Oceano

fita

“Você deságua em mim

E eu oceano

Esqueço que amar

É quase uma dor”

(Djavan)

Ela sorriu de uma forma de que eu jamais me esqueceria – comprimindo leve e involuntariamente os olhos, com um jeito que lhe realçava a ternura – e me estendeu a mão num “seja bem-vindo!”. Foi um alumbramento. O ano já se ia pela metade e eu vinha transferido de outra escola, na qual a professora fustigava os alunos, embora estivéssemos apenas na primeira série. Desde o primeiro instante, quando a nova “tia” me apresentava à turma, atônito, notei aquela menina de cabelo loiro preso num rabo-de-cavalo, entre as dezenas de colegas. Conforme eu caminhava em direção a minha carteira, ela me acenava com desembaraço, fazendo com que eu me queimasse em brasas. Pronto: aos sete anos de idade, eu estava apaixonado. Era pueril e inocente, mas, ainda assim, paixão.

Como todas as histórias de amor são cheias de curvas e obstáculos – mesmo as mais infantis e ingênuas –, eu não era o único. Havia uma leva de garotos medindo forças por ela. Tímido, recolhi-me a um querer-bem platônico, enquanto os outros, qual mini-homenzinhos-medievais, lançavam-se a uma disputa ferrenha, como se a menina fosse uma donzela posta a prêmio. Felizmente, a bela também era geniosa, de opinião firme e os rechaçava um a um, às vezes com acidez. Foi assim quando o Marco Antônio decidiu se declarar, usando um dos meninos como porta-voz.

“Se eu gostasse de baleia, estaria no mar”, respondeu ela, para deleite sádico dos rivais. Restou ao rapazote distribuir sorrisos amarelos e dar de ombros, fazendo que não se importava e tentando ocultar, quem sabe, sua primeira desilusão.

Era a menina mais graciosa da sala, mas não foi isso o que me arrebatara. Para além do sorriso com olhinhos miúdos, eu gostava da forma delicada e pausada como ela respondia a professora, da postura ereta com que ela se sentava e do modo como, no recreio, ela imitava a Xuxa com as amigas (e neste ponto deveria levar vantagem, já que fazia balé). Por isso eu considerava que os meninos da sala a minimizavam quando se referiam a ela apenas como “a bonita” da turma.

Vez ou outra, eu fazia papel de bobo. Em uma dessas, havia sido o melhor em todas as atividades do dia na aula de educação física, inclusive na corda – modalidade em que ela se destacava. A menina não deu o braço a torcer e, embora em um tom mais afável do que despeitado, justificou-se cheia de razão, apoiando a mão sobre meu ombro: “Você só ganhou na corda porque eu ‘tô com o tornozelo machucado”. Eu só consegui responder um “eu sei” xoxo, personificando uma versão caipira do Charlie Brown, eternamente a se atrapalhar diante da Garotinha Ruiva.

Noutra ocasião, eu jogava futebol na rua de casa, durante as férias de julho – já na segunda série. Partia com a bola em direção ao gol, quando ouvi a voz inconfundível: “Feliiippe!” (prolongando a pronúncia do “li”). Era ela, que acompanhava a tia a uma costureira da vizinhança e se materializava ali, feito uma aparição. Estaquei paralisado, esquecendo-me da partida. Atordoado, peguei a bola com as mãos, abdicando de marcar o tento e, à revelia dos meus amigos, abandonei a pelada. Fiquei sentado à sarjeta e ao lado dela, conversando como se o mundo fosse acabar nunca.

Só na terceira série é que a coisa se deu. Num arroubo de coragem, entreguei a ela uma tira de papel, em que havia manuscrito “eu gosto de você”. Eu já estava carcomido pela agonia quando, dois dias depois, encontrei sobre minha carteira um bilhetinho escrito com letras redondas e esmeradas: “Gosto de você também <3”. Era como se eu me transbordasse de um não-sei-o-quê.

Foi depois de uma manhã em que fugimos dos colegas e ficamos de mãos dadas durante o recreio que senti a necessidade de concretizar aquela fase em presente. Usei o aparelho double-deck do meu tio para gravar, em uma fita virgem, “Oceano”, de Djavan. A música fazia parte da trilha de “Top Model”, a novela das sete, e era capaz de sensibilizar até moleques tolos como eu.

