A guardiã da memória

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É curioso como a memória mantém algumas lembranças intactas, como se tivessem sido revestidas de um fluído milagroso que as preservam da corrosão natural provocada pelo tempo. Quase todo finzinho de manhã de domingo, ali do terraço da casa de número 13, dava pra ver a vó Inês subindo a ladeira, voltando da feira. Invariavelmente, ela trazia uma sacola de verduras e um frango vivo. Carregava o bicho segurando-o pelas patas, de modo que ele vinha de ponta-cabeça, num sacolejar mudo e resignado. Sem cerimônia, dona Inês sumia em uma quebrada no fundo do quintal e, depois de um instante, reaparecia com a penosa já sem vida. Até hoje, quando sinto o cheiro forte e inconfundível de pena queimada, me lembro da vó tacando água fervente sobre a ave morta, para depená-la. Eu tinha, então, cinco anos e, durante todo o processo, ficava ao lado do tanque, apressando a senhorinha que pacientemente limpava o frango que serviria no almoço: “Anda, vó! Depressa!”. Eu só parava de apurá-la, quando ela me dava as patinhas da ave, para que eu pudesse, com elas em mãos, perseguir minha irmã e minhas tias, que fugiam entre apavoradas e enojadas.

Tantas outras passagens permanecem igualmente conservadas, principalmente agora, perto do Natal – período de que a vó gostava tanto. Era batata. Todo comecinho de dezembro, por exemplo, ela se postava no jardim feito técnico de futebol e se punha a apontar cada ponto da árvore em que o tio Marcus, do alto da escada, deveria atar cada lâmpada do pisca-pisca. Depois, com o mesmo esmero, armava o presépio e montava o pinheiro de Natal – que, na época, me parecia enorme – embaixo do qual colocaria os presentes que comprava aos familiares. No dia 24, lá ia dona Inês à missa, toda arrumadinha, com brincos e colar. Só se servia a ceia e abriam-se os presentes quando ela regressava da igreja, depois de ter agradecido a Deus por mais um ano.

Outras histórias só me vieram pelas lembranças da vó Inês. Era ela, por exemplo, quem me descrevia com detalhes quase sensoriais a primeira vez em que pude pisar na areia. Contava que, depois de descalçar as botinhas ortopédicas – que eu era obrigado a usar para corrigir os pés tortos –, fiquei olhando para ela, como quem quer se certificar de uma permissão. “Pode, vó?”. Assim que ela assentiu, à beira do parquinho, enfiei os pés entre aquelas micropartículas ocres e gargalhei, sentindo nas solas a textura até então desconhecida. Em seguida, caminhei com firmeza, como se andasse no céu. Naquele dia, dizia dona Inês, voltei pra casa realizado. Eu não tenho mínima recordação desta tarde, mas cada vez que ela repetia a história, eu podia me ver bem moleque – quatro ou cinco anos – descalço na areia e feliz da vida. É como se a vó fosse a memória das passagens de que eu não lembrava.

Dona Inês sempre tinha na ponta da língua causos de todos: da mãe, das minhas tias, da minha irmã, dos meus primos e de gente que eu nem conhecia. Contava, ainda, histórias de assombração, que faziam minha irmã e eu ficarmos dias e dias sem dormir, porque bastava fechar os olhos para temer os fantasmas e espíritos sobre quem dona Inês havia falado e que poderiam estar, naquele instante, se esgueirando pelo escuro. A que mais me arrepiava – da Ritinha –, tratei de escrever, para que o causo nunca se perdesse. A vó, que não tinha medo de nada – exceto de mandorová – dava de ombros ao nosso pavor e desfiava os causos com naturalidade, o que acentuava o sabor das narrativas.

