Para fingir que há sol

disco

É inconsciente, quase instintivo. Basta que o céu se ponha cinzento e a escala do termômetro recue umas quantas gradações gelando-me as mãos, para que eu faça com que uma seleção de música brasileira ecoe pelos cantos da casa. Quando a vitrola ataca um Chico ou o computador bamboleia uma playlist do Paulinho da Viola ou do Adoniran, é como se o ziriguidum do ritmo sincopado tingisse o horizonte de um azul celeste e ganhássemos uns graus a mais. Cantarolando, dou de ombros para o frio, ignorando-o solenemente – e com malemolência, é claro.

Está bem! É um autoengano, eu sei. No fundo, a friaca continua ali, a me fustigar nos mínimos afazeres cotidianos, mas o cancioneiro tupiniquim parece amenizar a melancolia que o tempo carrancudo nos impinge sem dó. Tanto que, se eu tivesse que rotular esta categoria fonográfica, chamaria de “canções para fingir que há sol”.

Basta uma análise rápida para concluir que o melhor da música brasileira não existiria se vivêssemos neste inverno glacial, com o vento gelado zunindo eternamente em nossas orelhas. Por exemplo, alguém acha que sairia alguma bossa se Vinícius e Tom estivessem sentados em um café, quando veriam Helô Pinheiro passar em seu sobretudo, “num doce balanço” a caminho do shopping? Por mais elegante que a tetéia estivesse, não renderia verso algum.

Como Cartola cantaria a “Alvorada” do Morro da Mangueira? Com o tempo fechado e tristonho, não haveria “o sol colorindo” (e é tão lindo), tampouco “a natureza sorrindo, tingindo, tingindo”. Também duvido que, num frio de rachar, Zé Keti se animaria a perambular pelos botecos, “levando o violão debaixo do braço” (como em “Diz que eu fui por aí”). Por mais agasalhado que estivesse, ele ficaria é amuado em casa, quiçá pertinho do aquecedor.

Também não creio que Chico arriscaria levar aquela legião de amigos pra mandar ver numa feijoada completa, com caipirinha e “cerveja gelada pra um batalhão”, se estivesse um diazinho embolorento. Do mesmo modo, caso a previsão do tempo apontasse geada iminente, o povo lá casa do Martinho jamais se estenderia em bebedeiras e samba – mesmo sendo tudo gente bamba. Aposto uma dose de conhaque (pra aquecer).

Toda encapotada – e não em seu vestido grená – qual vizinha mexeria “com o juízo do homem que vai trabalhar”? Caymmi não se sentiria tentado a pegar o violão, nem que a mulher mexesse com as cadeiras pra lá e pra cá. Os Novos Baianos, por sua vez, ao constatarem o nevoeiro noturno, jamais conclamariam o Brasil a esquentar os pandeiros e iluminar os terreiros. Duvido até que quisessem sambar. Desta forma, certamente que o Tio Sam não se interessaria pela nossa batucada.

Nem os sambas mais pungentes teriam vingado. Com o frio partindo os lábios, quem andaria por aí, rindo à toa? É certo que a moça estaria contraída em suas várias camadas de roupa, sem a menor disposição para mostrar os dentes. Não haveria sorriso para se tirar do caminho do Nelson Cavaquinho e perderíamos uma pérola.

Frio é triste e deprimente que só. Logo, não rende bossa, nem samba. Silencia os violões, cala os instrumentos de percussão, emudece os compositores. (Ou alguém tem notícia de que Marcos Valle compôs “Samba de Inverno” ou de que Jorge Ben tenha cantado as maravilhas de um “País Temperado”?). Enquanto o filete de mercúrio do termômetro insistir em ficar lá embaixo, esta será minha transgressão: vou continuar me enganando com a boa e velha música, fingindo que lá fora há um sol estalado, nos conclamando a uma vida de sorrisos, chinelos e pouca roupa. Ainda que imaginário, que ele nos aqueça.

 

Felippe Aníbal

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Vitrolinha

Todas as noites, meu pai se apoiava na mureta do terracinho de casa, sacava um maço de cigarros do bolso da camisa e metodicamente escolhia um, embora fossem todos iguais. Enquanto nós, os moleques, aproveitávamos os últimos instantes antes que nossas mães nos convocassem, indicando o caminho do banho, meu velho permanecia ali, como quem ruminava os acontecimentos do dia, dando-lhes o peso exato que cada qual merecia.

Vez por outra, um e outro adulto ia se achegando. Quando a prosa assumia um tom baixo e os semblantes se carregavam com um quê entre o pesaroso e grave, nós interrompíamos as brincadeiras ou os jogos. Cessávamos a algazarra e ficávamos ali perto, acompanhando a conversa dos mais velhos, porque sabíamos o que aquilo significava: alguém tinha morrido.

Os adultos falavam baixo, talvez em sinal de respeito ao morto. Sempre se juntava ao grupo o Vitrolinha, um gorducho bonhachão que havia sido de tudo – de Rei Momo a técnico do time da cidade – e que, por isso, era conhecido por toda a gente. Carismático, era ele quem passava a conduzir a prosa, narrando passagens ou causos que envolviam o falecido. Sempre o fazia de modo a deixar uma imagem positiva do conhecido que partiu.

