O velho aymara

 

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Ruínas de Puka Pukara. Maio de 2011

 

O mochilão já se estendia por mais de vinte luas, nas quais não fazíamos senão mirar adiante, em direção ao porvir. Como era o nosso último dia antes do regresso, demo-nos o direito de olhar para trás. Vimos o legendário Tren de la Muerte e os vilarejos à beira da miséria que se estendiam às margens da ferrovia; Sucre e suas casas todas caiadas em branco para afugentar os maus espíritos que atraíam raios; as desumanas minas de prata de Potosí; Uyuni e o salar em que as nuvens se fundiam ao chão, lá no fundo do horizonte; o deserto boliviano, que esconde paz, lagunas e cemitérios de trens; La Paz e seu caos organizado; o Titiqaqa a reivindicar uma saída para o mar; e atmosfera ancestral de Machu Picchu. Não tínhamos uma noção clara de tempo e de espaço: ora a expedição parecia ter começado dia anterior, ora dava a impressão de que se arrastava havia décadas.

Estávamos, então, em Cuzco, a quem já havíamos esquadrinhado, como se não tivéssemos tempo a perder. Essa sanha, de certo modo, nos dava uma sensação de invulnerabilidade, o que talvez tenha me instado à ideia estúpida de alugar um cavalo – por excelência, um animal traiçoeiro – a fim de visitar outros quatro sítios arqueológicos que compõem o Vale Sagrado e que ficam a um raio de poucos quilômetros de onde estávamos hospedados. Cada um de meus colegas, por seu turno, já havia declinado de conhecer as ruínas incas e tiraram o dia para outros programas. Fui sozinho.

O ginete era desses bem treinados, capazes de percorrer o caminho de olhos fechados, como quem trilha um destino do qual não pode escapar. Era montar e esperar que o bicho conduzisse a jornada pela mesma senda de sempre. Quando dei por mim, vi o cavalo cabisbaixo, em um trotar monocórdio e insosso, quase triste. Era como se o animal  – cuja simbologia sempre esteve alinhada à condição de liberdade – sentisse vergonha do papel que desempenhava, subjugado. Senti-me um explorador vil. Tive ganas de dar meia volta, mas, acometido de uma inquietação medonha, tentei imprimir um ritmo menos débil. Foi como se eu tivesse despertado a condição selvagem do animal, que subitamente galopou para fora da trilha e, em seguida, desabalou em uma carreira sem fim, como se estivesse livre.

Do alto da cela, eu tentava me equilibrar, firmando pé nos estribos, quando, de relance e à esquerda da planície, avistei um vulto que fazia gestos bruscos, como se me orientasse a puxar as rédeas. Assim o fiz e com tal firmeza que o cavalo empinou sobre as patas traseiras, num relincho agudo – se eu não estivesse pasmo de medo, teria me sentido em um dos antigos comerciais do Marlboro. Como se tivesse voltado a si, o ginete deu meia volta e caminhou uns poucos passos até um charco, ali perto, onde passou a beber água desapressadamente, como se nada tivesse acontecido.

Acariciei o dorso do animal, como que para desfazer o mal-estar que porventura tivesse ficado entre nós e fui ter com o homem que havia orientado minha reação. Tratava-se de um senhor de feições indígenas, que me cumprimentou com um aceno. Tinha olhos diretos, trazia os longos cabelos brancos atados em um rabo-de-cavalo e, quando falava com seu vozeirão rouco, era como se portasse toda a verdade do universo. Era de linhagem aymara e, na língua de sua etnia, seu nome queria dizer “Filho da Terra”.

Havia nascido em um pueblo nos arredores do Titiqaqa, de onde havia saído décadas atrás para plantar milho na área rural de Cuzco. Só então notei que o velho aymara apontava para frente, ao mencionar o passado – fosse pra falar da infância no sul peruano, fosse para narrar a morte tranquila do pai. Por outro lado, ao se referir ao futuro – ainda que este fosse a feira que aconteceria dentro de dois dias – ele apontava para trás de si. Repetia sempre esses gestuais, como se indicasse o tempo, acompanhando sua voz pausada.

Intrigado, protestei em portunhol. O passado não poderia ficar à frente, mas devia permanecer às costas, posto que já passou. Por sua vez, o futuro está adiante, já que está por vir. O indígena sorriu com complacência e com uma tranquilidade cândida que me lembrou um monge, pôs-se a explicar: para os aymaras, o passado sempre estará adiante, porque se trata daquilo que você viveu, que passou diante dos seus olhos – e que, portanto, você viu. Por outro lado, o futuro é desconhecido, insondável. Por isso, seu lugar é às costas, como se ainda não tivesse nos alcançado ou nos espreitasse.