Em outras passagens que também conheci pela boca da vó, no entanto, a memória já começa a me trair nos mais pequenos detalhes, como se elas fossem se desvanecendo aos poucos. É um fragmento de diálogo que acaba se perdendo ou, então, me confundo em relação ao local onde a história aconteceu. Em outras, me esqueço de quem estava na cena ou, ainda, me foge o desfecho. Tem sido assim nos inúmeros causos sobre saci – que dona Inês contava, como se topar com a aparição fosse coisa tão corriqueira quanto ver um cachorro andando na rua – e na historieta do finado fazendeiro, que teve o corpo levado em pleno cortejo – por homens que, acreditava a vó, estavam a serviço do Coisa Ruim.

Dona Inês partiu há dez anos. É como se, com ela, tivéssemos perdido a maior parte de nossas lembranças, em pormenores e graça. Talvez toda avó seja isso, mesmo: uma guardiã da memória da família. Sem ela, cada vez estico mais o elástico das lembranças, tentando trazer as recordações mais pra perto. Nem sempre consigo, é verdade. Mas nisso, de olhar pra trás, se cristaliza o quanto a vó foi importante e, por conseguinte, percebo sua presença quase palpável. E, desta forma, sinto que dona Inês nos é eterna.

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O velho aymara

 

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Ruínas de Puka Pukara. Maio de 2011

 

O mochilão já se estendia por mais de vinte luas, nas quais não fazíamos senão mirar adiante, em direção ao porvir. Como era o nosso último dia antes do regresso, demo-nos o direito de olhar para trás. Vimos o legendário Tren de la Muerte e os vilarejos à beira da miséria que se estendiam às margens da ferrovia; Sucre e suas casas todas caiadas em branco para afugentar os maus espíritos que atraíam raios; as desumanas minas de prata de Potosí; Uyuni e o salar em que as nuvens se fundiam ao chão, lá no fundo do horizonte; o deserto boliviano, que esconde paz, lagunas e cemitérios de trens; La Paz e seu caos organizado; o Titiqaqa a reivindicar uma saída para o mar; e atmosfera ancestral de Machu Picchu. Não tínhamos uma noção clara de tempo e de espaço: ora a expedição parecia ter começado dia anterior, ora dava a impressão de que se arrastava havia décadas.

Estávamos, então, em Cuzco, a quem já havíamos esquadrinhado, como se não tivéssemos tempo a perder. Essa sanha, de certo modo, nos dava uma sensação de invulnerabilidade, o que talvez tenha me instado à ideia estúpida de alugar um cavalo – por excelência, um animal traiçoeiro – a fim de visitar outros quatro sítios arqueológicos que compõem o Vale Sagrado e que ficam a um raio de poucos quilômetros de onde estávamos hospedados. Cada um de meus colegas, por seu turno, já havia declinado de conhecer as ruínas incas e tiraram o dia para outros programas. Fui sozinho.

O ginete era desses bem treinados, capazes de percorrer o caminho de olhos fechados, como quem trilha um destino do qual não pode escapar. Era montar e esperar que o bicho conduzisse a jornada pela mesma senda de sempre. Quando dei por mim, vi o cavalo cabisbaixo, em um trotar monocórdio e insosso, quase triste. Era como se o animal  – cuja simbologia sempre esteve alinhada à condição de liberdade – sentisse vergonha do papel que desempenhava, subjugado. Senti-me um explorador vil. Tive ganas de dar meia volta, mas, acometido de uma inquietação medonha, tentei imprimir um ritmo menos débil. Foi como se eu tivesse despertado a condição selvagem do animal, que subitamente galopou para fora da trilha e, em seguida, desabalou em uma carreira sem fim, como se estivesse livre.

Do alto da cela, eu tentava me equilibrar, firmando pé nos estribos, quando, de relance e à esquerda da planície, avistei um vulto que fazia gestos bruscos, como se me orientasse a puxar as rédeas. Assim o fiz e com tal firmeza que o cavalo empinou sobre as patas traseiras, num relincho agudo – se eu não estivesse pasmo de medo, teria me sentido em um dos antigos comerciais do Marlboro. Como se tivesse voltado a si, o ginete deu meia volta e caminhou uns poucos passos até um charco, ali perto, onde passou a beber água desapressadamente, como se nada tivesse acontecido.

