Sinal fechado

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Assim que me viu por entre os carros passantes, do outro lado da rua, esperando que o semáforo esverdeasse, ela vacilou o passo por um instante e pude perceber que, de súbito e talvez num impulso impensado, comprimiu a mão direita de seu consorte, à qual já vinha agarrada, mas, antes, sem a exasperação provocada pela minha repentina aparição. Pude sentir a constrição entre meus dedos, feito se eu fosse um fantasma de mim mesmo que, de ora para outra, pudesse tomar o lugar do outro. Era como se eu é que estivesse, de repente, atado àquela mulher, como se nos tornássemos figura única, e, de onde estava, tive pétrea impressão de que ela pensava precisamente o mesmo, porque meneou o rosto da forma exata que fazia quando corava, com os olhos perdidos em um ponto qualquer do chão. Nisso, desviei o olhar para ele, a partir do extremo que a tocava: mãos de pianista, braço longilíneo em mangas de camisa e ombros retraídos que iam dar num rosto caucasiano e bem desenhado, contornado por fiapos de uma barba rala e por cabelos de um louro queimado, que lhe pendiam lisos sobre a testa. Era a primeira vez que o via e, assim, a uma leitura inicial, considerei-o insosso, mas certo de que meu julgamento vinha contaminado pelo despeito. Ainda assim, como uma vingança vil, mas sem efeito e baseada em elementos subjetivos, duvidei de que ele tivesse um naco sequer dos meus subterfúgios. Era visto que não lia Neruda para ela; que não havia descoberto aquele ponto no finzinho da curva ossuda da cintura em que ela gostava de ser apertada nos momentos mais lascivos; que não tinha ciência de que era afeita a levar na cara, mas em instantes muito íntimos que eu sabia identificar como ninguém; e tampouco que encarava como um mimo delicado beijos na sola dos pés. Ela até podia puxá-lo para debaixo do chuveiro, como fazia comigo, mas jamais conseguiria lhe lavar a barba com a polpa dos dedos reentrando entre os fios, enquanto, sob olhar incandescente, murmurar um “eu te amo” cheio de certezas, ainda que com uma ponta de receio diante da grandeza do que acabara de assentir.

Fazia um ano, nove meses e três dias que eu não a via. Sei bem porque a vez derradeira havia sido dois dias depois do meu aniversário e aquilo foi como se tivesse escancarado as portas de um inferno astral atrasado e, talvez por isso, agravado por juros como forma de correção. Sofri, chorei, tomei porres, ouvi músicas de dor-de-cotovelo, escrevi versos de qualidade duvidosa, procurei-a em outras bocas, saciei-me em outros corpos, até que ela veio a se tornar apenas uma sombra do que havia sido. Agora, ela estava ali, do outro lado da rua e a sensação de que ela não me queimava mais se convertia quase num vazio. Os cabelos não vinham mais em ondulações tênues que eu gostava de acompanhar com as costas da mão, mas se apresentavam cortados à altura do rosto, tingidos em tom de mel e acrescidos de uma franja que, por um lado lhe tiraram um pouco da personalidade, mas, em troca, lhe emprestavam certo ar pueril. Não tanto pelas mudanças, mas mais pelo espaço que deixara de ocupar, ela me lembrava uma réplica do passado, porém em formato mais ordinário. Como analogia, imaginei-a qual a reimpressão de um livro raro e de tiragem já esgotada, mas com apêndices extras e nova capa, enquanto eu sempre acabo preferindo o exemplar original, de páginas amareladas, ainda que este jaza em algum canto da estante de que não me recorde. Quando ela fitou o sinal – ainda estacado no vermelho –, notei que seus olhos tinham um quê de tristeza, escondida pelo ar de respeitabilidade que ela tentava manter, amparada pelas mãos do rapaz de cabelos amarelos. Vai ver, fosse aquilo mesmo o que ela almejasse: andar pelo passeio, escoltada por alguém, quem quer que fosse. Exalava o mesmo ar agastado de quem tenta se arvorar às próprias escolhas, ao mesmo tempo em que se faz convencer de que a vida vai melhor assim, como quem se entretém com um prêmio de consolação. Agora, ela executava uma leve pressão com os molares superiores no canto do lábio: é certo que estava ansiosa, quiçá angustiada. Não sei bem porquê, mas naquele instante me perguntei se ela ainda procura com a boca a cicatriz que tenho na parte interna do braço, qual era dada a fazer, como se o ato de mordê-la lhe ampliasse o gozo ou fosse cacoete deflagrado em ápices de prazer. Talvez ela ainda goste de ser acordada no vão da madrugada, por meio de mordiscadas na nuca que finge não sentir, só para que estas se convertam em beijos prolongados. Pode ser que sinta falta da forma como eu a aninhava nos braços para lhe velar o sono e nos quais ela dormia, emitindo, de quando em quando, leves ressonares, que eu imaginava indicarem o ritmo com que transcorriam seus sonhos.