Depois das férias, subitamente, ela e sua família se mudaram de cidade e nunca, nunca mais a vi.  Não houve um abraço, uma carta de despedida, um adeus, nada. Fiquei sem endereço, sem rastro, sem rumo, apenas com a imagem do sorriso terno acompanhado dos olhos diminutos e a sensação daquelas mãozinhas finas entre as minhas. “Longe de ti, tudo parou/ Ninguém sabe o que eu sofri”. Os versos passaram a fazer mais sentido. Não me lembro se cheguei a lhe entregar a fita cassete – é como se, eu tivesse suprimido o fato (ou não-fato) da memória. Ainda hoje, no entanto, quando ouço a canção, me recordo dela.

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Epitáfio

copo

Tenho por princípio que um copo de cerveja e dois dedos de prosa não se nega a ninguém, principalmente a quem esteja sofrendo de amor. Por isso, quando meu celular tocou – já onze horas passadas – e ouvi do outro lado da linha uma voz aflita balbuciar “Tá foda, cara!”, eu nem titubeei: deixei de lado o Vinícius (o de Moraes), meti um velho moletom no corpo e caminhei sem pensar até a esquina, onde meu amigo já me esperava, com o carro ligado e as feições alteradas pela angústia. Era nítido que doía.

Dirigiu em silêncio até um desses botecos “pé-sujo”, onde ainda é possível permanecer ao balcão de fórmica e, entre goles de cerveja, bebericar uma daquelas cachaças artesanais amarelentas do litoral. Com a ênfase de quem sente necessidade de deixar a dor exposta, contou-me detalhadamente, mais uma vez, o que eu já sabia. Havia quase um mês, fora obrigado a bater o portão sem fazer alarde e a partir com a certeza de que já ia tarde: seu namoro chegara ao fim.

Ele e ela formavam um desses casais improváveis que, à primeira impressão, um nada tem a ver com o outro, mas, contraditoriamente, soam perfeitos juntos. Cometeram, no entanto, o pecado capital de alimentar pequenas inseguranças, que cresceram e vieram a se tornar o mostro que terminou por lhes devorar o relacionamento – não o amor. Permaneciam como que diante de uma equação insolúvel. Nenhum dos dois abriria mão de sua verdade, ainda que isso lhes custasse o que lhes era mais caro. Era inevitável e triste.

“Nove meses, Felippe! Nove messes… o tempo de uma gestação”, ele repetia nas pausas, pontuando o período em que estiveram juntos. “Em vez de nascermos, morremos…”, concluía em seguida.

De quando em quando, saíamos até o canteiro da frente, para que ele tentasse queimar num cigarro parte do que lhe amargava. A cada tragada, perdia os olhos na lua cheia, que emprestava mais melancolia à cena. Era como se aspirasse, junto com a fumaça, um quinhão da dor que rebentava em seu peito, fazendo-o suspirar. Parecia anestesiado, impotente, entregue.

Num desses intervalos, telefonei para ela, que atendeu com voz vacilante. Após se recompor, declarou com firmeza e de forma pausada, como fazem os que estão convictos do que dizem: ainda o amava – e muito. Mas que quilate de amor seria aquele, se ela já estava com outro? Chorou que ninguém sabia o que se passava em seu peito e que, em certas circunstâncias, sentir o que sentiam não bastava. Havia um “abismo intransponível”. Desligou aos soluços.

De volta ao balcão, pensei em mencionar um ensinamento do meu velho pai, segundo o qual se um relacionamento tiver que acabar, que aconteça o quanto antes: melhor sofrer agora do que acumular dor maior para depois. Pensei em dizer que tudo ficaria bem. Emudeci. Naquela circunstância, nem eu conseguia acreditar em uma coisa ou em outra. Foi o dono do bar, um senhor de cabelos brancos bem penteados e que acompanhara com devotada atenção as minúcias do relato, que diagnosticou a morte e iniciou o sepultamento.

“Esqueça, rapaz! Ela não vai voltar. Você está fodido. Vai sofrer que nem cachorro até passar”, disse num tom afável e casual, que destoava da dureza das palavras.

Ato contínuo, fez um sinal para que esperássemos. Ao canto do salão, deteve-se por um instante, com um vinil em cada mão. Qual médico que exibe um elixir indicado para o mal especifico, sorriu brandindo um dos discos, que, triunfante, colocou na vitrola. De cara, reconheci a introdução de “Deslizes”, de Michael Sullivan, que veio na voz anasalada de Fagner.