Acariciei o dorso do animal, como que para desfazer o mal-estar que porventura tivesse ficado entre nós e fui ter com o homem que havia orientado minha reação. Tratava-se de um senhor de feições indígenas, que me cumprimentou com um aceno. Tinha olhos diretos, trazia os longos cabelos brancos atados em um rabo-de-cavalo e, quando falava com seu vozeirão rouco, era como se portasse toda a verdade do universo. Era de linhagem aymara e, na língua de sua etnia, seu nome queria dizer “Filho da Terra”.

Havia nascido em um pueblo nos arredores do Titiqaqa, de onde havia saído décadas atrás para plantar milho na área rural de Cuzco. Só então notei que o velho aymara apontava para frente, ao mencionar o passado – fosse pra falar da infância no sul peruano, fosse para narrar a morte tranquila do pai. Por outro lado, ao se referir ao futuro – ainda que este fosse a feira que aconteceria dentro de dois dias – ele apontava para trás de si. Repetia sempre esses gestuais, como se indicasse o tempo, acompanhando sua voz pausada.

Intrigado, protestei em portunhol. O passado não poderia ficar à frente, mas devia permanecer às costas, posto que já passou. Por sua vez, o futuro está adiante, já que está por vir. O indígena sorriu com complacência e com uma tranquilidade cândida que me lembrou um monge, pôs-se a explicar: para os aymaras, o passado sempre estará adiante, porque se trata daquilo que você viveu, que passou diante dos seus olhos – e que, portanto, você viu. Por outro lado, o futuro é desconhecido, insondável. Por isso, seu lugar é às costas, como se ainda não tivesse nos alcançado ou nos espreitasse.

Se você põe o passado à frente,  se vive apegado a culpas ou a dívidas não pagas, não terá paz. Se você vive com medo do que vem atrás, se preocupando com o que ainda não chegou, também não terá paz”, explicou o aymara, em nítido castelhano. “A minha gente dá muito valor à experiência. Você só pode saber do que viveu”, completou.

Com o cavalo já tranquilizado, montei e retomei a jornada, me despedindo do velho. Naquele dia, visitei as ruínas de Puka Pukara, de Tambomachay e de Saqsaywanan. No dia seguinte, enquanto mirava o lago Titiqaqa lá do alto, pela janela do avião que nos levava de volta, eu vi toda a viagem dos últimos vinte e tantos dias passar diante de mim. Foi inevitável: pensei no ancião aymara. Desde então, é como se passado e futuro tivessem perdido seu peso excessivo , ao passo que a experiência tenha passado a reivindicar sua condição de protagonista. “Meu delírio é a experiência com coisas reais”, cantaria o velho Belchior. Em síntese, talvez o que a milenar sabedoria aymara ensine é que a vida está no presente. 

 

Curitiba, 5 de junho de 2018.

A riqueza do vô Antônio

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Vô Antônio, a postos em sua lanchonete “Fórmula 1”. Do lado de fora do balcão, meu pai e minha mãe, com minha irmã 

 

“Quem é honesto não fica rico”. A máxima pertencia a meu avô, seu Antônio, que a repetia amiúde, quando o assunto era dinheiro, posses ou poderes. Não o fazia com ares de revolta ou resignação, mas com o mesmo tom calmo que sua voz mansa sempre teve, o que dava à expressão um sábio caráter de constatação. Talvez em cidade pequena essas mazelas fiquem mais evidentes. É que nessas terras tudo são sobrenomes, cargos e posições sociais. Hoje, olhando em retrospecto, penso que o vô – homem forjado na vida e bom observador – tinha consciência empírica da imobilidade das classes (castas) sociais e que nunca tenha caído na conversa fiada da meritocracia.

