Bater no peito

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Rafael, no centro, entre os agachados. Escrete do Piraju F. C., que conquistou a Copa Arizona

O camisa número oito vibrava, correndo em direção à arquibancada do ginásio de esportes. Não era para menos: no instante anterior, ele havia dominado no peito, já girando sobre o marcador e, sem que a bola caísse, emendado um petardo que estufou a rede, excluindo qualquer chance de defesa por parte do goleiro. Em êxtase, o jogador de vasta cabeleira negra e de barba respeitável batia a mão espalmada contra si, na altura do coração, e brandia o distintivo da agremiação que defendia, enquanto a torcida explodia numa alegria generalizada, entre abraços e vivas, ovacionando o autor do gol. No meio deles, ainda menino, eu permanecia inundado de orgulho: o artilheiro em questão era meu pai.

Sempre que o jogo estava difícil, ele – Rafael – comemorava seus gols daquela forma, batendo contra o próprio peito e ostentando a camisa aos torcedores. Era como se, com aquele rito, ele sinalizasse que acabara de protagonizar uma proeza, ao mesmo tempo em que incluía a coletividade em seus feitos. Um sanatório geral, mesmo (desculpe-me, Chico, pelo furto). O gesto elevava o moral do time, enquanto parecia arrefecer os brios do escrete antagonista, que já dava pinta de tremer nas bases – que futebol tem muito disso, de autoconfiança e equilíbrio.

Lembre-se de que estamos falando de outra época. Em dia de jogos, a fila se estendia das bilheterias do ginásio de esportes até a rua. As decisões lotavam as arquibancadas, com direito a instrumentos de percussão, bandeiras tremulantes, gritos de guerra e rivalidades acirradas. O mesmo valia para os campeonatos regionais de futebol de campo, que comportavam ainda saraivadas de fogos de artifício, além de ameaças e ofensas morais ao bandeirinha que ficasse na lateral próximo à torcida da casa.

Não havia cortes de cabelo afrescalhados ou chuteiras coloridas, tampouco dancinhas coreografadas pós-gol, nem assessorias de imprensa a massificar os discursos dos atletas. Por isso, as comemorações viscerais do meu pai pareciam fazer mais sentido e se encaixavam àquela atmosfera, qual cobrança de falta batida no ângulo. Havia um quê de orgulho na celebração de Rafael, mas era a alegria coletiva que se extravasava ali, em um gesto legítimo, espontâneo, necessário até. Estava, portanto, longe de soar como empáfia gratuita ou provocação esvaziada.

Cresci imerso em narrativas sobre os feitos de meu pai, que ainda moleque foi integrar os juniores do São Paulo F. C., na capital, mas que meu avô fez voltar tempos depois – porque as chances no time titular eram raras e porque isso, de jogar bola, não era profissão de homem de bem. As lendas davam conta de que havia sido ele, Rafael, quem marcou o gol do Piraju F. C. (o “Azulão”) no empate heroico com o Noroeste, em plena Bauru, trazendo o título de campeão da Copa Arizona para a nossa cidadezinha. Cantavam em verso e prosa golaços memoráveis – como o em que ele interceptou um lançamento do goleiro levantando a bola com um pé para finalizar com o outro, do meio da quadra – e de títulos incontestáveis – como os conquistados pelo legendário time do Bairro Alto.

Em casa, havia um amplo acervo de fotografias de esquadrões perfilados, que povoavam meu imaginário infantil. Alguns daqueles jogadores – como Dario, Coruja e Ney – sequer tive oportunidade de ver em campo. Outros – como Nelsinho, Garrotinho e Henricão – me fartei de apreciar, jogando a favor ou contra. Havia ainda a mítica dupla Rafael e Kaguinho, imbatível no futebol de salão, e personagens folclóricos como o técnico Vitrolinha, o massagista Ferneti e o árbitro Fumaça.

O espólio de futebol de meu pai incluía ainda uma galeria de troféus e medalhas – que minha irmã e eu destruímos quando crianças, ao incluí-los em nossas brincadeiras – e fitas cassetes que continham a narração de jogos. Em uma delas, de uma final em que o velho defendia o Bairro Alto, um jogador do time adversário sentenciou, já ao fim do primeiro tempo: “Não vai dar pra ganhar, não. O Rafael ‘tá endiabrado”. Talvez reações como essa explicassem o refrão do hino do time: “É o Magno o goleiro/ É o Rafael o artilheiro”.

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Trecho do hino do Bairro Alto, de 1977

Mesmo quando errava, meu pai mantinha uma dignidade inabalável. Chamava a responsabilidade para si, dando de ombros a pressões ou eventuais julgamentos. Não demonstrava medo. Em uma semifinal, chegou a bater um pênalti de chaleira, que o goleiro defendeu no susto. Preferia malograr tentando acertar, a se eximir do fardo. Mesmo quando perdia ou era expulso, saía de cabeça erguida, como quem fizera tudo o que havia para ser feito. No máximo, mandava o juiz tomar no cu e boa.