Meu amigo assimilou a canção, absorto, como se cada palavra e cada acorde fossem morrer dentro de si. Nos versos finais (“Em outros braços, tu resolves tuas crises/ Em outras bocas, não consigo te esquecer”), debruçou-se sobre o balcão, como quem acusa o golpe. Pediu bis, durante o qual chorou um pranto digno e silencioso, sem espasmos, sem soluços, apenas com as lágrimas vertendo dos olhos claros, correndo feito veios de um riacho.

Por fim, enxugou o rosto com as costas das mãos, abraçou primeiro o velho do botequim e, depois, a mim. No caminho de volta, não disse uma palavra: apenas dirigia, tentando não perder de vista lua imensa, que as nuvens cerradas tentavam esconder. Antes de saltar do carro, dei-lhe dois tapinhas no ombro. “Vai passar”. Já com ar sereno, ele respondeu: “Vai. Eu acabei de morrer. Agora, só me resta viver”.

 

Em tempo: hoje pela manhã, o protagonista da história leu a crônica e autorizou a publicação, desde que se mantivesse o anonimato. Foi ele quem sugeriu o título.

A rua perene

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No terracinho da casa número 43, na João Antônio Alves

Eu me aproximava da velha rua degustando cada passo. Embora fizesse muitos e muitos anos que meus pés não me conduziam por aquele caminho, não havia ansiedade. Pelo contrário. O ato me soava simbólico até: pela manhã, havia me olhado no espelho e me visto, de repente, com trinta e cinco anos e parecia alheio a mim mesmo. Agora, dobrar a esquina e mergulhar na rua em que passei os primeiros anos da adolescência fazia tudo parecer ter sentido.

A João Antônio Alves continua a mesma ruela que se estende por apenas duas quadras, embora – é verdade – muito tenha mudado. Não se ouve mais bulha de moleques; já não existem muitas das árvores de copa cerrada, em que trepávamos para assustar quem passasse por debaixo; e as muretinhas caiadas, nas quais as vizinhas se debruçavam para ver a vida se arrastar, deram lugar a grades pontiagudas ou a muros verticais impávidos. É como se a via tivesse se tornado um corredor de concreto e asfalto, silencioso e impessoal, acossado por paredões que se impõem de forma hostil.

Apesar das transformações irrefreáveis, a rua carrega a mesma atmosfera: há o mesmo cheiro e a tarde cai como se a vida fosse um eterno estender-se sem compromisso. Ainda sou capaz de enumerar cada casa, associando-as aos respectivos moradores da época e descrevê-los com a verdade de um menino. Poderia narrar inúmeras passagens em que figuraram como personagens gente como dona Adelaide, seu Luís, Tonho ou dona Laudelina.

Era como se a qualquer momento os irmãos Rômulo e Robson pudessem sair da casa da esquina, trazendo uma bola de capotão. Chamaríamos o Serginho ou o Jackson, usaríamos pedaços de tijolo como traves e disputaríamos uma pelada – tomando efetivo cuidado para que a redonda não viesse a cair no quintal da dona Catarina, que certamente a furaria, acabando com a partida. Quem sabe os moleques das ruas adjacentes – o Victinho, o Thiagão, o Gordinho, o Botina, o Zé Galinha, o Fuminho ou o Júlio Orelha – também aparecessem, como sempre dava de acontecer.

Detive-me diante da residência de número 43. Não se trata mais da casinha de quatro cômodos e de quintal vasto em que cresci e que, posteriormente, meu pai demoliu para construir outra mais moderna e menos charmosa – e que, poucos anos depois, a recessão da década de 90 o forçou a vender. Tive ímpetos de tocar a campainha, de pedir para entrar, só para ver se ainda havia algo de “minha casa” ali. Contive-me. Não me agradaria ver a “minha casa” violada pela intimidade dos outros.

Em frente à casa 43, me dei conta de que já não tenho nada – ou muito pouco – daquele menino que achava ser possível ganhar o mundo, levando a João Antônio Alves no bolso. O moleque que usava shorts curtos demais para suas pernas finas agora é um homem de trinta e cinco anos, “precário, provisório, perecível/ falível, transitório, transitivo*”, marcado muito mais pelas suas derrotas do que pelas parcas vitórias, que se percebe como completa fraude, que tenta manter o equilíbrio se esforçando por se convencer de que o fracasso é uma questão de ponto de vista e que as quedas nos fazem quem somos.