As feições dela se crisparam de pavor instantâneo quando o vermelho começou a piscar, anunciando a iminência do verde. Só então tentei tomar consciência de mim mesmo e, ao sentir os pés plantados no meio-fio, conclui que devia estar com aparência tranquila, com a desimportância de figurante entre a miríade de transeuntes que aguardava o sinal. Ajeitei o bigode num gesto mecânico e assim que meti as mãos nos bolsos com segurança relaxada, o verde se acendeu, abrindo margem um vai-e-vem de passos apressados, de lado e de outro. Segui caminho em linha reta e quando tentei me concentrar em um ambulante que, ali adiante, apregoava bilhetes da loteria federal, percebi que ela fazia um esforço descomunal para afastar sua trajetória da minha rota, porém pisou em falso com o sapato de salto alto, torcendo o tornozelo esquerdo, prostrando-se no asfalto. Cheguei a fazer menção de parar, mas prossegui devagar, enquanto o moço loiro a levantava e constatava que ela apresentava um dos joelhos em carne viva. Ao chegar do outro lado da rua, detive-me à calçada, titubeei por um instante mínimo e dei meia-volta. Vi-a manquitolando com dificuldade, puxando da perna esquerda, amparada pelo namorado e – talvez se valendo do acidente – desatando num pranto sentido. Vi-me, de imediato, acometido de uma pena tremenda, que me provocou ganas de correr até ela, ajoelhar e lhe beijar a ferida. Por óbvio, não o fiz. Fosse um ano, nove meses e três dias atrás, eu teria levado o intento a cabo e lhe lavaria o sangue da perna com lágrimas, deixando claro que chorava por amor e não porque sofria. Mas fazia muito tempo que não havia amor, apenas uma sombra, de modo que permaneci ali, feito estátua de carne e osso, imóvel, até que o sinal mudasse de cor novamente, dando acesso ao fluxo contínuo de carros, através do qual a vi dobrar a esquina com certa dificuldade.

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De outros carnavais

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Tio Pedro 70, em algum carnaval do passado

A foto me chegou pelo grupo de WhatsApp da família, às vésperas do carnaval. A imagem em preto-e-branco mostra o salão do clube da cidade entupido de foliões, em um baile das antigas. À direita, um homem de portentoso bigode e que tem as madeixas salpicadas de confetes se distingue da multidão. A julgar pela boca entreaberta, eu arriscaria que ele cantava uma marchinha, marcando os compassos com os braços escancarados. Em um segundo olhar, percebo ainda outros detalhes: a camisa com dois botões abertos e o objeto que ele segura com a mão direita – provavelmente, uma boneca de pano – lhe ressaltam o ar de irreverência tranquila. Corro mais uma vez os olhos pela fotografia e me é nítido que era ele quem mais se divertia naquele recinto.

O homem em questão é meu tio Pedro 70, um personagem ilustre da cidadezinha e que nos deixou em 2005. Protagonista de uma vastidão de histórias divertidíssimas e já incorporadas ao folclore da urbe, tio Pedrinho era um desses pândegos que se misturava à festa de Momo, como se esta é que girasse em torno de si. Ia sozinho, mas nunca permanecia só. Estava com todos e, ao mesmo tempo, com ninguém. Abro mais uma vez a foto e tenho a sensação de que ela revela exatamente isso: a essência pícara e independente do lendário 70, que em matéria de folia deveria ser reconhecido como doutor.

Eu estava decidido a me enclausurar e não pular carnaval neste ano. Talvez visse alguns filmes, tentasse pôr a leitura em dia, quiçá assistisse ao desfile das escolas de samba pela tevê. A fotografia de tio Pedro 70, no entanto, não me saía da cabeça e, aos poucos, foi despertando os tamborins que eu tentava silenciar. Algo pulsava delatando uma obviedade de que eu, é claro, já sabia: minha carne é de carnaval.