Fora das quatro linhas, Rafael também nunca foi de fugir aos desafios e mantinha seu orgulho próprio, embora fosse homem reservado e de poucas palavras. Certa vez, eu andava cabisbaixo e inerte por causa de uma namoradinha que havia me abandonado. Ao perceber o infortúnio, meu pai foi sucinto, mas certeiro: “Se ela quer ficar com você, é um favor que faz. Se não quer, são dois favores”. Entendi o que ele quis dizer. O chacoalhão foi o início da minha volta por cima.

Como o futebol, a vida também tem muito disso, de autoconfiança e equilíbrio. É necessário envergar orgulho da camisa que se veste, exibir o escudo do time a que se pertence. Cabeça erguida, cenho cerrado, deve-se pôr a bola na marca e bater o pênalti sem medo de errar, sem dar ouvidos à torcida adversária. Principalmente em tempos bicudos, como estes que nos têm calhado, urge reconhecer-se naquilo em que se é bom, em que se faz a diferença, e admiti-lo sem soberba ou falsa modéstia. A gente tem saborear as mínimas vitórias, celebrar a cada gol, quais sejam. Rafael é que sempre esteve certo: na vida, às vezes, há que se bater no peito.

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Rafael exibe o troféu de artilheiro, de um dos muitos campeonatos de futebol de salão que disputou
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Cinquenta e sete anos

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Vô Indler: mais bonito que Clark Gable, diziam

Sentado junto da parede à esquerda da entrada do salão, meu avô Indler tinha o olhar perdido, como se não visse mais ninguém. Estava arqueado sobre si, acusando o peso que se abatia sobre sua existência. Em vão, tentava silenciar a própria aflição. Assim que cheguei e o encontrei ali, naquele desespero mudo, fui diretamente ter com ele. Desabou, com a dor escancarada em cada traço de sua feição. “Você viu que judiação, Felippe? Fazia cinquenta e sete anos que eu era feliz e não sabia”, balbuciou, já sem poder conter o choro, ao lado do caixão.

Cinquenta e sete anos foi o período em que minha avó Filhinha e ele permaneceram casados, até que a morte os separasse, levando-a na noite anterior. Por isso, ao longo do funeral, o velho Indler repetia a frase qual ladainha: “Fazia cinquenta e sete anos que eu era feliz e não sabia”. Era impossível não se comover com sua dor, afinal formaram um daqueles casais conhecidos por toda a cidadezinha. Às tardes, saiam a bordo do Uno branco e iam até a praça às margens do rio, onde passeavam de mãos dadas, jogavam pães para os peixes e davam de comer a um cachorro de rua, que dona Filhinha tratava como se deles fosse.

O dia havia nascido sem nuvens, azulzinho e de um sol brando, mas no exato instante em que se terminou o sepultamento, o céu fechou, desabando um pé d’água que espaventou toda gente num carreirão. Ficamos ali apenas minha irmã, meu primo e eu, ensopados, fitando o túmulo. Enquanto voltávamos lentamente e eu sentia as gotas grossas encharcarem minha camisa jeans, lembrei-me de que vó Filhinha gostava de fins de tarde com chuva. Achava bonito. Ponderei em voz alta que, talvez por isso, chovesse. Minha irmã opinou que, quem sabe, o temporal repentino se devesse ao fato de que ela não queria ter partido. O caso é que, assim que deixamos o cemitério, o aguaceiro cessou.

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Vô Indler e vó Filhinha

Vó Filhinha era uma mulher de fala doce, com mão boa para cozinhar e que mantinha a mesa posta o dia todo – lhe fazia gosto ver comer quem quer que se achegasse para uma visita. Era, no entanto, doente de ciúmes pelo meu avô, que fora um belo homem de olhos azuis, diziam, mais bonito que Clark Gable. No auge da ciumeira, já perto do fim, a vó fez plantar uma árvore no terraço, tapando a vista da rua que seu Indler gostava de contemplar, sentado à cadeira de corda. A velhinha cismava que ele queria era ver as moças passarem. “Eu nessa idade!”, protestava o avô, sem sucesso, diante do disparate.

Com a morte de minha avó, seu Indler sucumbiu a um desespero de dar pena. Passou a se martirizar por coisas das quais não tinha a menor culpa. Insistia que deveria ter elogiado mais a comida dela, lamentava por não a ter levado mais vezes para passear e se penalizava por não conseguir encontrá-la nos sonhos. Ora se responsabilizava por ter feito que não a via fumar no quintal, enquanto vó Filhinha fazia que se escondia. Talvez os cigarros não a tivessem levado. Ora se penalizava por ter ralhado com ela por pitar tanto, já que era um dos únicos prazeres que a vó ainda tinha na vida.