Se você põe o passado à frente,  se vive apegado a culpas ou a dívidas não pagas, não terá paz. Se você vive com medo do que vem atrás, se preocupando com o que ainda não chegou, também não terá paz”, explicou o aymara, em nítido castelhano. “A minha gente dá muito valor à experiência. Você só pode saber do que viveu”, completou.

Com o cavalo já tranquilizado, montei e retomei a jornada, me despedindo do velho. Naquele dia, visitei as ruínas de Puka Pukara, de Tambomachay e de Saqsaywanan. No dia seguinte, enquanto mirava o lago Titiqaqa lá do alto, pela janela do avião que nos levava de volta, eu vi toda a viagem dos últimos vinte e tantos dias passar diante de mim. Foi inevitável: pensei no ancião aymara. Desde então, é como se passado e futuro tivessem perdido seu peso excessivo , ao passo que a experiência tenha passado a reivindicar sua condição de protagonista. “Meu delírio é a experiência com coisas reais”, cantaria o velho Belchior. Em síntese, talvez o que a milenar sabedoria aymara ensine é que a vida está no presente. 

 

Curitiba, 5 de junho de 2018.

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Irracional

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Uma das passagens de que mais gosto na adaptação de “A hora da estrela” (Clarice Lispector) para o cinema não é uma das cenas principais, mas uma sequência curta e que, em regra, passa despercebida aos espectadores. Nela, a protagonista Macabéa – uma jovem nordestina simplória que vai a São Paulo para tentar a vida – está num metrô lotado, espremida entre dois passageiros quaisquer, que trocam provocações por causa de seus respectivos times. A conversa termina rispidamente quando um deles faz menção à política. “Não mistura futebol com política. Futebol é coisa séria”, finaliza o outro. Embora tenha sido gravada há mais de trinta anos (a película é de 1985), ainda hoje a cena rápida ajuda a explicar muito do país. E mais: escancara o fascínio irracional que o esporte trazido por Charles Miller exerce sobre nós, meros mortais brasileiros, educados sob a égide de uma bola e um par de chuteiras.

Você já deve ter ouvido uma das teorias sobre a etimologia do verbo “torcer” aplicado ao futebol, segundo a qual a palavra deriva do grego e tem o sentido de “distorcer/ falsear/ adulterar” a realidade. Assim, o torcedor é aquele bicho destituído de razão, cego pela paixão e movido pelo fanatismo, que manda às favas quaisquer resquícios de isenção ou imparcialidade. Pelo contrário: “torce” os fatos, de modo a criar uma narrativa que lhe seja conveniente – e, é claro, ao seu time. Nada importa. Há sempre um “mas”, embora as imagens, o contexto, os números e/ou a própria História provem o contrário. Quem nunca?

É coisa de louco, eu sei, mas lembre-se de que não estamos falando de racionalidades. Prova disso é que futebol transforma mesmo os tipos mais pacíficos e cordiais. Meu amigo Maurício (que também atende pela alcunha de Ciorimau), por exemplo, é um cara afável, ótimo companheiro para dividir uma cerveja e, de quebra, ainda escreve contos arrebatadores. Porém basta discordar dele em matéria de futebol, para vê-lo se fechar mais que beque de time pequeno e se arvorar às próprias verdades, das quais não arreda pé nem se Garrincha voltasse para jogar no Atlético Paranaense – seu clube de coração. E quem é que vai condená-lo, oras?

Eu mesmo, entre o fim da infância e início da adolescência, quebrei uns quantos rádios, ouvindo partidas do meu Parmera, entre uma e outra saraivada de palavrões que pipocavam a cada gol perdido. Quando o Porco perdia clássicos, eu implorava para faltar à escola e, por conseguinte, escapar da gozação dos colegas. Por outro lado, quando levamos o Paulistão de 93 com o eterno 4 x 0 sobre o Curíntia, fiz questão de ir à aula no dia seguinte, usando o manto verde, embora estivéssemos em pleno inverno de partir os lábios. Mais recentemente, em 2016, eu estava de férias no Uruguai, onde o Verdão foi jogar contra o River Plate, de Maldonado. Assisti ao jogo na torcida adversária e, dali mesmo, cantei “Vamo ganhar, Porco” e comemorei os dois gols como se estivesse no velho Palestra – e sem me preocupar com as caras feias que os uruguaios me dispensavam, como se estivessem prestes a me dar uns pontapés.