As ponderações foram interrompidas pelo portão de uma das casas vizinhas, que se abriu diafanamente, me fazendo sorrir um “boa tarde” familiar. “Você é quem eu estou pensando?”, perguntou a senhora, como se já soubesse da resposta. “Mas está a cara do seu pai!”, completou. Não foi difícil reconhecê-la. Dona Cida tem os mesmíssimos traços, embora sulcados por umas poucas rugas, e o mesmo olhar calmo. É uma mulher bonita. Do outro lado da rua, surgiu o seu Pedro, que, assim que se lembrou do meu nome, fez uma piada qualquer e fez ecoar sua gargalhada retumbante. Traz os cabelos muito brancos, embora aparente o mesmo vigor de décadas atrás.

A prosa na calçada se estendeu por uns quantos minutos, até que dona Cida e seu Pedro fossem tragados por seus respectivos afazeres cotidianos. Fiquei um tempo ali, em silêncio, vislumbrando o moleque que fui e reconectando as duas pontas da minha existência. Em tempos em que as mudanças se sucedem convulsivamente feito o eterno rolar da tela de uma rede social, se torna reconfortante pisar lugares perenes, com pessoas perenes, que, em essência, permanecem os mesmos, apesar de mutáveis. Quis tirar os sapatos e andar descalço naquela rua, como se pudesse me fincar naquele chão qual raiz de aroeira. Mas, talvez engessado pelo “juízo” dos trinta e cinco anos, não o fiz. Que seja este o último arrependimento. Amém.

* Vivo (Lenine/ Carlos Rennó)

Cafés suspensos

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A caixa de papelão fino estampada com círculos coloridos em tons pastéis jazia num canto esquecido sobre o guarda-roupa. Estivera ali o suficiente para que eu não conseguisse precisar quanto tempo fazia, embora soubesse bem o que o embrulho continha: uma garrafa térmica verde-claro e um suporte para filtro número 102 – desses marrons, feitos de plástico. Talvez eu tivesse relegado o pacote àquele limbo justamente por não querer me lembrar dele. Ainda doía. Mas agora ele estava ali, concreto, táctil, real, a escancarar o que eu quis esquecer.

O “kit café” era um daqueles presentes com segundas intenções – em que você é o real beneficiário, não a pessoa que efetivamente “ganha” o mimo. Comprei para ela, mas na verdade – e na cara-de-pau – era para mim. É que na casa dela havia uma daquelas cafeteiras elétricas que, embora muito bonitonas e práticas, produzem um café que é incapaz de se manter quentinho por tempo suficiente. Tenho sempre a impressão de que o líquido gela tão logo cai na xícara, tornando inviável o ato de prolongar o ócio matinal – em que se degusta cada gole fitando o nada, mesmo que se esteja soterrado em atraso e sono.

Na ocasião, vivíamos um instante parecido com o último assalto de uma luta de boxe em que ambos os pugilistas estão tecnicamente empatados e se limitam a rodar pelo ringue, sem que alguém ouse a dar o passo em direção ao imponderável. Ficam nessa, até que o juiz intervenha e os repreenda por falta de combate. O “kit” talvez viesse a ser uma tímida tentativa de golpe – ainda que soasse como um jab desajeitado. Não houve tempo. É como se o árbitro tivesse encerrado o duelo antes do fim.

A garrafa térmica verde-claro e o suporte para filtro número 102 nunca cumpriram o destino que imaginei quando os comprei num supermercado próximo de minha casa e os coloquei na caixa de papelão fino estampada com círculos coloridos em tons pastéis. Não cheguei a presenteá-la, confessando que pensava, na realidade, nos cafés que eu haveria de tomar – mas na companhia dela, que ficasse bem claro.  Não houve tempo. De repente, aquilo não se tratava de um pacote, mas da simbologia concreta de algo que “poderia ter sido e não foi” (desculpe-me pelo verso furtado, Bandeira). Ainda doía.

Resoluto, peguei o volume e caminhei serenamente até a cesta de lixo em frente a minha casa, onde o depositei, fazendo votos de que todas as lembranças se fossem junto com aqueles objetos todos. Para ser ainda mais clichê, desejei que algum catador de recicláveis descobrisse ali a garrafa térmica verde-claro e o suporte para filtro número 102 e lhes desse um fim digno: que estes viessem a preparar muitos cafés, daqueles que se estendem pelas manhãs preguicentas. Enfim, virei-me sem olhar pra trás e entrei.