O mesmo de sempre

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Ilustração: Beto Almeida/ Estúdio Rabisco

Adentro o ambiente com desconfiança. O salão retangular se estende por sobre um piso resplandecente que lembra um tabuleiro de xadrez gigante, mas transversal. Cismo com os pontos de luz reguláveis que formam um quadrilátero no teto e que dão o tom de iluminação de clínica particular. Entre os quadros pendurados na parede oposta, distingo a fotografia em preto-e-branco de uma mulher nua, sentada de pernas abertas, querendo se fazer sensual e que tem o sexo ocultado por uma garrafa de uísque. À direita, outros pôsteres que completam a decoração retratam atores ou cantores da década de sessenta – todos estrangeiros –, algumas frases em estilo lambe-lambe e uns rostos masculinos desconhecidos que ostentam barbas abastadas e bem delineadas. Por um instante, penso que estou num pub rockabilly ou algo que o valha, mas as três cadeiras perfiladas me recordam de que se trata de uma barbearia.

À medida que ajusta uma capa preta em torno do meu pescoço, o cabeleireiro apregoa uns quantos modelos de cortes dos quais nunca ouvi falar. Os estilos são identificados a partir de expressões que não tenho ideia do que possam significar, todas em inglês, exceto o chamado “degradê” – o qual, por este motivo, escolho. O sujeito que manuseia a tesoura explica prévia e exaustivamente cada movimento que está prestes a executar e que efeito pretende com isso alcançar, qual ministrasse uma aula.  Ele se mostra excessivamente prestativo, feito vendedor de loja de departamentos, desses que exalam simpatia artificial, o que me põe irritadiço.

Ora ou outra, no entanto, ele para e pede a minha opinião acerca de algum detalhe a ser levado a cabo. Sem ter ideia do que responder, sinto-me como naqueles exames oftalmológicos, em que se senta ao refrator – é este o nome do aparelho – e o médico vai passando de lente em lente, cada qual como um grau diferente, perguntando insistentemente: “Qual fica melhor: esta ou aquela?”. E você não consegue notar diferença alguma. Por fim, respondo qualquer coisa. Tudo o que eu queria é que me cortasse logo o cabelo e pronto.

Contrariado, caio em devaneios que retrocedem até a velha barbearia do Gim, no centro da cidadezinha. É como se eu pudesse ver o chão de piso gasto e recoberto de mechas cortadas, algumas das quais iam se prender aos chinelos de dedo que o ilustre cabeleireiro sempre usava. Ali ao fundo, ficava o armário de madeira que guardava um invejável acervo de revistas – quase todas de mulher pelada. Se a manutenção de tal coleção naquele espaço pudesse ser questionável, ao menos soava autêntica: era o que era, diferentemente do salão modernoso, que à escusa da arte exibe imagens de pinups sexys, insinuando os seios à mostra.

Enquanto nos desbastava a tesouradas, Gim conversava sobre toda sorte de assuntos, mas tinha predileção explícita – é claro – por futebol. Não se falava de Champions Leaguevade retrum, torcedores gourmets – mas, especialmente, da crônica esportiva local. Magro feito uma ferpa e dono de uma vasta cabeleira acompanhada de um bigodinho ralo que o faziam lembrar Capitão Gancho, Gim não tinha porte de jogador, mas, em campo, se transformava num dos zagueiros mais moralizadores – eufemismo para os botinudos de respeito, que descem a ripa com categoria. Uma vez, ainda moleque, pus-me orgulhoso porque ele me vira jogar e elogiou meu tino para marcação e elegância no passe.

De quando em quando, Gim se perdia por causa da prosa e assinalava uma ou outra barbeiragem (perdoem-me pelo trocadilho).  Certa feita, distraiu-se com a discussão sobre a legitimidade de um pênalti marcado na rodada do fim de semana e, quando deu por si, havia me talhado o pé da nuca com a navalha, quando já dava acabamento ao corte. Como que para aplacar o sangramento, embebeu a mão em um produto à base de álcool e pousou sobre o ferimento. Urrei de dor, mas contive as lágrimas. Apesar de criança, não convinha chorar ali.

Como não marcava horário, Gim atendia os clientes por ordem de chegada. Às vezes, demorava mais de hora até chegar a vez, mas pouco importava: havia a resenha sobre futebol, quadros toscos pintados à mão dos quais a gente ria (suspeito que eram pintados pelo próprio Gim) e as Playboy’s, para nos encher os olhos e a imaginação (embora, às vezes, tivéssemos que ocultá-las dentro de revista de automóveis, para evitar que os velhos ralhassem conosco). Meu único medo era que um dia Gim me cortasse o cabelo em estilo tigelinha – o que, por sorte, nunca aconteceu.

De volta ao salão sofisticado, o barbeiro segura um espelho retangular por detrás da cadeira, permitindo que eu veja o resultado do seu trabalho. Sorri, orgulhoso, e o imagino qual artista plástico que exibe sua obra prima. Por fim, propõe passar uma pomada capilar, à guisa de “finalizar o corte”. Tento dispensar o préstimo, mas ele começa a elencar as vantagens do produto. Acabo assentindo, menos por convicção, mais para me livrar logo daquilo. Nem bem deixo o salão, despenteio o próprio cabelo com gestos bruscos, como se, com isso, fizesse desimpregnar a atmosfera da barbearia fru-fru. Mais uma vez, lembro-me de Gim. Às vezes, tudo de que se precisa é de chegar, sentar-se à cadeira e dizer: “O mesmo de sempre”.

*  Gim morreu anos e anos atrás, mas a barbearia continua encravada no centro da cidadezinha, tocada por Totó, seu fiel escudeiro.