A irracionalidade levada às últimas consequências, no entanto, tem nome: Dirceu do Bar. Trata-se do único dos trinta mil viventes de Piraju que torce pela Portuguesa de Desportos. Ninguém tem ideia de como começou, mas todos sabem que, por detrás do balcão do boteco da ponte, jaz um senhor setentão, bonachão, de bigode… e torcedor da Lusa. Vá entender. Houve uma época em que uns clientes iam ao bar só para discutir futebol e, por óbvio, fazer troça do Dirceu e de sua Portuguesinha. Por fim, no entanto, todos acabavam meio que se condoendo com ele e até adotando o clube do Canindé como segundo time do coração.

O velho Dirceu não comemora um título de primeira divisão desde 1973. Viu a última quase glória do seu time ser barrada naquele fatídico 1998, quando juiz argentino (tinha que ser…) Javier Castrilli garfou a Lusinha em favor do Curíntia (grande novidade…), na semifinal do Paulistão. Um pouco antes disso, na decisão do Brasileirão de 1996, a cidadezinha inteira torceu pela Portuguesa contra o Grêmio, só por causa do Dirceu – e todo mundo ficou triste, quando a Lusa deixou escapar o título por entre os dedos. Apesar de todo fervor, o nobre balconista não conseguiu transmitir sua paixão aos seus herdeiros, de modo que ele permanece como torcedor exclusivo da Portuguesa na província. Contudo, mesmo com todos os revezes, jejum de títulos e sem ter a quem passar o estandarte lusitano, Dirceu continua com fé inquebrantável de que o esquadrão do Canindé voltará aos tempos áureos. Eu duvido, você também. Talvez até o próprio Dirceu, em seu íntimo mais profundo, duvide. Mas não estamos lidando com a razão. Todo torcedor tem o direito inalienável de crer na realidade que lhe aprouver. Irracionalmente. É assim que é. E que assim seja. Salve, Dirceu.

 

A hora da estrela

 

 

 

 

 

 

 

A riqueza do vô Antônio

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Vô Antônio, a postos em sua lanchonete “Fórmula 1”. Do lado de fora do balcão, meu pai e minha mãe, com minha irmã 

 

“Quem é honesto não fica rico”. A máxima pertencia a meu avô, seu Antônio, que a repetia amiúde, quando o assunto era dinheiro, posses ou poderes. Não o fazia com ares de revolta ou resignação, mas com o mesmo tom calmo que sua voz mansa sempre teve, o que dava à expressão um sábio caráter de constatação. Talvez em cidade pequena essas mazelas fiquem mais evidentes. É que nessas terras tudo são sobrenomes, cargos e posições sociais. Hoje, olhando em retrospecto, penso que o vô – homem forjado na vida e bom observador – tinha consciência empírica da imobilidade das classes (castas) sociais e que nunca tenha caído na conversa fiada da meritocracia.

O vô passou a metade da vida servindo mesas como garçom e, graças a suas economias, pôde comprar sua própria lanchonete, no centro da cidadezinha, onde passou a outra metade. Trabalhava com gosto, desde de manhãzinha até a noite, quando se sentava no terraço de casa, de banho tomado, com a camisa aberta e metido em chinelo de dedos, e se punha a prosear com quem aparecesse, com a mesma voz levinha. Era nítido que o dinheiro não estava no topo de suas prioridades – não por saber que nunca se faria rico, mas por priorizar valores que pouco têm a ver com o vil metal.

Na concepção do vô, o dinheiro existia para servir as pessoas – não o contrário. Não tinha ganas em acumular bens, tampouco era dado a mesquinharias. Valia-lhe mais um gosto realizado. Exemplo disso se deu em uma primavera – eu contava seis anos – em que pousou um helicóptero no parque cidade, apregoando voos panorâmicos. Devia custar uma fortuna, mas o seu Antônio não se fez de rogado: rapou as economias, pegou minha irmã e a mim, e lá fomos nós sobrevoar a cidade. Lá de cima, vi que o rio Panema vem serpenteando em curvas. Minha irmã e eu mentíamos que tínhamos localizado a rua em que morávamos e que víamos os moleques jogando bola. De quando em quando, eu olhava o vô sentado entre nós, contido, mas orgulhoso por nos dar algo de que nunca nos esqueceríamos.

