Leia-me

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Era apenas o indício de um sorriso efêmero, que se sugeria a partir do leve arquear dos cantos dos lábios dela. No entanto, ainda que suave, o gesto me soou como um bom presságio, mas desses que se concretizam, porque, ato-contínuo, ela se pôs a ler a página em que o livro estava aberto sobre suas mãos espalmadas. Dizia cada palavra de forma precisa, qual entalhasse dentro de si cada vocábulo para, em seguida, atirá-lo ao universo, dando-lhe o significado exato. Eu não conhecia aquele poema, mas era como se ele sempre tivesse estado ali, feito verdade pétrea, absoluta. Nada parecia demovê-la de sua concentração, como se, naquele instante, estivéssemos presos a um mundo paralelo e ela existisse unicamente para aquilo. Do meu lado, eu não conseguia deixar de fitá-la, muito ereta, concentrada, e tinha para mim que ela é que era a própria poesia – e não o texto que declamava. Aquela boca, então, se pronunciava como um destino inexorável do qual eu não podia nem queria escapar.

Aquela foi a primeira vez e, a partir de então, eu jamais precisei pedir que ela tomasse um livro qualquer e o lesse pra mim. Sempre em tom casual e por vontade própria, ela alcança um exemplar na prateleira no momento preciso, se ajeita com certa cerimônia e se põe a degustar as páginas em voz alta. Talvez tenha consciência de que exerce sobre mim um poder semelhante ao de uma sereia literária – e se divirta com isso. Talvez apenas se deleite com a forma com que as palavras se sucedem sobre o papel. Quiçá o ato de ouvir a própria interpretação acentue o estado de ebulição em que certos poemas a colocam. Jamais saberei, posto que falar sobre este ritual seria o mesmo que violá-lo – o que nunca fizemos, nem o faremos. Mas quando ela desvia os olhos das páginas e me mira com satisfação, eu entendo que a sessão chegou ao fim. Cabe-me, então, cumprir minha sorte: beijá-la com a mesma verdade e dimensão com que ela recitava no instante anterior.

Ela tem inúmeros outros talentos que eu admiro, é verdade. Entre eles, o de desenhar com traços rápidos e firmes, esboços de corpos que beiram a perfeição, sem que ninguém precise lhe servir de modelo. A tela que fica sobre a cabeceira de minha cama, por exemplo, é de autoria dela, que a riscou a carvão, no dia seguinte a uma noite lasciva que tivemos. “Você me pegou em frente ao espelho”, ela sempre dá de dizer com certa malícia, sempre que se põe a observar o quadro que reproduz a cena. Mas não é só: ela também costura a partir de moldes que faz, toca acordeon de ouvido e é especialista no trato com orquídeas. Nada, contudo, se compara ao instante em que aquele naco de sorriso prenuncia a leitura do livro que ela traz em mãos. É quando o mundo passa a ser novamente apenas o balé calmo daqueles lábios.

Quando a ouvi declamar pela primeira vez, além da revelação de minha ventura, fui acometido por um desejo inconfessável: quis, um dia, poder ouvir da boca dela algo que eu tivesse redigido. Pretenso poeta e escritor bissexto, não deixei que ela soubesse de minha sanha. Atravessei madrugadas a fio, oculto, batendo à máquina ou escrevendo de próprio punho, páginas e mais páginas, mas nada do que compunha parecia digno daqueles lábios. Contrariando meus próprios impulsos, no entanto, não enchi o cesto do lixo nem amassei com raiva os papéis, de modo que os rascunhos desprezados já enchem duas gavetas trancadas à chave, que eu vasculho de quando em quando. Ainda assim, não me dei por vencido. Em noites como esta, luto comigo mesmo na vã tentativa de encontrar as palavras certas e encaixá-las na sequência exata e no ritmo ideal, para, quem sabe um dia, possam soar a partir da boca dela.

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