Inferno

fosforo

Quem levantou a questão foi um jovem filósofo que acabara de se matar – não bebendo cicuta, como o outro, mas com um tiro seco na cabeça, diante impossibilidade de adaptar-se às entranhas da humanidade. Como não poderia permanecer no céu – visto que era um suicida –, pediu uma audiência com Deus. Encontrou-O sentado em seu trono celestial, a coçar a barba que se estendia pela face.

– Senhor, antes que eu seja enviado às chamas, queiras, ao menos, me satisfazer uma dúvida. Se todas as coisas do mundo foram criadas por Ti, então também Tu criaste o Inferno? E mais ainda: considerando que estás em todos os lugares ao mesmo tempo, também Tu estás no Inferno, ó Pai Celeste?

O Soberano se estremeceu na cadeira, franziu a testa e ajeitou os longos cabelos. Que diabos! Em toda a eternidade, ninguém jamais lhe colocara uma questão como aquela. Com certeza os anjos estavam mais a lhe bajular do que a apontar eventuais falhas que sua inefabilidade pudesse vir a cometer. E aquele filósofo – com certeza, um comunista desqualificado – estava certo. Deveria admitir que havia um paradoxo lógico (e teológico), reforçado pela sua onipresença.

Deixou temporariamente o finado filósofo de lado. Haveria de resolver este lapso, antes que o incidente vazasse, gerando uma crise celestial (e neste aspecto já lhe bastavam os golpes de Estado, cataclismas e desencarnes em massa que estavam ocorrendo). Chamou um anjo mensageiro e mandou-o convocar o Diabo para uma reunião secreta e urgente, no Purgatório, que era território neutro.

O Criador já se impacientava com os sessenta e seis minutos de atraso do Belzebu, quando um odor pesadíssimo de enxofre envolveu o ambiente. Em passos cadenciados, vinha o Capeta com seu peculiar riso irônico, chispado por detrás dos finos bigodinhos bem penteados.

– Salve, Alteza! – disse, com contornos de sarcasmo.

– Sente-se, Lúcifer. A situação é séria por demais e não podemos perder tempos com lenga-lengas. – pontuou o Magnânimo.

Deus então expôs o problema: se Ele havia criado todas as coisas e se estava em todos os lugares, logo também estava no Inferno. Por conseguinte, também teria arquitetado o Reino das Trevas.

– Ah, não me venha meter o dedo no meu Inferninho! – bradou o Coisa Ruim.

– Não estou interessado nos seus domínios e, sim, em achar uma saída para desfazermos este dilema teológico. – respondeu o Celeste, secamente.

De seu lado, o Demônio pôs-se a pensar, rodando levemente a cauda, enquanto o Senhor caminhava de lá pra cá, divagando em voz alta.

– Quando te expulsei do Paraíso, Lúcifer, apenas quis te isolar em um lugar qualquer. Jamais quis valorizar o Inferno…

– É… eu sei. Isso foi coisa daquele pessoal do Antigo Testamento. – completou o Diabo.

– Pois é! Nunca gostei daquela imagem que fizeram de Mim. Quem lê, pensa que eu sou um Deus vingativo e perseguidor, que exige sacrifícios de animais e que castiga seu povo por décadas ininterruptas de peste. – continuou o Pai.

– Ah, mas eu tenho que agradecê-los! Se não fosse por eles, o Inferno não teria hoje a notabilidade que têm! – sorriu o Capeta.

– É verdade! Depois veio a Idade Média e se esqueceram da glória do meu filho ressuscitado e passaram a apregoar a imagem dele morto, crucificado. Passaram a seguir meus mandamentos não por amor a Mim, mas por medo. Afff… isso é terrível! Quantas mortes injustas em meu nome… – soluçou o Altíssimo.

– É verdade! Mas admita que Seu Reino só existe ainda por causa do Inferno. Se não houvesse o meu território, não haveria medo. Não haveria Céu… Não haveria Deus… – argumentou o Belzebu.