Também para seu Antônio, pouco valeria ter para si, se não pudesse dividir com os iguais. Tão logo abria a lanchonete, todos mendigos do centro iam achegando aos poucos. A primeira era a Dita Xampu, uma moradora de rua que vivia carregando seus cacarecos em sacos de estopa (dizia-se que havia levado um golpe da própria família, em disputa por herança). A exemplo dos outros, ela deixava uma caneca sobre o balcão e saía esperar lá fora. Seu Antônio, então, enchia com café com leite e a devolvia acompanhada de sanduíche de presunto e queijo. Todo-santo-dia. Nunca reclamava daquelas presenças constantes e as enxergava como eram: gente. Talvez por isso, o vô não considerava nada de extraordinário ajudar a lhes saciar a fome, de modo que não expunha a própria boa ação – e talvez agora, lá de cima, esteja ralhando comigo por contar isso aqui.

O vô prezava era pelo caráter, o que para ele estava diretamente associado à educação. Não cismou em fazer poupanças ou deixar bens, mas fez questão de estudar todos os sete filhos. Achava graça quando eu chegava à lanchonete arrastando as sandálias e, em vez de aceitar os doces que ele me oferecia, pedia que me comprasse gibis na banca ao lado. De certo achasse que esse meu interesse pela leitura fosse bom presságio. Vá saber.

Ademais, o vô gostava das coisas certas, mas nunca nos levantava a mão ou a voz. A máxima repreensão que via sair de sua boca era: “Tenha modos, moleque”, dito com repetida suavidade. Era o que bastava para que eu baixasse a cabeça e corasse. Em outro causo, conta a crônica familiar que minha mãe – ainda criança – rabiscava a parede do corredor, quando foi surpreendida pelo seu Antônio, que apenas a repreendeu com um: “Bonito, hein?”. Diz minha mãe que jamais sentiu tamanha vergonha, de modo que desatou a chorar e nunca mais o desobedeceu ou fez algo que sabia que ele não aprovaria. O vô se fazia respeitar pelo exemplo, não pela autoridade.

“Quem é honesto não fica rico”. Toda vez que o assunto é dinheiro, posses ou poderes, eu me lembro do seu Antônio. Lá se vão três décadas e nada mudou. Talvez tenham se aprimorado alguns mecanismos para se manter a imobilidade de classes e novos argumentos para tentarem nos vender o embuste da meritocracia, mas, em essência, a lógica é a mesma. Os de mesma casta juntam tanto dinheiro quanto jamais darão conta de gastar numa única vida e se apegam ao poder feito vício inexorável. Não ouso dizer que sejam incapazes de dormir tranquilos, já que o código moral que lhes rege é outro. Por seu turno, apesar dos modos simples e da falta de peso no sobrenome, vô Antônio virou nome de rua. Na cidade, dizia-se que era o único a batizar logradouro público que não era rico. É que, na verdade, eles não sabiam que a riqueza do vô era de outra natureza.

Uruguai e a lição de tango

 

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A grelha estalava sobre o fogo, oferecendo-nos uma autêntica parrillada. Há sempre quem defenda que é pelo estômago que se adentra a uma cultura. A nós – Flavinho, Zé Renato e a mim –, o Uruguai se abriu por meio do sabor característico de chinchulines, morcillas e chorizos, preparados com alegria efusiva pelos nossos anfitriões, em um quintal verde, cheio de árvores e sem muros. Varamos a noite de lua exibida em copos e mais copos de bom vinho, que pairavam sobre a conversa, desenrolada em desavergonhado do portunhol. Borrachos, bebemos com gosto toda nossa vã filosofia. De quando em quando, algum dos uruguaios preparava e fumava sem cerimônias um cigarro de maconha de produção própria, cujas arvorezinhas ficavam ali na horta, entre cebolinhas, hortelãs e alecrins – “libre de la figura del tráfico”, frisavam. Eu me lembrava, então, da vó Dita, que costuma alumiar suas prosas, pitando um cigarrinho de palha e fumo caipira. Nós, os brasileños, não aderíamos à marijuana, porque, apesar da barba crescida, da feição de comunista e de vez ou outra levar a pecha, o fumo não nos apetece – não por preconceito, mas por gosto mesmo.

