“La perra”

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Pendurada na parede do corredor à entrada do quarto, a lousa branca me incomodava. Talvez por destoar gravemente da rusticidade da casa, o quadro atraía invariavelmente o meu olhar, provocando um pequeno mal-estar. Intacto, nunca trazia nada escrito, um risco sequer, fazendo parecer que emoldurava o nada, um sem-fim branco. Naquela manhã, no entanto, enquanto eu esfregava os olhos, tentando a muito custo despertar definitivamente, notei, no canto inferior esquerdo do quadrilátero, duas palavras grafadas em pincel atômico preto. “Vámo, compañera”.

A letra denotava um quê de vacilância, apesar aparente do esforço do autor para parecer firme. A expressão de incentivo vago não poderia ter sido escrita por outra pessoa, senão pelo anfitrião, um homem que era todo lucidez e serenidade. O silêncio que abraçava a casa tornava os rabiscos ainda mais significativos. De imediato, deduzi que as palavras teriam relação com “la perra”.

Não me disseram qual era o nome ou a raça da cachorra, se comia ração, se gostava de correr entre os pinheiros. Tampouco eu nada lhes perguntei. Soube apenas que a mascote contava dezesseis anos e vivia com os pais da “compañera” – era, portanto, como da família. Vinha severamente enferma e os murmúrios aflitos que acresceram nos dois últimos dias indicavam que seu quadro clínico estava à beira do irremediável.

Quando a porta dos fundos se abriu num rangido lamentoso, notei que o anfitrião tinha os olhos mais expressivos que o habitual. Vinha exasperado, tropeçando em si mesmo (ele, tão compenetrado), como quem carrega um mau prenúncio. Com voz pausada, quase solene, mas da qual se depreendia um acento de tristeza, comunicou-me que seguiriam as orientações do veterinário: sacrificariam “la perra”.

Sentou-se, acendeu um cigarro e se absteve em uma dimensão paralela, particular. Tentava entabular conversa, mas se perdia e silenciava, envolto à fumaça que soltava em baforadas confusas. Pensava, talvez, na dor da “compañera”. O calor e a umidade pareciam nos soterrar ainda mais, impingindo peso descomunal ao acontecimento e fazendo com que gotas de suor se arrastassem com imenso pesar por nossas têmporas. Calei-me também. Pousei minha mão em seu ombro, como se dissesse “estou aqui”, e ali ficamos, compartilhando daquela quietude, que parecia congelar temporariamente a vida, até que adviesse o inadiável.

Este se apresentou tão logo ouvimos um carro estacionar no gramado lateral à casa. “Mi compañera”, murmurou ele, tirando a camiseta e atravessando num átimo a porta dos fundos. Tive ganas de segui-lo, mas me contive. Imaginei um momento deveras particular – abraços, lágrimas e manifestações íntimas – que não deveriam ser violadas por um terceiro. Deixei-me cair sobre uma cadeira, tentando adivinhar o que se passava lá fora.

Um punhado de minutos depois, o anfitrião – que havia tornado a entrar para pegar uma garrafa d’água – desviou o olhar para o chão, sugerindo incômodo, quando eu lhe supliquei, meio sem jeito e em portunhol torto: “Deja que te ayude”. Deixou-se permanecer com o olhar perdido num ponto qualquer, a ponderar. Por fim, sacudiu a cabeça e suspirou um indeciso “ai, vá”.

Do lado de fora, a “compañera” vinha como que anestesiada, com olhar morteiro. Como que para desmentir o peso da cena – ou, talvez, para amenizar a própria dor –, minimizou a perda, quando timidamente manifestei meu pesar. “Era muy vieja”, disse, com voz embargada, me atando a um abraço apertado e prolongado.