O vô passou a metade da vida servindo mesas como garçom e, graças a suas economias, pôde comprar sua própria lanchonete, no centro da cidadezinha, onde passou a outra metade. Trabalhava com gosto, desde de manhãzinha até a noite, quando se sentava no terraço de casa, de banho tomado, com a camisa aberta e metido em chinelo de dedos, e se punha a prosear com quem aparecesse, com a mesma voz levinha. Era nítido que o dinheiro não estava no topo de suas prioridades – não por saber que nunca se faria rico, mas por priorizar valores que pouco têm a ver com o vil metal.

Na concepção do vô, o dinheiro existia para servir as pessoas – não o contrário. Não tinha ganas em acumular bens, tampouco era dado a mesquinharias. Valia-lhe mais um gosto realizado. Exemplo disso se deu em uma primavera – eu contava seis anos – em que pousou um helicóptero no parque cidade, apregoando voos panorâmicos. Devia custar uma fortuna, mas o seu Antônio não se fez de rogado: rapou as economias, pegou minha irmã e a mim, e lá fomos nós sobrevoar a cidade. Lá de cima, vi que o rio Panema vem serpenteando em curvas. Minha irmã e eu mentíamos que tínhamos localizado a rua em que morávamos e que víamos os moleques jogando bola. De quando em quando, eu olhava o vô sentado entre nós, contido, mas orgulhoso por nos dar algo de que nunca nos esqueceríamos.

Também para seu Antônio, pouco valeria ter para si, se não pudesse dividir com os iguais. Tão logo abria a lanchonete, todos mendigos do centro iam achegando aos poucos. A primeira era a Dita Xampu, uma moradora de rua que vivia carregando seus cacarecos em sacos de estopa (dizia-se que havia levado um golpe da própria família, em disputa por herança). A exemplo dos outros, ela deixava uma caneca sobre o balcão e saía esperar lá fora. Seu Antônio, então, enchia com café com leite e a devolvia acompanhada de sanduíche de presunto e queijo. Todo-santo-dia. Nunca reclamava daquelas presenças constantes e as enxergava como eram: gente. Talvez por isso, o vô não considerava nada de extraordinário ajudar a lhes saciar a fome, de modo que não expunha a própria boa ação – e talvez agora, lá de cima, esteja ralhando comigo por contar isso aqui.

O vô prezava era pelo caráter, o que para ele estava diretamente associado à educação. Não cismou em fazer poupanças ou deixar bens, mas fez questão de estudar todos os sete filhos. Achava graça quando eu chegava à lanchonete arrastando as sandálias e, em vez de aceitar os doces que ele me oferecia, pedia que me comprasse gibis na banca ao lado. De certo achasse que esse meu interesse pela leitura fosse bom presságio. Vá saber.

Ademais, o vô gostava das coisas certas, mas nunca nos levantava a mão ou a voz. A máxima repreensão que via sair de sua boca era: “Tenha modos, moleque”, dito com repetida suavidade. Era o que bastava para que eu baixasse a cabeça e corasse. Em outro causo, conta a crônica familiar que minha mãe – ainda criança – rabiscava a parede do corredor, quando foi surpreendida pelo seu Antônio, que apenas a repreendeu com um: “Bonito, hein?”. Diz minha mãe que jamais sentiu tamanha vergonha, de modo que desatou a chorar e nunca mais o desobedeceu ou fez algo que sabia que ele não aprovaria. O vô se fazia respeitar pelo exemplo, não pela autoridade.

“Quem é honesto não fica rico”. Toda vez que o assunto é dinheiro, posses ou poderes, eu me lembro do seu Antônio. Lá se vão três décadas e nada mudou. Talvez tenham se aprimorado alguns mecanismos para se manter a imobilidade de classes e novos argumentos para tentarem nos vender o embuste da meritocracia, mas, em essência, a lógica é a mesma. Os de mesma casta juntam tanto dinheiro quanto jamais darão conta de gastar numa única vida e se apegam ao poder feito vício inexorável. Não ouso dizer que sejam incapazes de dormir tranquilos, já que o código moral que lhes rege é outro. Por seu turno, apesar dos modos simples e da falta de peso no sobrenome, vô Antônio virou nome de rua. Na cidade, dizia-se que era o único a batizar logradouro público que não era rico. É que, na verdade, eles não sabiam que a riqueza do vô era de outra natureza.

