Bater à máquina

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“O homem só tem duas missões importantes:amar e escrever à máquina. Escrever com dois dedos e amar com a vida inteira”. (Antonio Maria)

Todas as vezes em que me visita – e isso são duas vezes por ano – a pequena se detém diante da máquina de escrever, qual estivesse frente a frente com uma peça de museu. Põe-se a mirá-la com um misto de reverência e assombro, como se aquele objeto de muitas teclas tivesse se materializado ali, advindo sabe-se Deus de que recôndito perdido do passado. Findo o deslumbre inicial que invariavelmente a acomete, ela se vira para mim e, em uma voz terna – subterfúgio infalível das crianças – suplica como se ordenasse ou ordena como se suplicasse: “Você põe uma folha?”.  A menininha sabe que, diferentemente dos itens do museu, ela pode desbravar com os dedinhos curiosos cada letra e cada mecanismo daquele utensílio tão incomum ao seu cotidiano.

A pequena – Julia, a minha sobrinha – tem cinco anos e meio e mantém pela máquina um fascínio que brotou à primeira vista, quando não passava de um toquinho que mal pronunciava as palavras e, por óbvio, sequer conhecia as letras. (O mesmo ocorreu comigo, quando, ainda moleque, me deslumbrei pela Olivetti cinza que o vô Antonio comprou). Hoje, Juju já sabe como se faz para passar à linha seguinte, que a barra corresponde ao espaço e que deve bater uma tecla de cada vez – para que as hastes não se encavalem junto à fita. Tenho para mim que o que mais a encante seja o fato de as letras ficarem impressas no papel imediatamente à medida que se datilografa, ao som dos “tec-tec-tecs”. Apesar de terem todo o tempo do mundo, as crianças têm uma urgência irrefreável, como se a vida fosse um eterno agora.

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Juju e a Olivetti

A minha máquina – uma Olivetti, modelo College, verde-escuro – caiu-me às mãos oito anos atrás, herdada de uma colega. Eu havia acabado de chegar a Curitiba e ocupava um quarto espremido em uma pensão da Rua São Francisco, quando ainda sequer se pensava na revitalização da via, que mais tinha cara de cracolândia. No meu cômodo não havia tevê, rádio ou computador, de modo que a Olivetti e uns quantos livros eram minhas únicas companhias. Eu avançava às madrugadas debruçado sobre ela, metendo avidamente letras sobre o branco das folhas e, é claro, incomodando o sono dos pensionistas dos quartos contíguos. “Tec-tectectec-tec-tec-tectec-clin!”.

Ainda hoje, procuro usar a velha Olivetti ao menos uma vez por semana. Apesar do charme do exemplar, não o faço por estética, por apelos românticos ou por modismo, mas por exercício. É que o bater um texto à máquina obedece a uma lógica própria, bem singular e diversa, por exemplo, da de quem redige ao computador. Este pode se dar ao luxo de correr os dedos pelo teclado, jorrando palavras na tela, como quem atira uma ideia ao ar. Há a possibilidade de se suprimir erros, arrastar vocábulos para lá e para cá, lapidar frases, até chegar ao acabamento ideal.

Quem se senta à máquina acata outra dinâmica. Há que se redigir mentalmente toda a sentença para, só então, lançar os dedos às teclas. Cada palavra, recurso estilístico ou pontuação deve ser pensado previamente de forma milimétrica e dentro do conjunto final, como uma composição acabada e imutável.  A máquina não admite erros, meu amigo. Só quem datilografa conhece a dor de se ver obrigado a arrancar uma folha escrita pela metade, amassá-la e deitá-la ao lixo, por se ter errado a grafia de uma palavra ou ter se perdido no fio de uma argumentação. Trata-se de outro processo, mais lento e – talvez por isso – mais bonito.