– Talvez você esteja exagerando, meu caro. Mas a situação é, sim, preocupante. As igrejas neopentecostais estão aí para provar o que você acaba de dizer. Para cada vez que evocam o meu nome, dizem dez vezes a palavra “Inferno” ou “Demônio”. Parecem que gostam mais de você do que de Mim. Falsos milagres fazem aos montes, mas morrer na cruz que é bom, ninguém quer. – desabafou Deus.

O impasse perdurava, a discussão se estendia e não se chegava a nenhuma conclusão. Agora, o Demo reclamava dos custos de manutenção do Reino das Trevas. Só em gás para aquecer as caldeiras e fornalhas, eram milhões de dólares por ano. Assim, não havia entidade maligna que aguentasse. A situação estava virando um inferno. Foi Deus que, após uma iluminação divina, pôs fim à celeuma, em sua infinita sabedoria.

– Ora, o Inferno precisa existir, para a manutenção do maniqueísmo, caro Lúcifer. Entretanto, tive uma ideia que vai acabar com este paradoxo de Eu ter criado o Inferno e de estar nele também.

Silenciosamente e como num passe de mágica, o Pai suprimiu o Inferno da face do Universo. O Reino das Trevas não precisaria existir concretamente, em um espaço físico determinado e caracterizado com fogo, enxofre e ranger de dentes. Caprichosamente, Deus inseriu pedacinhos do Inferno no cotidiano das pessoas. A partir de então, as pessoas passariam a ter seus próprios demônios e seriam obrigadas a lidar com estes. O Inferno estaria, por exemplo, no cinismo, na mentira, na solidão, no fracasso, bem como em uma falsa amizade, no preconceito arraigado, em um relacionamento insepulto, em um emprego por conveniência, enfim…O Inferno passaria a estar escondido no dia-a-dia e cada um teria seu quinhão, de acordo com o que merecesse.

Segunda-feira, 22/02/2010 – 22h22

Editado à terça-feira, 31/05/2015 – 09h34

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Confesse!

livro

É mais forte que eu. Pouco depois de entrar em um ônibus, quando dou por mim, já estou ali, correndo os olhos pelas mãos de todos os passageiros. Se encontro alguém segurando um livro (pronto!), não sossego enquanto não descobrir o que a pessoa lê. Trata-se de um ímpeto incontrolável, um vício que só é saciado quando, triunfante, desvendo o título da publicação que o incauto cidadão carrega ou folheia. Eu reconheço, senhores: sou um voyer da literatura, uma espécie de espião das letras.

Hoje, já consigo lidar melhor com minha dependência. Sem dar tanta bandeira, lanço mão de estratégias dignas de botar no chinelo qualquer Otto von Bismark e, galgando letra por letra, sigo até conseguir inferir de que obra se trata. Só então sorrio, importante feito um Champollion que acabou de decifrar a Pedra da Roseta. Às vezes, detalhes da capa me ajudam no processo dedutivo. Houve um tempo, no entanto, em que eu me lançava à sanha com a voracidade de um recaído. Engolia a timidez de moço caipira e tascava: “Desculpe-me, mas posso saber o que você está lendo?”.

É bem verdade que, de uns tempos pra cá, os livros se tornaram cada vez mais escassos nos ônibus. Uma raridade mesmo. Unanimidade, agora, são os celulares, em cujas telas de cristal líquido os passageiros deslizam o dedo continuamente, como se estivessem em transe, absortos em um mundo paralelo. Nem vale a pena bisbilhotar o que tanto fuçam. Quase sempre são aplicativos de troca de mensagens instantâneas ou jogos.

Eu, que sempre aderi tardiamente às tecnologias, só me dei conta da substituição dos livros pelos gadjets num dia desses, em que, timidamente, usava o celular para ouvir música. Smartphone, só fui ter depois que meio mundo tinha se pegado no Tinder e que os grupos de WhatsApp tinham perdido a graça. Ainda hoje (pasmem os senhores) não assino Netflix ou Spotify.