Em pouco tempo, o velho tombou na cama, da qual não teve mais forças para se levantar para nada. Definhou ali, deitado, embora não sofresse de nada que pudesse ser diagnosticado por médico algum. Com as saudades à flor da pele, focava na dor da perda. Dor de amor. Mas disso até ele sabia, já que não deixava de repetir um só dia que havia sido feliz por cinquenta e sete anos e que, agora, nada mais lhe restava. Não houve psicólogo, padre, médium, amigo ou familiar capaz de lhe aliviar a angústia. A cada dia, morria um pouco.

Três anos depois de minha avó ter-se ido, foi a vez de seu Indler. Não me lembro se fazia sol, mas tenho certeza de que não choveu. Não sei se porque o vô não ligava pra chuva ou se porque ele quisesse mesmo partir – era espírita e acreditava que encontraria dona Filhinha do outro lado. No velório, as pessoas repetiam, como coisa certa, que ele havia falecido por não ter suportado a falta de minha avó. Era uma sensação coletiva. Penso que assim tenha sido, mesmo. Seu Indler morreu de amor.

Anunciação

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Os periquitos australianos saiam um a um, pela portinhola do viveiro e, vacilantes, batiam asas cheios de incertezas, rumo a ainda desconhecida liberdade. Eu, que instantes antes havia aberto o cárcere, observava a cena, triunfante.  “Vai, vai”, dizia, como a apressá-los. Tinha cinco anos de idade e sofria de uma angústia medonha por vê-los desolados naquela mini-jaula. Encarava o feito como uma façanha que acabara de salvar toda uma espécie. Meu tio – dono das aves – surgiu a tempo de evitar as últimas fugas. Fez cara feia, mas não ralhou comigo nem me levantou a mão – embora eu até merecesse. Não sei quantos passarinhos se foram.

Além dos periquitos, ele criava alguns canários, cada qual em sua gaiola. Cantavam melodiosamente, contudo ouvi-los era de uma tristeza morna. Não havia como. Bicho preso é um negócio deprimente. Bonitos eram os beija-flores que a cada fim de tarde vinham se refrescar em bebedouros que imitavam margaridas, que meu tio abastecia com água com açúcar, para atraí-los pelo docinho.

O meu preferido, no entanto, era Francisco, um coleirinha caído do ninho e criado à mão. Ficava solto, pousado no ombro de quem reconhecesse como da família, qual papagaio de pirata. Vez por outra, cagava na gente. Bicho sabido, saía voar pela vizinhança e quando um de nós gritava “Francisco, Francisco”, retornava e vinha parar no dedo indicador. A avezinha só era posta em gaiola à noite, que era pra dormir. Isso até a ocasião em que um gato sorrateiro meteu a pata por entre as frestas da gradezinha e o matou, sem chance de defesa. Chorei profundamente. Tinha se ido o passarinho mais inteligente que já conheci.

Ainda na infância, a vila em que eu morava assistiu a fase do estilingue. Eu também fiz o meu, com forquilha de galho de árvore leiteira, que era pra não estragar a tripa-de-mico e fazer boa mira. Apesar da arma afinada, fui incapaz de matar um único passarinho. Nem um pardalzinho, que era tido como praga e que só prestava para piar e fazer sujeira, eu tive coragem de abater. Enquanto isso, os outros moleques, sem o menor remorso, enchiam o bornal com pequenos cadáveres penosos.

Mesmo mais tarde, nunca cheguei a ser um entendido do assunto. Sabia reconhecer caga-sebo, sanhaço, rolinha, pintassilgo, dentre outras espécies que apareciam a nossa vista, mas não ia além disso. Achava bonito, por exemplo, quem sabia distinguir os bichos pelo canto. Jamais consegui tal proeza, exceto quando se tratava de bem-te-vi – mas aí, também, era até covardia. Qualquer um o reconheceria.

Meu fascínio pelo sabiá só surgiu anos depois, já homem feito. Creio que o que tenha me arrebatado tenha sido o canto – tanto a exuberância, quanto o fato de aquela melodia anunciar a primavera. Passei a virar meu calendário de outra forma. Meu ano não começava a cada primeiro de janeiro, mas quando o sabiá começava a soltar a goela. Prenúncio de bons ares. Belo presságio. Era como se o gorjear do bicho afastasse definitivamente os dias cinzentos e frios do inverno e iniciasse um novo período carregado de esperança. A partir dali, eu renovava meus votos, fazia meus planos e intenções.

Agora, porém, dois mil e dezesseis vai aos trancos, com a cara carrancuda de dois mil e quinze, qual estivesse surdo à anunciação do sabiá. Outubro se arrasta, como se agosto fosse. Cadê o sol, o azul celeste e o entardecer num sopro de brisas? Cadê os sorrisos e as saias? Em meio a dias soturnos, seguimos meio olhando pro chão, meio sem saber por quê. Vamos desviando das poças de ódio e insanidade, nos escondendo atrás de agasalhos grossos, como se estes pudessem nos proteger dessa rispidez gratuita. Que tarde, que demore. A gente tem que teimar, tem que insistir, tem que persistir. Nem que seja só de birra. O sabiá está ali, cantando. Enquanto houver sabiá, haverá resistência.