Foi mais ou menos o que expliquei a Julia no inverno do ano retrasado, quando me perguntou qual “botão” apertava para apagar. Só ali me dei conta de que estávamos diante de uma metáfora da vida – não apenas em relação à impossibilidade de suprimir os erros, mas principalmente pelo ritmo em que as coisas se dão. No mais das vezes, seguimos adiante, devorados pelo cotidiano, como se digitássemos maquinalmente ao teclado de um notebook, qual se o dia fosse um texto sem fim. Mais velocidade, mais informações, em um eterno estar-se conectado. Existimos quase sem refletir sobre a própria condição: apenas somos. Continuamente. Pois na vida, camarada, às vezes é necessário preparar o papel, ajustar as margens, respirar fundo… e escrever à máquina.

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Os cegos e o mau-cheiroso

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                                                                                 “Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, que vêem, cegos que vendo, não vêem”

 (em “O ensaio sobre a cegueira”, José Saramago)

Assim que terminei de ler o último parágrafo, permaneci uns quantos minutos com o livro aberto sobre a palma das minhas mãos, pousadas no colo. Atônito, fitava o nada, embasbacado, como quem tenta dimensionar a amplitude daquilo que eu ainda digeria. Por fim, fechei o exemplar num só golpe e disse para mim mesmo: “Ca-ra-lho!” (assim mesmo, separando as sílabas). Já faz mais de dez anos que li “O ensaio sobre a cegueira”, mas todas as vezes em que me recordo da obra, é como se eu revivesse a reação que tive.

É chover no molhado, eu sei, mas vamos lá. Não foi propriamente a metáfora da cegueira que me arrebatou, mas a maneira como as personagens vão perdendo a humanidade conforme as adversidades se lhes apresentam e se acentuam. A satisfação das necessidades mais básicas faz aflorar um egoísmo cru, que nos torna em algo muito próximo de animais. Com a fome, tudo se esvai: civilidade, vínculos afetivos, princípios morais, sensibilidade, empatia.  É como se Saramago nos mostrasse a cada episódio que, quando se é posto a situações extremas, não há limites para a degradação humana: pode-se descer a patamares impensáveis.

O que me trouxe “O ensaio sobre a cegueira” de volta não foram condições tão extremas assim, mas o ônibus expresso em horário de pico. Um parêntesis: pegar um coletivo pode ser uma experiência antropológica e raramente deixa de ser um exercício de paciência. Quanto mais lotado, mais algumas regras básicas de convivência são ignoradas conscientemente – e eu diria até que com orgulho, por alguns. Nossa humanidade pode ser sumariamente corrompida pela luta vil por um palmo de espaço ou para embarcar primeiro. Entre cotovelaços e desaforos, ainda que por um instante, deixamos de ver o outro. Cegamo-nos.

Ao ônibus expresso em horário de pico: o homem embarcou no ponto seguinte ao meu. Tinha os olhos cansados, mas uma expressão que sugeria a dignidade de quem venceu o dia de serviço. A pele marrom curtida pelo sol e as roupas sujas denotavam que trabalhava na lida pesada. Pedreiro, talvez. Postou-se ao meu lado, rente às janelas da esquerda. No bafo quente do biarticulado em que não cabia um vivente mais, ele exalava um cheiro forte de suor.

Duas estações adiante, quando a lotação beirou o insuportável, uma senhora começou a olhá-lo com desprezo para, adiante, ascender a um tom próximo da raiva. “Meu Deus, mas que fedor!”, dizia, olhando para ele. É como se a mulher tivesse aberto uma porta, por onde irrompiam vociferações e olhares de reprovação lancinantes dirigidos ao homem, que seguia impávido. As indiretas, no entanto, se tornaram mais agudas: “Misericórdia, que cheiro de merda!”, cravou a mesma.

“Não é cheiro de merda, não, senhora. É cheiro de trabalho. Cheiro de trabalhador”, retruquei. Como se fosse um ato ensaiado, o ônibus estacionou no terminal, as portas se abriram com estardalhaço, o homem pediu licença e saiu – de cabeça erguida, como convém aos que estão dotados de razão. Do outro lado, um estudante não se conteve. “Vocês se acham mais gente que os outros, não é? Espero que consigam respirar em paz agora”, disse, secamente. A mulher dos impropérios pareceu ser massacrada por um silêncio sólido, mas este durou uns poucos segundos, ao fim dos quais outra leva de gente embarcou, com novas cotoveladas, disputas por centímetros quadrados e olhadelas feias.