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O choro do sonho do Waltel

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Waltel Branco, repassando uma partitura

No início, causava-me estranhamento e certa agonia vê-lo dormindo daquela forma. Deitado de costas e coberto até a cabeça, parecia que jazia finado em sua própria cama, em decúbito dorsal. Vez ou outra, já cheguei a cogitar, apreensivo, que ele havia se ido, de tão imóvel que permanecia debaixo das camadas de mantas e edredons. Eu só afastava a possibilidade ao constatar o movimento suave do tórax encoberto, que denunciava respiração. Era, aliás, de se perguntar como ele conseguia inspirar o ar ali, com a cara metida sob a coberta.

“Ele”, no caso, é o maestro e arranjador Waltel Branco, de quem me aproximei quase dois anos atrás e com quem passei a conviver, ora com mais, ora com menos intensidade – e de quem compilo histórias, na expectativa de registrá-las em livro. Por conta disso, tornei-me habitué daquele quarto do segundo andar do hotelzinho modesto do centro, onde ele mora. O porteiro – o seu Zé – já se acostumou a minha presença, de modo que ganhei a prerrogativa de subir sem ser anunciado e, como a porta fica sempre encostada, entrar sem fazer alarde.

Quando Waltel está dormindo, eu costumo posicionar uma cadeira perto da cabeceira da cama e ficar pacientemente lhe velando o sono, até que ele desperte e, após esfregar os olhos com lentidão ensaiada, saudar-me com um “Ô, rapaz”. Em outras ocasiões, detenho-me em alguma partitura que ele tenha, por acaso, deixado sobre a estante ou me ponho a esquadrinhar os porta-retratos – e sempre me assombro com o fato de os pais dele, Ismael e Lia, terem tido traços tão parecidos. Ou, ainda, corro os olhos por sobre a escrivaninha – tão abarrotada de miudezas quanto a minha – e, a partir dos objetos espalhados, tento adivinhar o que o maestro teria feito antes de pegar no sono.

Às vezes, o descanso do músico se estende para além do que meus compromissos podem esperar e eu me vejo obrigado a deixá-lo entregue aos braços de Morpheus. Antes de sair pé ante pé e dar uma última olhada para, qual filho zela pelo descanso do pai, constatar que ele dorme bem, tenho por hábito escrever um bilhete curto – algo como, “Waltel, estive aqui. Volto em breve. Um abraço. Felippe”. Só então parto, carcomido de curiosidade, imaginando que cenas estariam se sucedendo nos sonhos do maestro e que tanto lhe atrasam o despertar.

Coisa de dez meses atrás, tive uma amostra disso. Passava das onze da manhã, quando Waltel, enfim, tirou a cabeça de debaixo dos cobertores, como quem emerge das profundezas. Ajustou o aparelhinho no ouvido esquerdo em um movimento vagaroso, ao fim do qual eu disse algo, só para ele esboçar um sorriso afirmativamente, confirmando que o dispositivo estava funcionando. Passou um tempo ali, recostado à parede, com os olhos estalados, mas fixos no nada, como se fitasse uma tela invisível em que o sonho repassasse diante de suas retinas. Ao fim de um tempo, confidenciou:

– Rapaz, essa noite eu sonhei com um pernilongo. Um mosquitinho chato paca, sabe qual é? Ficava zunindo na minha orelha. E ele me perseguia e perseguia uma menininha, também. Tinha umas poças d´água no chão. Acho que tinha chovido. E fugindo, eu fiz um chorinho pro pernilongo.

Depois de um curto silêncio, como ponderasse acerca de uma decisão a ser tomada, o maestro pediu: “Pega pra mim”, apontando o violão que adormecia no suporte. Dedilhou dois ou três acordes, a fim de averiguar a afinação do instrumento e, de olhos fechados, fez jorrar um chorinho cadenciado, cujo andamento, de quando em quando, variava de forma a criar a sensação de que algo – ou tudo – girava. Era como se o próprio pernilongo zunisse, numa perseguição infinita. Pedi bis, no qual ele tocou exatamente igual, exceto a parte derradeira, que ganhou um contorno lento – quase pastoso – qual explicitasse o fim. “Acho que ficou melhor assim”, justificou a mudança.

Ali, tive certeza de que estava diante de algo extraordinário. Waltel não compõe ao violão ou a qualquer outro instrumento, mas diretamente na pauta musical. Escreve suas criações de forma absoluta, sem precisar, para isso, fazer soar um acorde sequer. É como se ele ouvisse a música dentro de si e a transcrevesse. Eu mesmo já havia visto o velho maestro – com óculos na ponta do nariz e lápis à mão – pontilhando notas e compassos em folhas pautadas, qual estivesse em uma dimensão paralela. Aquela, contudo, era a primeira vez que ele dava vida a uma música a partir de um sonho.

– Você já tinha feito isso, Waltel?

– De sonhar, assim, e vir música? Nunca. Primeira vez – assentiu.

Naquele dia, antes de ir embora, fiz Waltel jurar que transcreveria para a pauta o “Chorinho do Pernilongo” – como batizei a composição alheia. Duas semanas adiante, entretanto, quando lhe perguntei pela partitura, ele respondeu com outra interrogação – “Partitura? Que partitura mesmo?” –, dando mostras do jeito avoado que, para mim, é traço indissociável à sua genialidade. Talvez não fosse pela cabeça constantemente nas nuvens, não compusesse com tamanha distinção. Por fim, lembrou-se do sonho, do “mosquitinho chato paca” e que tocou a música ao violão, mas nada de o chorinho ressuscitar: estava definitivamente sepultado em algum canto da sua memória.

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A estante de partituras do Waltel

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