Como que por instinto, descalcei os chinelos, tomei a pá, me meti dentro da cova que abriam – e que já tinha cerca de meio metro de profundidade – e passei a cavar com vigor. O solo era arenoso e cedia fácil aos golpes, mas o emaranhado de raízes, que formavam uma rede subterrânea, dificultava o trabalho. Quando dei por mim, já não sei quantos minutos adiante, em pleno sol das onze horas, minhas roupas já estavam encharcadas de suor e minha coluna latejava pelo esforço repetitivo. Era, contudo, como se a dor e o incômodo expiassem minha culpa por não estar sofrendo como eles pela morte de “la perra”. Quanto mais me cansava, com mais violência eu atacava o terreno. Mordia o canto da boca para não arfar e acusar que estava extenuado.

Assim que se tornou impossível ocultar meu esgotamento físico, o anfitrião tomou a pá de minhas mãos e, em alguns movimentos rápidos, finalizou o trabalho. Quase em seguida, a “compañera” se aproximou carregando “la perra”, envolta em um lençol de cor clara, quase branco. A mulher caminhava com tanto cuidado e delicadeza que era como se a cachorra ainda estivesse viva em seus braços. Tão logo passou por mim, vi o rosto do animalzinho desfalecido, pendendo para fora do tecido. Tratava-se de uma vira-lata preta, com pelos alvos em torno da boca. Por um instante, parecia que dormia. Mas ao fitar com mais atenção, vi que a boca de “la perra” denunciava um aspecto de bicho morto. O cambalear do corpo ampliava a certeza de que se tratava de um cadáver.

Antes que a “compañera” pousasse o animal no fundo da cova, o anfitrião teve o cuidado de, às pressas, colher um flor cor-de-rosa no jardim e depositar no túmulo improvisado. Em seguida, deu dois tapinhas no meu ombro: “Vámo!”. Permaneci sob a sombra de um pinheiro, mirando a copa da árvore que se erguia para mais de vinte metros. Ele sentou-se no porta-malas do carro e pôs-se a fumar mais um cigarro. Mantivemos a privacidade do último ato do sepultamento.

Quando o anfitrião se aproximou novamente, pedi perdão por ter invadido um momento tão íntimo – talvez ele tivesse preferido ficar a sós com ela, para se despedirem de “la perra”. “Mejor así”, tranquilizou-me. Para mim, era apenas uma cachorra que eu sequer havia conhecido, de modo que, apesar da tristeza vulgar que sempre bate nesses momentos, aquela morte não me dizia tanto quanto para eles e eu me penitenciava por assumir aquilo. Para eles, eram dezesseis anos de sabe-se lá de que tipo de cumplicidade e convivência. Até a morte é relativa, apesar de sempre provocar dor. “Así es la vida”, resumiu o anfitrião, sob o sol de verão de minhas vacaciones que gritavam que ela, a vida, continuava.

 

Piriápolis, Uruguay – Fevereiro de 2016

(editado em Curitiba, março de 2017)

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Músicas de dentro

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O velho aparelho de som – modelo três em um – permanecia mudo na estante da sala quase que o tempo todo. Meus pais não eram dados a ouvir rádio e não havia discos na residência, apenas umas quantas fitas cassete, gravadas com narrações de partidas de futebol do time em que meu pai jogava. Hoje, visitando o lugar a partir da memória, chego à conclusão de que a falta de música tornava a casinha mais silenciosa do que efetivamente era. Ainda assim, o que havia eram sons domésticos – passos apressados, um talher que caía, o chiado da panela de pressão, a prosa por cima do muro com a vizinha –, mas nada que insinuasse mínima melodia que fosse. Do portão pra dentro, a música era eterna ausente.

A salvação se concretizou nas sonatas portáteis de minha irmã, nas quais ela, a criançada da rua e eu ouvíamos LP’s de toda sorte de músicas infantis. Carregávamos os aparelhos para toda parte, de modo que, graças a isso, nossa infância teve trilha sonora e das melhores. Ainda posso cantarolar ao menos pequenos trechos de canções que constavam d’A Arca de Noé, dos discos do Trem da Alegria, do Balão Mágico ou do Xou da Xuxa.