Olhando em retrospectiva, dei-me conta do quanto o ziriguidum de fevereiro sempre esteve associado à minha existência, desde os primórdios em que minha mãe nos fantasiava – a minha irmã e a mim – para as matinês. Era somente nos carnavais que meu pai se permitia a beber e a girar pelo salão, cantarolando marchinhas. Reza a lenda que, ainda na juventude, tomou seu único porre uma vez em que se vestiu de mulher e só acordou no dia seguinte, com uma bruta ressaca e com os peitos assados por causa de duas laranjas que havia metido num sutiã para simular seios fartos. Depois que o Mirtão – seu companheiro dos últimos bailes – se foi, o velho Rafael se entrevou e nunca mais arriscou um “mamãe, eu quero” que fosse.

De minha parte, fui crescendo de modo a acumular um repertório respeitável, das clássicas “Ta-hí” e “Jardineira” às nonsense “Coração de jacaré” e “A bruxa vem aí”, passando pelas hoje polêmicas “Maria Sapatão” e “O teu cabelo não nega”. Modéstia à parte, meu amigo Celso e eu éramos imbatíveis neste quesito, a ponto de puxarmos de bate-pronto dezenas e dezenas de canções, sem repetir uma sequer. Ríamos, por exemplo, da “Marcha do cachorro”, que rebatizamos de “Melô da mentira”, por causa do refrão que dizia: “Tá, tá, tá, o mundo tá no fim/ Tanta mulher correndo atrás de mim”. De quebra, ainda desfiávamos uns quantos sambas-enredo, entre os quais, preferíamos “Sonhar não custa nada, ou quase nada”, da Mocidade. Ainda o tenho na ponta da língua.

Havia quase um roteiro carnavalesco, que começava com as escolas de samba. Em companhia do Celso e do Pintinho, eu costumava sair na bateria da Abre Alas, do Mestre Crispim, em que tocávamos surdo ou ganzá. Em seguida, começava o baile de carnaval no clube, nos quais era corriqueiro ver o Kaguinho rodando pelo salão, aspergindo punhados de confetes pelo ar. Depois, já com o dia amanhecendo, seguia-se ao Alvorada, para restabelecer as energias com uma canja de galinha e, enquanto esperávamos nossa vez, matávamos o tempo tascando pimenta-cumari no prato dos bêbados desatentos, que, posteriormente, refugavam, lacrimejantes, diante da ardência que os fazia cuspir fogo pelas ventas. Ao voltarmos pra casa, já dia claro, assim que passavam por nós, as velhinhas que iam à missa matinal nos desconjuravam, fazendo sinal da cruz, como se tivessem visto assombração.

Era assim todos os dias, exceto na terça-feira, quando após o baile de carnaval, a orquestra saía do clube com os instrumentos de percussão em mãos e, em fila indiana, ia até a pracinha, seguida por dúzias de foliões que não queriam ver o fim da festa: “Atrás da banda, atrás da banda/ Eu vou, eu vou, eu vou/ Toca, toca bandinha/ Que atrás da banda, eu vou na minha”. O carnaval só acabava para mim quando eu via minha mãe passar de carro, com a desculpa de comprar pão. Era a senha para que eu, bem ou mal, voltasse para casa.

Pois bem, voltemos. Posto em comichão pela foto do tio Pedrinho, acabei saindo à caça de carnaval do lado de cá e retorno alguns dias depois de ter zanzado pelos bloquinhos do Centro (alguns melhores, outros nem tanto), tomado umas quantas cervejas, topado com gente boa e de ter tornado a ver a orquestra capitaneada pelo Xapoca e pelo Jack que continua contagiante (lá no Saint Barth – vá lá ver) e com a qual tive a honra de dar uma canja. Com as panturrilhas latejantes e com resquícios de purpurina na barba e pelo corpo, pareço, enfim, apto a enfrentar o que resta do ano. No mais, agradeço ao velho Pedro 70, que, de onde quer que esteja, continua embalando foliões… ainda que por fotografia.

canja
“É hoje!”, na canja com a orquestra do Xapoca, no Saint Barth