Uruguai e a lição de tango

 

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A grelha estalava sobre o fogo, oferecendo-nos uma autêntica parrillada. Há sempre quem defenda que é pelo estômago que se adentra a uma cultura. A nós – Flavinho, Zé Renato e a mim –, o Uruguai se abriu por meio do sabor característico de chinchulines, morcillas e chorizos, preparados com alegria efusiva pelos nossos anfitriões, em um quintal verde, cheio de árvores e sem muros. Varamos a noite de lua exibida em copos e mais copos de bom vinho, que pairavam sobre a conversa, desenrolada em desavergonhado do portunhol. Borrachos, bebemos com gosto toda nossa vã filosofia. De quando em quando, algum dos uruguaios preparava e fumava sem cerimônias um cigarro de maconha de produção própria, cujas arvorezinhas ficavam ali na horta, entre cebolinhas, hortelãs e alecrins – “libre de la figura del tráfico”, frisavam. Eu me lembrava, então, da vó Dita, que costuma alumiar suas prosas, pitando um cigarrinho de palha e fumo caipira. Nós, os brasileños, não aderíamos à marijuana, porque, apesar da barba crescida, da feição de comunista e de vez ou outra levar a pecha, o fumo não nos apetece – não por preconceito, mas por gosto mesmo.

Havíamos conhecido três dos uruguaios – Fernando, El Gordo e Alejandro – dois anos antes, em um encontro improvável ocorrido em uma estalagem poeirenta (a única, em um raio de cem quilômetros) em pleno deserto boliviano, a caminho do Salar de Uyuni. Um deles viajava para superar a perda da mulher, recém-levada pelo câncer; outro, para pôr os próprios medos à prova; e o último, por ter o peito aberto. Topar com eles naquelas circunstâncias nos pareceu uma revelação, de modo que os apelidamos de “entidades” e, para reforçar a alcunha, eles fizeram nova aparição dias depois e ao acaso, em La Paz, onde passamos alguns dias. Quando fazíamos o caminho de volta ao Brasil, ainda demos de cara com Alejandro em uma pitoresca quermesse na praça central de Santa Cruz de la Sierra. Agora, íamos pela primeira vez ao Uruguai, conhecer a sua Piriápolis, uma cidade-balneário simpaticíssima, em que as pessoas batizam as casas com nome de gente – e o fazem constar em uma placa afixada no jardim. Às margens de uma rambla, nos fascinamos por um paredão que avança mar adentro e onde estava grafitado: “Apaga la tele y encendé tu mente”. Deixamo-nos fotografar ali e, na imagem, aparecemos meio sem jeito, contraídos pela friagem e eu, com os cabelos esvoaçantes ao vento.

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Zé, eu e Flavinho, em Piriápolis

Dois dias depois, já em Montevideo, engrossávamos todos o coro da hinchada carbonera na Tribuna Amsterdan, o setor mais popular do legendário Estadio Centanario. Ali, o Peñarol enfrentaria o Deportivo Ichique pela última rodada da primeira fase da Libertadores. Em transe, a torcida cantou do primeiro minuto ao apito final, extasiando até mesmo o Flavinho, avesso ao futebol, mas que se maravilhava com a experiência sociológica que, então, vivia. O Peñarol, que precisava ganhar por quatro gols de diferença, meteu três a zero. O time saiu de campo desclassificado, mas ovacionado. A noite se estendeu até um boteco atulhado de cacarecos, cujo dono – Pablo –, apesar da cara de poucos amigos, era na verdade um gorducho bonachão. Terminamos com uma paella caprichada e etílica do repertório do Fernando, preparada na casa do Chiqui, nosso novo amigo. No dia seguinte, o El País estamparia na manchete: “Triunfo amargo”, o que sintetizava em cheio o desfecho do jogo.

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Tribuna Amsterdan, Estadio Centenario

Tivemos dias suficientes para esquadrinhar os quatro cantos de Montevideo: as ramblas, pelas quais se passeia com termo y mate a tiracolo; a Ciudad Vieja, em que a vida parece transcorrer em ritmo suave; o Cafe Brasilero, onde se tem a impressão de que se vai encontrar Galeano em uma das mesas; e toda sorte de teatros, museus e barres que conseguimos avistar. Nenhum lugar, entretanto, me encantou mais que o Baar Fun-Fun, tradicionalíssima casa de tango fundada em 1895. Pode parecer imponente, mas o espaço é mais prosaico do que se possa imaginar: umas poucas mesas simples, paredes cobertas de fotos, recortes de jornal e bandeiras. Entre as fotografias, algumas de Carlos Gardel, autografadas pelo próprio. Entre as páginas de jornal, um pôster da seleção uruguaia que silenciou o Maracanã na Copa de 1950. Entre as flâmulas, uma do Santos, outra do Palmeiras.

O que me arrebatou, contudo, foi o palco reduzido, onde um casal desfiou passos de tango que rescendiam a sensualidade e, em seguida, uma cantante se apresentou com uma verdade que, talvez, eu só tenha visto em Maria Bethânia, Elis Regina e, mais recentemente, Bruna Caram. Devia ter uns 60 anos, lábios complacentes e usava um chapéu à la Gardel e que escondia um coque bem atado. Ao se apresentar, interpretava cada palavra e fitava a plateia com olhar tão profundo que dava a cada expectador a impressão de que era para si que ela cantava. Fazia parecer bonito o sofrimento e, por isso, a dor se carregava de algum sentido.

No intervalo, percebi-a sozinha, junto ao balcão. Inventei de ir ao banheiro e, na volta, mandei minha timidez às favas e, com meu portunhol desarvorado, entabulei conversa. Ela estava, então, sem o chapéu e de perto parecia ainda mais expressiva e, apesar da elegância, tinha um quê de tristeza perene. Lá pelas tantas, arrisquei uma pergunta-clichê: como era capaz cantar de forma tão legítima, como se realmente sentisse todas as desventuras que cantava? A resposta veio em tom solene e me soou emblemática. “Hay que sufrir por amor, porque sufrir por amor es mejor que sufrir por una enfermedad”. A partir de então, não me lembro de mais nada do que conversamos. Nem seria preciso.

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Após a paella: El Gordo, Zé Renato, Flavinho, Camillo, Chiqui; eu, Fernando e Alejandro
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