Havíamos conhecido três dos uruguaios – Fernando, El Gordo e Alejandro – dois anos antes, em um encontro improvável ocorrido em uma estalagem poeirenta (a única, em um raio de cem quilômetros) em pleno deserto boliviano, a caminho do Salar de Uyuni. Um deles viajava para superar a perda da mulher, recém-levada pelo câncer; outro, para pôr os próprios medos à prova; e o último, por ter o peito aberto. Topar com eles naquelas circunstâncias nos pareceu uma revelação, de modo que os apelidamos de “entidades” e, para reforçar a alcunha, eles fizeram nova aparição dias depois e ao acaso, em La Paz, onde passamos alguns dias. Quando fazíamos o caminho de volta ao Brasil, ainda demos de cara com Alejandro em uma pitoresca quermesse na praça central de Santa Cruz de la Sierra. Agora, íamos pela primeira vez ao Uruguai, conhecer a sua Piriápolis, uma cidade-balneário simpaticíssima, em que as pessoas batizam as casas com nome de gente – e o fazem constar em uma placa afixada no jardim. Às margens de uma rambla, nos fascinamos por um paredão que avança mar adentro e onde estava grafitado: “Apaga la tele y encendé tu mente”. Deixamo-nos fotografar ali e, na imagem, aparecemos meio sem jeito, contraídos pela friagem e eu, com os cabelos esvoaçantes ao vento.

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Zé, eu e Flavinho, em Piriápolis

Dois dias depois, já em Montevideo, engrossávamos todos o coro da hinchada carbonera na Tribuna Amsterdan, o setor mais popular do legendário Estadio Centanario. Ali, o Peñarol enfrentaria o Deportivo Ichique pela última rodada da primeira fase da Libertadores. Em transe, a torcida cantou do primeiro minuto ao apito final, extasiando até mesmo o Flavinho, avesso ao futebol, mas que se maravilhava com a experiência sociológica que, então, vivia. O Peñarol, que precisava ganhar por quatro gols de diferença, meteu três a zero. O time saiu de campo desclassificado, mas ovacionado. A noite se estendeu até um boteco atulhado de cacarecos, cujo dono – Pablo –, apesar da cara de poucos amigos, era na verdade um gorducho bonachão. Terminamos com uma paella caprichada e etílica do repertório do Fernando, preparada na casa do Chiqui, nosso novo amigo. No dia seguinte, o El País estamparia na manchete: “Triunfo amargo”, o que sintetizava em cheio o desfecho do jogo.

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Tribuna Amsterdan, Estadio Centenario

Tivemos dias suficientes para esquadrinhar os quatro cantos de Montevideo: as ramblas, pelas quais se passeia com termo y mate a tiracolo; a Ciudad Vieja, em que a vida parece transcorrer em ritmo suave; o Cafe Brasilero, onde se tem a impressão de que se vai encontrar Galeano em uma das mesas; e toda sorte de teatros, museus e barres que conseguimos avistar. Nenhum lugar, entretanto, me encantou mais que o Baar Fun-Fun, tradicionalíssima casa de tango fundada em 1895. Pode parecer imponente, mas o espaço é mais prosaico do que se possa imaginar: umas poucas mesas simples, paredes cobertas de fotos, recortes de jornal e bandeiras. Entre as fotografias, algumas de Carlos Gardel, autografadas pelo próprio. Entre as páginas de jornal, um pôster da seleção uruguaia que silenciou o Maracanã na Copa de 1950. Entre as flâmulas, uma do Santos, outra do Palmeiras.

O que me arrebatou, contudo, foi o palco reduzido, onde um casal desfiou passos de tango que rescendiam a sensualidade e, em seguida, uma cantante se apresentou com uma verdade que, talvez, eu só tenha visto em Maria Bethânia, Elis Regina e, mais recentemente, Bruna Caram. Devia ter uns 60 anos, lábios complacentes e usava um chapéu à la Gardel e que escondia um coque bem atado. Ao se apresentar, interpretava cada palavra e fitava a plateia com olhar tão profundo que dava a cada expectador a impressão de que era para si que ela cantava. Fazia parecer bonito o sofrimento e, por isso, a dor se carregava de algum sentido.

