Barba canina

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O tema é tão polêmico quanto se decidir entre Beatles e Stones, pode implicar na ruína de amizades longevas e/ou terminar em querelas sem fim, porém é imperativo assumir publicamente: prefiro os cães aos gatos. Não, não é que eu não simpatize com os bichanos. Muito pelo contrário. A questão é que os caninos exercem um poder insondável sobre mim e, em regra, têm um não-sei-o-quê com o qual me identifico. Vai soar estranho, mas vamos lá: sinto-me um pouco cachorro também.

Os defensores dos felinos vão destacar o aspecto da independência, argumento com o qual concordarei de imediato. Sempre tive a impressão de que os gatos é que têm as pessoas, não o contrário. Não à toa, são um dos símbolos maiores da liberdade descompromissada, cantada em verso e prosa. “Nós, gatos, já nascemos pobres/ Porém já nascemos livres/ Senhor, senhora, senhorio/ Felino, não reconhecerás”. Quase uma ode à alma bichana, captada em essência.

Tudo isso realçado, é claro, pelo tom entre a altivez e o desinteresse com que os gatinhos se portam, como se fossem movidos única e exclusivamente por sua vontade, independentemente do resto do mundo. Danem-se os outros. Os gateiros hão de mencionar ainda o charmoso ronronar dos bichanos – que ficam qual motorzinho elétrico ligado – e as caçadas domésticas de bolinhas de papel, insetos e afins – que, particularmente, acho um barato.

Os cães, no entanto, mantêm uma lealdade incondicional para com as pessoas que os cativam. São capazes de pressentir a chegada daqueles de quem gostam e esperá-los no portão, para, enfim, recebê-los com festas e estripulias sem fim. É como se o amor fosse um simples estar junto. Satisfazem-se apenas por se deitarem perto da pessoa alvo de sua admiração e esta presença parece lhes bastar. Talvez meu pai seja quem tenha melhor resumido a fidelidade canina, ao justificar porque, dentre os membros da família, ele preferia a nossa cachorrinha: “Não briga comigo, não me pede dinheiro e ainda faz festa quando chego”.

Ao longo dos anos, houve muitos cães em meu clã, alguns dos quais me marcaram mais que outros. Tinha, por exemplo, o Lambaio, um cachorro sem vergonha, que fazia jus ao nome. Ou ainda o Corisco, um pinscher preto que gostava de ficar sob a blusa do vô Indler e que avançava contra nós, os netos, quando íamos pedir a benção, e que ficava todo ouriçado ao ouvir o tilintar de chaves, porque gostava de passear de carro.

Mas entre todos, a protagonista do episódio que mais me comoveu foi Daiana, uma pastor alemão muito dada e bagunceira, que costumava fugir da casa da vó Inês e nos procurar na escola. Entrava na sala derrubando carteiras e lambendo os alunos, de modo que não restava outro remédio ao diretor, a não ser nos dispensar da aula, para que a levássemos embora. Farta das traquinagens da cadela, a vó teve um arroubo inexplicável: mandou meu pai soltar Daiana na estrada, pra lá da represa. Três dias depois, a cachorra apareceu, molhada (na certa, cruzou o rio a nado), exausta e mais magra, mas com uma felicidade que não cabia em seu corpanzil desajeitado.

Reminiscências à parte, outro fator que pesa em prol dos cachorros é a facilidade com a qual fazem amizade. Quem é capaz de resistir às cheganças dos bichos, com ar de pidões e distribuindo lambidas amiúde como prova de companheirismo? Do mesmo modo, é arrebatadora a forma livre como refestelam e se entregam a carícias, como se sentissem o afago na alma. Desavergonhadamente, desabam aos mínimos desvelos e quando os carinhos cessam, olham suplicantes, como a pedir mais.

Abro parêntesis. Uma das únicas vantagens de ser homem neste mundo inóspito e vil é que temos barba. As mulheres jamais saberão o quão confortante é cismar ou refletir sobre o quer que seja, fitando o horizonte e – o mais importante – cofiando os fios hirsutos da própria face. É como se o ato nos desse acesso a um mundo paralelo, onde as reflexões se aprofundam, as epifanias emergem com mais facilidade e as coisas fazem mais sentido. Tenho pra mim que Arquimedes, antes de gritar “Eureka”, coçava os pelos que pendiam do queixo. Se eu fosse do gênero feminino, não teria inveja do pênis, como sugere a teoria freudiana, mas cobiçaria vertiginosamente a barba do sexo oposto.

É por meio da barba que se manifesta de modo mais explícito a porção canina de todo homem. Asseguro-lhes: é impossível ficar impassível quando os dedos de quem nos quer bem mergulham entre os pelos, como se em afagos demorados nos procurassem a pele oculta pela pubescência. Qual vira-latas, rendemo-nos a esse leve e contínuo pentear, aceitamos de bom grado coçadas e até puxões suaves. Ouso dizer que, involuntariamente, somos capazes de ganir. Os gatos até podem ser mais garbosos, mas jamais saberão se entregar tão facilmente às carícias como os cães, que parecem sempre dizer sim.

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