fale com elas.