Uruguai e a lição de tango

 

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A grelha estalava sobre o fogo, oferecendo-nos uma autêntica parrillada. Há sempre quem defenda que é pelo estômago que se adentra a uma cultura. A nós – Flavinho, Zé Renato e a mim –, o Uruguai se abriu por meio do sabor característico de chinchulines, morcillas e chorizos, preparados com alegria efusiva pelos nossos anfitriões, em um quintal verde, cheio de árvores e sem muros. Varamos a noite de lua exibida em copos e mais copos de bom vinho, que pairavam sobre a conversa, desenrolada em desavergonhado do portunhol. Borrachos, bebemos com gosto toda nossa vã filosofia. De quando em quando, algum dos uruguaios preparava e fumava sem cerimônias um cigarro de maconha de produção própria, cujas arvorezinhas ficavam ali na horta, entre cebolinhas, hortelãs e alecrins – “libre de la figura del tráfico”, frisavam. Eu me lembrava, então, da vó Dita, que costuma alumiar suas prosas, pitando um cigarrinho de palha e fumo caipira. Nós, os brasileños, não aderíamos à marijuana, porque, apesar da barba crescida, da feição de comunista e de vez ou outra levar a pecha, o fumo não nos apetece – não por preconceito, mas por gosto mesmo.

Havíamos conhecido três dos uruguaios – Fernando, El Gordo e Alejandro – dois anos antes, em um encontro improvável ocorrido em uma estalagem poeirenta (a única, em um raio de cem quilômetros) em pleno deserto boliviano, a caminho do Salar de Uyuni. Um deles viajava para superar a perda da mulher, recém-levada pelo câncer; outro, para pôr os próprios medos à prova; e o último, por ter o peito aberto. Topar com eles naquelas circunstâncias nos pareceu uma revelação, de modo que os apelidamos de “entidades” e, para reforçar a alcunha, eles fizeram nova aparição dias depois e ao acaso, em La Paz, onde passamos alguns dias. Quando fazíamos o caminho de volta ao Brasil, ainda demos de cara com Alejandro em uma pitoresca quermesse na praça central de Santa Cruz de la Sierra. Agora, íamos pela primeira vez ao Uruguai, conhecer a sua Piriápolis, uma cidade-balneário simpaticíssima, em que as pessoas batizam as casas com nome de gente – e o fazem constar em uma placa afixada no jardim. Às margens de uma rambla, nos fascinamos por um paredão que avança mar adentro e onde estava grafitado: “Apaga la tele y encendé tu mente”. Deixamo-nos fotografar ali e, na imagem, aparecemos meio sem jeito, contraídos pela friagem e eu, com os cabelos esvoaçantes ao vento.

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Zé, eu e Flavinho, em Piriápolis

Dois dias depois, já em Montevideo, engrossávamos todos o coro da hinchada carbonera na Tribuna Amsterdan, o setor mais popular do legendário Estadio Centanario. Ali, o Peñarol enfrentaria o Deportivo Ichique pela última rodada da primeira fase da Libertadores. Em transe, a torcida cantou do primeiro minuto ao apito final, extasiando até mesmo o Flavinho, avesso ao futebol, mas que se maravilhava com a experiência sociológica que, então, vivia. O Peñarol, que precisava ganhar por quatro gols de diferença, meteu três a zero. O time saiu de campo desclassificado, mas ovacionado. A noite se estendeu até um boteco atulhado de cacarecos, cujo dono – Pablo –, apesar da cara de poucos amigos, era na verdade um gorducho bonachão. Terminamos com uma paella caprichada e etílica do repertório do Fernando, preparada na casa do Chiqui, nosso novo amigo. No dia seguinte, o El País estamparia na manchete: “Triunfo amargo”, o que sintetizava em cheio o desfecho do jogo.