Enquanto eu estava em pé no corredor, constrangido, com os fones atarracados nas orelhas, ouvindo uma seleção de músicas previamente escolhidas, percebi que praticamente o ônibus inteiro manuseava seu mobile. Entre eles, uma senhorinha que, sentada diante de mim, mirava impassível a telinha do aparelho. Forcei as vistas e notei que ela assistia a um vídeo pornográfico. O fazia sem o menor constrangimento ou pudor, sem sequer tentar enrustir o aparelho ou esboçar reação. Assim que a gravação – que devia ter pouco mais de trinta segundos – chegou ao fim, ela deu o play novamente e se deleitou uma vez mais com as imagens, com um ar de extrema naturalidade.

Não sei o porquê, mas me lembrei de que, semanas atrás, vi pipocar mais uma dessas ondas de Facebook: a do “Confesse!”. Você deve ter notado por aí. O autor da postagem prometia fazer, por meio de mensagem privada (o tal do inbox), uma revelação a quem deixasse grafado no campo de comentários um “Confesse!” (assim mesmo, com exclamação). As regras explicitavam que tal confissão deveria se tratar de algo que a pessoa nunca teve coragem de fazê-lo cara a cara e, é claro, deveria estar relacionada ao amigo que topou participar do joguinho. “Mas que deprimente”, pensei do lado de cá.

Estava claro. A senhorinha do ônibus é o avesso, a antítese pura da turma do “Confesse!”. A atitude dela me acertou em cheio, talvez pela autenticidade e desprendimento com que se pôs a fazer o que lhe apeteceu, dando de ombros a convenções sociais. Estava se lixando eventuais julgamentos, para o que pudessem pensar dela. Pois que tenhamos, ao menos, pequenos arroubos de liberdade como o da tiazinha do coletivo e ousemos, ainda que na pequenez cotidiana. Lancemo-nos, senhores! Confessemos, mas ao vivo e na vida.

O Sarapiá e a Brasilinha

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Durvalino Sarapiá, clicado por Nelsinho Meira

 

Os olhos estão entre a desconfiança e a timidez. É como se o Sarapiá olhasse meio sem jeito para a câmera – ou para o fotógrafo. Traz os braços cruzados, como se não soubesse o que fazer com as mãos, enquanto um boné depositado sobre a cabeça e uma camisa verde-militar lhe dão um ar quase sereno. Ouso dizer que, diferentemente de como costumava zanzar pela cidade, ele não estava de pileque no instante em que foi clicado.

Desde que a imagem me chegou ao computador – postada na minha página de Facebook pela Claudinha Meira –, não paro de tentar imaginar as circunstâncias em que foi produzida. Enquanto tento desvendar a história por detrás do retrato, cogito que se trate de um dos poucos registros do Sarapiá. Quiçá o único. Em síntese, é História.

Eu ainda não proseei com o Nelsinho Meira – o autor da foto – sobre o que o levou a sacar a câmera e fazer o click, mas infiro sua motivação. Pirajuense dos mais “boa-praças”, Nelsinho devia reconhecer o Sarapiá como um dos símbolos da cidade, figura do folclore local, expoente da nossa gente. Hoje, temos o retrato para celebrarmos um de nossos personagens mais ilustres, o nosso Chaplin caipira.

Talvez percepção semelhante tenha levado o compositor Mael Maranho a cantar que a cidade “tem até Chico Pelota e Sarapiá na praça, dando toda bandeira pra cidade inteira, procurando um poste pra se encostá, dormi, morgá até que os homi chega e: ‘vai trabaiá vagabundo! Pega o seu chapéu e some dessa área”. Talvez este mesmo sentimento tenha guiado as pinceladas da dona Diva Golfieri, que imortalizou o João Gato, outra notória persona das antigas, em óleo sobre tela.

Enquanto celebramos nossos mortos populares, a cidade se vê prestes a ter um de seus principais cartões-postais e patrimônios históricos – a Brasilinha – mutilado, descaracterizado e destruído. Da noite para o dia, os balaústres da década de 1960, as pedras portuguesas e as árvores quase centenárias se veem ameaçados por um projeto de gosto duvidosíssimo, cheirando a blindex e concreto.  É a História em vias de ser aviltada por uma sanha pseudo-faraônica, travestida de “progresso”.