De repente, a roda se sucedia em expressões carregadas de senso comum: “coitado, descansou…”, “ainda ontem estive com ele…”, “é, pra morrer basta ‘tá vivo”, “é a única certeza que a gente tem”. Por fim, Vitrolinha olhava com um ar meio matreiro e arrematava:

– Antes ele do que nós!

Longe de soar como um desrespeito ao defunto, a frase parecia uma celebração à vida, que irremediavelmente seguia. Para os moleques, a quem aquelas conversas representavam o primeiro contato com a morte, era como se esta deixasse de ser algo pesado. Enfim, todos podiam voltar a suas respectivas casas, cada qual dando conta de sua própria vida.

Muitos anos depois, quando já não morávamos mais na mesma vila, soube da notícia pelo meu pai: Vitrolinha havia morrido. Meu lamento se tornou ainda mais profundo quando me dei conta de que ninguém conduziria com tanta graça o rito de contar causos sobre ele. E olhe que Vitrolinha tinha histórias pra contar. Lembrei-me de algumas delas e sorri. Por fim, disse a mim mesmo:

– Antes eles do que nós!

Bruxa

Ela só voltava para a casa no finzinho da tarde, quando o sol cuidava de ir-se indo. Trazia os cabelos – muito brancos e curtos – sempre parcialmente escondidos por um chapéu de palha e de abas largas. Apesar da idade que denotavam as rugas que lhe sulcavam a pele, vinha sempre em passos vigorosos, carregando pelo ombro dois ou três tipos de vassouras e um rodo, e, em uma das mãos, um regador. Era com esses utensílios que passava o dia se dedicando àquele que se tornou seu ofício: limpar túmulos no cemitério.

Morava na casa à esquerda da minha. Quando as bolas de futebol ou de taco – que, posteriormente, ganhou o nome afrescalhado de “bets” – caíam no quintal dela, não tinha jeito: ela as confiscava, acabando com a nossa brincadeira. Às vezes, vociferava e nos rogava pragas, ao que saíamos num carreirão. Por isso, ganhou o apelido de “Bruxa”. Os moleques mais velhos diziam que ela tinha parte com o diabo – por isso trabalhava no cemitério – e que trazia objetos dos mortos para usar em magia negra. Pouco a pouco, a alcunha pegou. “Olha a Bruxa”. “Lá vai a Bruxa”.

Eu acreditava desacreditando, afinal de contas, gostava da velhinha. Achava graça quando ela olhava através dos óculos redondos, como os de Lampião, e me perguntava qualquer coisa usando o “vossa”. “Vossa mãe está aí?”. “Essa pipa é vossa?”.  Na novena de fim ano na casa dela, encantavam-me o cheiro de passado e os móveis muito antigos, impecavelmente limpos e lustrosos.  Vá lá… ela tomava nossas bolas, era um tanto ranzinza, mas, puxa vida, não era bruxa. Ainda assim, eu continuava, aqui e ali, chamando-a desta forma: Bruxa.

Somente anos depois, soube que ela tinha perdido um filho, morto no rio. Era para ficar perto do túmulo onde o rapaz estava sepultado que havia começado a trabalhar no cemitério. Talvez a bagunça dos moleques na rua a fizesse lembrar-se do menino. Foi a morte que a amargurou. Nós, os meninos, não tínhamos sensibilidade para captar a dor dos outros. Por isso, continuávamos a salpicar pelas maldades sádicas pelos cantos. Bruxa! Que Deus nos perdoe.

Sarapiá

 

Stone floor

O nome de batismo era Durvalino, mas desde que me dou por gente chamava-no de Sarapiá. Era raro encontrá-lo nos arredores do casebre da estrada da biquinha, onde morava com a mãe, dona Maria. Quando se sucedia na cachaça – e isso era quase sempre -, ele passava dias perambulando pela cidade, dormindo ao relento, buscando guarida sabe-se Deus onde. Não faltava quem lhe desse um prato de comida, uma moeda como esmola ou mesmo lhe pagasse um trago da “marvada”. Por isso, era mais fácil encontrá-lo perto da igreja matriz ou na avenida do comércio.

Vez por outra, eu me juntava a outros moleques e saíamos pela cidade à procura da Sarapiá. Encontrávamos-o numa esquina qualquer, equilibrando-se sobre as próprias pernas, com o chapéu amarfanhado metido na cabeça e, molambento, com as botinas gastas e calça com barras pela altura das canelas. Era quase um Mazaroppi de pileque. O seguíamos pelas ruas, importunando-o, só para vê-lo xingar os palavrões mais cabeludos.

Uma provocação era recorrente: “Sarapiá, quer um copo de leite?”, gritávamos. Ele respondia injuriado, aos berros, como se lhe tivéssemos ofendido profundamente. “Não sou bezerro, fia da puta!”. Eu seguida, completava: “Eu quero pinga! Pinga ni mim!”.

A morte de Sarapiá causou profunda consternação à cidade. Não me lembro direito, mas gosto de pensar que seu velório reuniu mais gente que funeral de vereador ou empresário endinheirado. Talvez tenha sido assim. Cidade pequena sabe valorizar seus bêbados ilustres. Em paz, Sarapiá.