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Tribuna Amsterdan, Estadio Centenario

Tivemos dias suficientes para esquadrinhar os quatro cantos de Montevideo: as ramblas, pelas quais se passeia com termo y mate a tiracolo; a Ciudad Vieja, em que a vida parece transcorrer em ritmo suave; o Cafe Brasilero, onde se tem a impressão de que se vai encontrar Galeano em uma das mesas; e toda sorte de teatros, museus e barres que conseguimos avistar. Nenhum lugar, entretanto, me encantou mais que o Baar Fun-Fun, tradicionalíssima casa de tango fundada em 1895. Pode parecer imponente, mas o espaço é mais prosaico do que se possa imaginar: umas poucas mesas simples, paredes cobertas de fotos, recortes de jornal e bandeiras. Entre as fotografias, algumas de Carlos Gardel, autografadas pelo próprio. Entre as páginas de jornal, um pôster da seleção uruguaia que silenciou o Maracanã na Copa de 1950. Entre as flâmulas, uma do Santos, outra do Palmeiras.

O que me arrebatou, contudo, foi o palco reduzido, onde um casal desfiou passos de tango que rescendiam a sensualidade e, em seguida, uma cantante se apresentou com uma verdade que, talvez, eu só tenha visto em Maria Bethânia, Elis Regina e, mais recentemente, Bruna Caram. Devia ter uns 60 anos, lábios complacentes e usava um chapéu à la Gardel e que escondia um coque bem atado. Ao se apresentar, interpretava cada palavra e fitava a plateia com olhar tão profundo que dava a cada expectador a impressão de que era para si que ela cantava. Fazia parecer bonito o sofrimento e, por isso, a dor se carregava de algum sentido.

No intervalo, percebi-a sozinha, junto ao balcão. Inventei de ir ao banheiro e, na volta, mandei minha timidez às favas e, com meu portunhol desarvorado, entabulei conversa. Ela estava, então, sem o chapéu e de perto parecia ainda mais expressiva e, apesar da elegância, tinha um quê de tristeza perene. Lá pelas tantas, arrisquei uma pergunta-clichê: como era capaz cantar de forma tão legítima, como se realmente sentisse todas as desventuras que cantava? A resposta veio em tom solene e me soou emblemática. “Hay que sufrir por amor, porque sufrir por amor es mejor que sufrir por una enfermedad”. A partir de então, não me lembro de mais nada do que conversamos. Nem seria preciso.

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Após a paella: El Gordo, Zé Renato, Flavinho, Camillo, Chiqui; eu, Fernando e Alejandro

Sobre ouvir e outras prosas

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Todo mundo tem algo a dizer. Todo mundo. A coisa é que as pessoas andam tão absortas em si mesmas e dando demasiada importância ao próprio umbigo, que mal notam o outro, de modo que se torna praticamente impossível que se lhe dê ouvidos. Que pena. As lições mais valiosas, os diálogos mais saborosos e as melhores surpresas vêm de quem menos se espera. Um tanto disso, desenvolvi exercendo o ofício de jornalista, que prescinde de um naco de sensibilidade e de humildade para entender que, ao menos em certas ocasiões, não são as perguntas o que mais importa, mas as respostas. A gente existe em função do outro – de contar a história – e não o contrário.

Tenho pra mim que dei de ouvir desde lá de casa, cedinho. Vó Dita – que, na verdade, era minha bisavó – era toda tradição oral. A velhinha morava em outra cidade e quando nos visitava, arrastava uma cadeira até o quintal ou ao terraço, acendia um cigarrinho de palha, fechava os olhinhos mirrados e desatava a falar, emendando causo atrás de causo. Versava sobre gente a quem não conhecíamos e, às vezes, sobre um tempo que não vivemos, mas o fazia com tanta graça e com fartos detalhes que é como se tudo nos fosse familiar. E era tão bonito vê-la, sentada muito ereta, com o coque bem atado no topo de cabeça, que eu desejava um dia ter jeito pra contar histórias daquele modo, prendendo a atenção de tudo quanto fosse ouvinte.