A primeira sonata era miúda, menor que uma caixa de sapatos. Vinha pintada de vermelho e na tampa, que se convertia em caixa de som, havia um desenho da Minie, empunhando um microfone. Nesta, ouvimos mais coisas do naipe de “Ilariê” e “Piuí abacaxi”, pois eram tempos em que as meninas queriam ser como a Xuxa e os moleques se identificavam com o jeito debochado do Juninho Bill.

Quando a sonatinha parou de funcionar, meu pai comprou uma um tanto melhor – mais robusta, com mais potência. Era da cor creme e, esta sim, da marca Sonata. Foi nela que pusemos a rodar em sentido contrário um disco dos Menudos, só para constatarmos a lenda urbana segundo a qual haveria mensagens satânicas escondidas no LP. Ouvimos com nossos próprios ouvidos emanar das caixas de som “Satanás vive, Satanás vive”. Instantaneamente, o aparelho se queimou, provocando um tropel de crianças apavoradas, cada qual correndo para sua casa. Atribuímos o fato a entidades malignas, ignorando que o motor frágil da sonatinha não havia sido feito para girar em modo reverso.

Também havia música no carro de meu pai, embora em acervo reduzidíssimo. Engraçado que não consigo me recordar do modelo que o velho tinha nessa época – se Brasília, 147, Belina ou algo que o valha –, mas lembro-me perfeitamente das duas fitinhas que ficavam no console junto ao painel e que minha irmã e eu sabíamos de cabo a rabo. Mal embarcávamos e já metíamos uma delas no toca-fitas, erguíamos o volume e seguíamos cantando junto, aturdindo quem quer que fosse ao volante.

Uma delas correspondia a um disco com músicas da Copa de 86. Salvo engano, chamava-se “Mexicoração” – uma aglutinação picareta de México (sede do Mundial) e coração. Ouvíamo-la mesmo nos anos seguintes ao mundial, para desespero de meus pais, que provavelmente também decoraram o repertório. “Vai no peito e na raça/ Buscar nossa taça/ e ensinar pro mundo inteiro a sua dança…”.

A outra era uma fita do álbum “Meu disfarce”, de Chitãozinho & Xororó, cujas canções dublávamos, minha irmã e eu, fazendo caras e bocas. Foi ouvindo “Fogão de lenha” – a segunda música do “lado A” – que numa noite dessas tive uma revelação que pode parecer óbvia, mas que não o era para um menino de sete ou oito anos de idade: que um dia eu teria que sair de casa para fazer minha própria vida.

Na noite da epifania, enquanto a canção tocava, eu digeria verso por verso (“Mãe, eu lembro tanto a nossa casa/ As coisas que falou quando eu saí…”) e pensava na casinha de quatro cômodos e de quintal grande, que um dia inevitavelmente eu teria que deixar pra trás – com as pessoas e tudo que elas representavam. Manifestei minha angústia ao meu pai, que redarguiu: “A vida é essa, filho”. Meus olhos se encheram d’água, mas não derramei lágrima – porque tem coisas que a gente tem vergonha de demonstrar, mesmo no escuro do banco de trás do carro da família.

Talvez pela epifania deflagrada pela música, anos mais tarde – já em vias de sair de casa –, Belchior tenha me feito tanto sentido, entre “Alucinação”, “Fotografia 3×4”, “Galos, noites e quintais” e afins. Como escreveu Oswald (o de Andrade), “O Brasil é uma república federativa cheia de árvores e gente dizendo adeus”. Tem jeito, não, que saudades é coisa pra carregar e, quem sabe, seja uma das formas de manifestação de amor – aos que ficaram, a um pedaço de chão. Fato é que, ainda hoje, quando ouço “Fogão de Lenha”, sinto um nó se atar à garganta e, ainda que em pensamento, beijo um por um dos meus que deixei pra trás.

Ouça aqui “Fogão de lenha”