Bichos virtuais e outros bichos

pokemon

O ônibus biarticulado não estava lotado, porém, como não havia assentos desocupados, me postei no espaço sobre a rótula, em que os passageiros viajam em pé. Ela embarcou um pouco depois e se recostou na lateral oposta, de frente para mim. Vinha completamente absorta, compenetrada no celular que trazia em mãos. Aquele rosto – iluminado em contra-plongée pelo facho que emanava do aparelho – não me era estranho. Claro! Era ela: a mulher com quem cruzei no corredor que conduz ao cantinho do café, ao fundo da redação, e que respondeu ao meu “boa tarde” com um leve – e tímido – meneio de cabeça.

Fiz menção de puxar prosa. Sei lá, dizer algo como: “Ei, acho que trabalhamos na mesma empresa. Te vi lá hoje. Em que departamento você fica?”. Ela guardaria o smartphone no bolso da calça, me contaria que é recém-contratada do núcleo de compras, mas que já se sente familiarizada à rotina. Algo assim. Diria que mora perto de uma das estações-tubo de um bairro no norte da cidade, onde o marido a esperava. Contaria, quem sabe, que prepararia carne de panela e purê de batatas para o jantar e ele lavaria a louça. Trocaríamos impressões sobre banalidades até o terminal em que eu saltaria do ônibus pela porta 2, desejando boa noite. Pronto: a viagem teria sido mais agradável e o sacolejar insistente do coletivo talvez não tivesse sido tão nítido.

Mas me contive. Alheia ao redor, a moça permanecia como que em hipnose profunda, provocada pelo que quer que estivesse vendo na tela diminuta que a possuía. Ao lado, um rapaz de feições orientais também corria o indicador sobre a superfície do celular. Adiante, era um adolescente que manuseava seu aparelhinho com voracidade. Que diabos! Não havia necessidade de os passageiros seguirem viagem confraternizando ou cantando em uníssimo, como excursionistas de filmes da Sessão da Tarde, mas também não precisava ficar cada qual babando sobre o cristal líquido de seu respectivo gadget.

Chatice a minha, eu sei. Nem é a primeira vez. Lá pelos idos de 1990, eu torcia o nariz pela febre eletrônica causada pelo “bichinho virtual”. Já éramos adolescentes, mas uma leva de alunos carregava seu exemplar de Tamagotchi na escola e, em vez de meter o nariz nos livros, se punha a paparicar aquele dispositivo digital, apertando seus botõezinhos, atendendo suas demandas alucinadas, que emitiam bips irritantes e sem fim.

Agora, a bola da vez é o Pokemón Go – você deve ter visto por aí. Eu só soube na semana passada: trata-se de um jogo de realidade aumentada, em que o sujeito sai com o celular, caçando os monstrinhos virtuais. Parece que o troço tem feito com que uma legião de pessoas ande pelas ruas, vendo a vida através do aparelho, procurando por Pikachus e afins.

Sempre que algo me assombra muito ou me soa absurdo por demais, tento adivinhar qual seria o comentário do meu tio Pedro 70 – falecido personagem ilustre e quase filósofo da província. Penso que, neste caso, ele diria algo como: “Grande porcaria! Na minha época já tinha disso, mas, em vez de celular, usávamos estilingues. Em vez dessa frescura de Pokemón, caçávamos pardais mesmo”. Fim.

 

25/07/2016

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