Politiquentos insossos, movidos sabe-se Deus por que tipo de intere$$es, advirto-lhes: haverá resistência. Dia desses, dizia eu que a cidade sabe reconhecer seus bêbados ilustres. Hoje, vou além: valorizamos nossa essência. Às margens do Panema, somos, antes de tudo, fortes. Ainda hemos de admirar o pôr-do-sol e jogar pães para os peixes debruçados nos parapeitos históricos. Aí de cima, do alto do “poder”, vocês podem ser blindex. Mas nós, excelentíssimos, nós somos Sarapiá.

A banca

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Era como cantaria Caetano anos mais tarde: “Quase não tínhamos livros em casa/ E a cidade não tinha livraria”. Por isso, a Revistaria Tonon – única banca de periódicos da cidade – assumia um status quase sagrado, como se fosse um templo do saber, último bastião da informação, reduto máximo dos impressos. Em estantes brancas que iam do chão à altura da cabeça de um adulto, se dispunham ordenadamente toda sorte de revistas, jornais e álbuns de figurinhas. Em tempos distantes da internet, o que tínhamos eram aquelas centenas de publicações que continham o “conhecimento” de que se precisava. O próprio seu Lauro – o dono da banca – se postava por detrás do balcão como um sacerdote, com ares solenes ressaltados pela respeitabilidade de seu bigode branco.

A banca ficava ao lado do “Fórmula 1”, bar e lanchonete que pertencia ao meu avô Antônio, de modo que meu fascínio por ela começou quando eu não passava de um molequinho iletrado. Assim que eu chegava arrastando os chinelos, o “vô” insistia para que me servisse do que quisesse –  Guaraná, chocolate, balas, sorvete -, mas eu estava interessado era nos produtos da banca. Então, lá ia seu Antônio em seu jaleco azul me conduzir pela mão ao estabelecimento vizinho, onde eu escolheria um gibi do Chico Bento ou do Cascão, que, posteriormente, tia Nicéia leria para mim com paciência de santa.

Em casa, nunca houve assinatura de jornais ou revistas. Por isso, as incursões à banca eram quase um evento. Muitas e muitas vezes, eu ia só para olhar, como se estivesse diante de um produto valiosíssimo. Passava quase uma hora ali, folheando as revistas, namorando as capas e lendo a primeira página dos jornais. Saía desviando o olhar de seu Lauro, envergonhado por não levar nada. Às vezes, o cheiro de papel-jornal e a aura do local pareciam bastar.

Aos domingos, a banca fervilhava. Levas de pessoas saiam da missa – a igreja fica na praça do outro lado da rua – e iam direto comprar revistas semanais, os jornalões de São Paulo ou O Observador e a Folha de Piraju, os dois semanários da cidade. Formava uma fila de gente com seus exemplares a tiracolo, como se estivessem prestes a adquirir cultura em forma de papel encadernado.

Vez por outra, também eu comprava os jornais de domingo e voltava para a casa todo importante, como se levasse debaixo do braço um dos pergaminhos da Biblioteca de Alexandria. Já em casa, pegava caderno por caderno e os devorava inteirinhos. Posteriormente, soube que minha bisavó – a vó Dita – aprendera a ler sozinha. Lia tudo quanto lhe caía nas mãos. Quando havia jornais, ela os degustava de forma imponente, de cabo a rabo, na ordem das páginas – até os classificados.

Foi num dia desses que me dei conta. As bancas foram profanadas irreversivelmente, invadidas e dominadas pelos vendilhões de chocolates, chicletes, refrigerantes, cigarros avulsos e sorvetes. Os jornais do dia e as revistas especializadas – os santos de casa – já não fazem milagre, avassalados que foram pela fúria neopentecostal dos Tridents, Nestlés e Marlboros. Mesmo os donos das banquinhas já não guardam mínimos resquícios da beatitude local. Como se fora uma praga, a atmosfera sacra se desfez. Em meio ao apocalipse dos periódicos, segundo se tem notícia, a Revistaria Tonon resiste como último solo sagrado de uma civilização que está prestes a ser extinta.

 

Felippe Aníbal