Quis o destino, no entanto, que eu me tornasse um rapaz tímido e sem traquejo pra falar, mas, por outra via, ganhei certo tino pra ouvir. Sou desses, que dá conversa ao chofer de táxi, ao tiozinho do ônibus, à mocinha da fila do cinema, ao zelador do prédio. Não que eu seja o cara mais simpático da América Latina. Pelo contrário. Sou acanhado pr’essas coisas, já disse, mas me interesso sinceramente pelas pessoas e não me furto em ouvi-las. Nessas, já calhou de eu convidar um morador de rua para tomar café da manhã numa padaria, só para trocar dois dedos de prosa com ele. Tratava-se de um velho de modos elegantes e cheio de dignidade, apesar de sujo e metido em molambos. Ante os olhares desaprovadores dos outros clientes, em reação, ele puxou um livro do saco de estopa que carregava e o brandiu, feito um padre que exorciza demônios. “Falta-lhes leitura”, sentenciou.

N’outra feita, interessei-me por uma senhora que se fixou na esquina meu prédio, no Centro, onde passou a mendigar. Era negra retinta, de corpo atarracado e que, apesar de morar na rua, vestia-se impecavelmente – sempre uma bata e um turbante. Cada vez que eu entabulava conversa, ela se apresentava com um nome diferente (estratégia comum dos que não têm teto, até sentirem confiança no outro). A surpresa: não era dada a pedir dinheiro ou comida, mas que lhe comprassem cadernos de folhas sem pauta e canetas pretas. Desenhava maravilhosamente e com um estilo muito próprio, a partir de pequenos círculos, com os quais formava o que quisesse – de pessoas a paisagens –, numa espécie de releitura do pontilhismo. Uma noite em que eu passava por ali, ela me chamou e me mostrou sua carteira de identidade: chamava-se Sebastiana. Depois daquele episódio, nunca mais a vi.

Quando me mudei para o bairro, notei que um dos vizinhos do bloco lateral é cego e anda com a bengala tateando o caminho. Calhou de encontrá-lo num domingo em que eu voltava do mercado. “Quer carona?”, perguntei, oferecendo o braço para guiá-lo e puxando prosa. Seu Aleixo mora na vizinhança desde o começo da década de 1980, é casado, mas gosta de ir sozinho às compras. No curto trajeto, ainda deu tempo de contar que é evangélico e que costuma viajar com os irmãos de igreja, cantando em tudo quanto é cidade. Tem um vozeirão de bom timbre e, à guisa de comprovar o talento, deu uma canja de “Deixa a luz do céu entrar”. Atualmente, torço para topar com ele novamente. Quero saber como que diabos ele acha as mercadorias e descobre os respectivos preços. Quem sabe ele me convide pra um café…

No outro bloco, há uma vizinha que todo-santo-dia permanece à janela do seu apartamento, no térreo. Traz sempre fones metidos nas orelhas e o celular à mão. Deve ter coisa de uns cinquenta anos e é dona de um olhar perdido em algum canto escuro de si mesma. Sempre tive ganas de parar e trocar umas palavras com ela, mas, sabe como é: a gente tende a adiar o que parece corriqueiro. Ontem, no fim da tarde, no entanto, fui surpreendido quando passava apressadamente: “É duro gostar de alguém, né, moço?”, tascou, como quem procura aprovação aos próprios dilemas. A pergunta me pegou desprevenido. Voltei, apoiei-me na grade e falei a primeira coisa que me veio à cabeça: “É duro. Mas é inevitável”. Por dois segundos, senti-a arisca, como se, talvez, tivesse se arrependido por ter dado margem para que eu descobrisse porque os olhos dela vivem à penumbra. “Mas, no fim, tudo se resolve. Assim é a vida”, acrescentei. Ela deu meia-volta e entrou sem dizer nada. De cá, espero que o gostar lhe faça bem e aguardo novos capítulos da prosa.

Curitiba 17 de dezembro de 2017