No intervalo, percebi-a sozinha, junto ao balcão. Inventei de ir ao banheiro e, na volta, mandei minha timidez às favas e, com meu portunhol desarvorado, entabulei conversa. Ela estava, então, sem o chapéu e de perto parecia ainda mais expressiva e, apesar da elegância, tinha um quê de tristeza perene. Lá pelas tantas, arrisquei uma pergunta-clichê: como era capaz cantar de forma tão legítima, como se realmente sentisse todas as desventuras que cantava? A resposta veio em tom solene e me soou emblemática. “Hay que sufrir por amor, porque sufrir por amor es mejor que sufrir por una enfermedad”. A partir de então, não me lembro de mais nada do que conversamos. Nem seria preciso.

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Após a paella: El Gordo, Zé Renato, Flavinho, Camillo, Chiqui; eu, Fernando e Alejandro

Adeus em mi menor

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A mais recente foto que tenho com o maestro é também a de que mais gosto. Foi tirada pela Cris Seciuk, no fim de maio. Crédito: Cristina Seciuk

 

Na última vez em que o visitei, como de costume, subi ao quarto número 222 sem ser anunciado. Desta vez, no entanto, já o encontrei aprumado, sentado à escrivaninha, posto a vasculhar uma pasta que continha partituras escritas a próprio punho em papeis amarelados pelo tempo, como se, com o ato, pudesse revolver a própria memória. Já trazia o chapéu panamá metido à cabeça e envergava seu paletó de veludo, que parecia vir bem a calhar naquela manhã de julho de ar gélido. Quando deu por mim, insistiu para que eu alcançasse uma cadeira de madeira ali perto e tomasse assento. Não quis, contudo, estender muito a prosa.

– Vamos descer ali embaixo? Eu queria pegar um pouco de sol – disse-me, um pouco adiante.

Conduzi-o a um banco no calçadão, quase em frente à entrada do hotel. Sentamo-nos lado a lado e ficamos ali, calados, vendo a manhã se findar com vagar, como se dispuséssemos de todo o tempo do mundo. Sabíamos, contudo, que a realidade nos apontava o contrário: em questão de dias, ele embarcaria rumo ao Rio de Janeiro, onde passaria a morar com uma das filhas. Aquela poderia, portanto, ser a nossa última conversa antes que ele partisse. Nem por isso nos pesamos de qualquer urgência ou angústia. Era um entendimento quase mudo – que música também tem muito de silêncio.

Ora ou outra, ele puxava assunto. Banalidades típicas de quem parece estar em paz. Observou, por exemplo, que aumentara o número de moradores de rua ali nos arredores, de modo que ele já não os conhecia pela feição ou pelo nome; contou um causo sobre o funcionário de uma loja ao lado; reclamou do frio; e elogiou o porte das mulheres que passavam pelo calçadão (“Uns mulherões enormes pacas. Parece que antigamente elas não eram tão grandes nem tão bonitas assim, não”). De quando em quando, algum passante o saudava – “bom dia, maestro” –, ao que ele respondia com um sorriso ou aceno de cabeça. Parecia pertencer àquela ruela de petit-pavé.

Perto do meio-dia, fiz alusão de me levantar para partir, ao que ele virou o rosto em minha direção e disse, com um meio-sorriso: “Já vai? Fica mais um pouco”.  Até então, eu nunca o havia visto reivindicar a presença de ninguém, afeito que é a fechar-se em seu mundo. Considerei o convite significativo, como um presságio de que aquela seria mesmo a última prosa antes do embarque. “Que seja, maestro”, respondi por fim, lisonjeado, ajeitando-me novamente no banco. Abri mão do meu almoço e permaneci ali, ao lado dele, até que, quase uma hora adiante, o dever me chamasse definitivamente.

Despedimo-nos sem cerimônia nem sentimentalismo, qual fôssemos nos ver novamente no dia seguinte. Se houvesse uma ou outra conversa mais, talvez ele desatasse a falar sobre João Gilberto ou escavasse alguma história dos tempos de parceria com Gebran Sabbag – como já havia feito nas dezenas e dezenas de prosas que tivemos (mais de trinta delas, gravadas em áudio) desde que me dispus a tentar resgatar sua biografia em livro. Com o tempo, percebi que havia me perdido na linha tênue que o Jornalismo insiste em traçar entre o repórter e a fonte. Tornamo-nos como amigos.

Só então entendi que é impossível entrevistá-lo, dentro do conceito que se tem de entrevista, com o jornalista fazendo as perguntas, dono da situação. O maestro só se entrega quando se sente parte e faz as revelações quando quer, quando menos se espera. Às vezes, a resposta para determinada pergunta só vai vir dias adiante, em meio a uma xícara de café ou a uma caminhada na praça. Dia desses, quando eu lhe disse que era ele quem conduzia as entrevistas, e não o oposto, ele riu: “Vai ver que é porque eu sou maestro, acostumado a reger orquestras, os músicos…”, disse, em tom de galhofa.

Em fins de maio, a Cris Seciuk – jornalista de peito aberto e fotógrafa oculta – também passou a visitá-lo, a fim de escrever sobre ele. Em uma dessas manhãs em que eu estava por lá, vi-a clicar uma série em que o maestro está a vasculhar partituras. Apareço em algumas das imagens e uma dessas é a de que mais gosto: estamos ele e eu, sorrindo com leveza. O ensaio da Cris parece ter captado a essência do personagem, que certa feita Alice Ruiz definiu com propriedade: “ele tem alma de passarinho”.

Recebi a notícia no meio da tarde de ontem: o maestro embarcaria naquela noite. Assim que encerrei expediente no jornal, acorri ao hotel, onde encontrei o porteiro sentado à porta. “Ele já foi tem mais de meia hora”, tascou, rispidamente. Telefonei ao Kito Pereira, seu grande amigo e fiel escudeiro, que me informou que a família achara por bem adiantar em uma hora a ida ao aeroporto, para garantir que não perderiam o voo. “Mas é isso. Tudo vai ficar bem”, tranquilizou-me.

Sob a garoa fina que caía, fiquei alguns minutos ali, petrificado por não ter conseguido me despedir. Fitando o banco vazio, lembrei-me de que, na última prosa com o maestro, eu divaguei que achava que o mi menor era o acorde mais triste que havia. O maestro entabulou uma explicação técnica, mencionando as terças e evocando a escala dórica, mas interrompeu o raciocínio do nada, com um movimento com as mãos, como se desistisse do próprio racionalismo teórico. “O mi menor é o mais triste, porque é o único que vai morrer no chão”, sacramentou, por fim. Enquanto voltava pela Rua XV quase deserta, eu pensei de novo no maestro e quase pude ouvir meu adeus em tom de mi menor.

 

Curitiba, 18 de julho de 2017

Fora da bola

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– Cabôôôôô! Caboôôôôôôô!

Era sempre assim. Lá pelas quatro e meia da tarde, quando o sol se tornava menos inclemente, os mais velhos invadiam o campinho de areia, cheios de autoridade, colocavam fim à nossa pelada e nos espaventavam sem dó nem piedade. Pouco importava se a partida estava empatada ou se faltava apenas dois minutinhos para o tempo regulamentar se esgotar. Capaz que se dignariam a esperar ou a negociar! Quando eles chegavam, cabia a nós, os mais novos, sair de banda, gritando “filhadaputas” e “àputaqueosparius”, fugindo dos cascudos e pontapés com os quais os maiores tentavam acelerar a nossa expulsão sumária.

Tínhamos, então, entre dez e doze anos – faixa etária que não nos credenciava a jogar com os maiores, que tinham pra mais de dezesseis e alguns adultos. Restava-nos o período anterior ao da chegada deles. O problema é que neste horário a areia fervilhava sob sol de verão e, como jogávamos descalços, tínhamos que suportar as bolhas de sangue que se formavam na sola dos pés e nos acostumarmos a ter o corpo torrado pelos raios ultravioleta. Quando a brisa de fim de tarde ameaçava começar a soprar, pronto: lá vinham eles, qual fossem dono do campinho, e nos botavam pra correr.

– Cabôôôôôôô! Cabôôôôôôô!

Em situação desfavorável, desenvolvemos alguns macetes com o passar do tempo. Para amenizar a incandescência da areia, formávamos pequenas poças d’água às margens do campo, onde metíamos os pés para aliviar a quentura. Outra tática era, assim que a gente visse os mais velhos chegando, meter um bicudão na bola, fazendo-a cair no meio do rio – que ficava ao lado da arena. Se nós perderíamos o direito de jogar, pelos menos lhes daríamos algum trabalho. Nessas ocasiões, no entanto, era melhor apertar o passo, posto que, caso nos pegassem, os pés-no-ouvido seriam mais fortes.

Sem bola e sem campinho, ficávamos à beira do rio, vociferando desaforos e maquinando vinganças. Numa dessas, arquitetamos um ardil mais elaborado, que levamos a cabo no dia seguinte: espalhamos meia dúzia de tijolos em pontos diferentes da quadra e os cobrimos com areia, dando feição de que se tratava de castelinhos de areia. Quando os marmanjos nos escorraçavam do campinho, em meio aos “vaitomarnocus”, vimos um deles chutar um dos montes e, ato contínuo, cair aos berros. Havia acertado uma das pedras ocultas e destroncado o dedão.

Talvez isso não dê conta de elucidar a questão, mas aprendemos, na prática, que a malandragem é tão somente o último recurso do mais fraco, um mecanismo de defesa de quem se vê exausto de sofrer injustiças imutáveis. Embrutecemo-nos por reação instintiva, por estratégia de sobrevivência, não por gosto ou má índole. Entre apanhar cotidianamente e sair com o rabo entre as pernas, optamos pelos riscos das mínimas desforras. Era a nossa forma de resistência.

Uns verões adiante, quando já contava quatorze anos, fui intimado a jogar com os mais velhos, numa tarde em que faltava um para completar o time. Eu não passava de um moleque magrelo, mas tinha fôlego sem fim, era um carrapato pra marcar e tinha passe regular. Deste modo, os convites se sucederam e passei a integrar o esquadrão dos maiores. Como tal, passei a chegar ao campinho com eles, gritando “cabôôôôôôô”, fazendo menção de chutar o traseiro dos meninos que demorassem a bater em retirada. Embora já tivesse sofrido com aquela prática, dei de agir como os que até ontem eram meus algozes.

Eu era muito moleque e, como tal, não tinha discernimento para avaliar a profundidade de minhas ações – apenas agia. Assim, só fui fazer um mea-culpa anos mais tarde. Agora, penso que aquelas passagens no campinho podem ser metáfora perfeita para a sociedade contemporânea e, por conseguinte, para muito do que se vê nesses dias de polarizações, de extremos e de devassas em direitos históricos. Brada-se por vidraças quebradas, mas se cala diante da fome do outro. Assimila-se e se legitima o discurso de quem fustiga, enquanto, no fundo no fundo, se sonha em ter o chicote para si. Em síntese, o poder corrompe quem não está apto a tê-lo nas mãos. Na época, eu não conhecia George Orwell, nem Paulo Freire. Hoje, sinto que eles tinham razão.

Agora eu era herói

sanfona

Assim que subi as escadas da estação do metrô Consolação, a Paulista (a avenida) se abriu, impávida feito esfinge: “Decifra-me ou te devoro”. Parecia que ela, toda concreto, arranha-céus, vai-e-vem incessante de gente e turbilhão de automóveis, era a síntese da capital que se me descortinava. Só ali tive certeza de que havia me lançado a nova vida. Poucos minutos atrás, eu, recém-formado, desembarcara na rodoviária da Barra Funda, trazendo nas costas uma mochila, a necessidade de me perder para me encontrar e uma gana sem fim de abraçar o mundo. O ano era 2005 e aquela seria a minha primeira passagem por São Paulo – dessas que a gente fica pra morar.

Os primeiros passos que meus All Star já gastos deram para além da boca do metrô se fizeram acompanhar pelas notas de uma sanfona. A música fez com que eu estacasse e seguisse até a lateral da entrada da estação, onde um sujeito com traços de caboclo tocava com graça e sorria para quem parasse para ouvi-lo. Do instrumento, saía “João e Maria”, que me soou com beleza ímpar, qual se a ouvisse pela primeira vez. Conforme a melodia dançava, eu me recordava da letra, de poesia tão leve, que contrastava com a magnitude daquela metrópole. À rua, um nordestino se apresentava para um caipira (eu), ambos retirantes. Serendipity (perdoe-me o anglicanismo). Aos acordes finais, apertei a mão do músico e disse um comovido “obrigado”. Aquela música fez com que eu sentisse certa coragem e começasse a decifrar a cidade grande.

(“E agora eu era um louco a perguntar/ O que é que a vida vai fazer de mim?”)

Lembrei-me desse episódio na semana passada, em típica manhã de impetuoso frio curitibano, em que eu andava contando os pinhões desenhados em mosaico no petit-pavé (“pedras portuguesas”, para os paulistas) do calçadão da Rua XV. Quando dei por mim, estava diante de um trio (violino, violão e percussão), que executava “João e Maria”. A música engatilhou o mesmo alumbramento de anos atrás, ajudando a me trazer de volta a um eixo do qual eu vinha um tanto fora de órbita. Não esperei o fim da apresentação. Enquanto deixava a melodia para trás, pensava em como uma canção – qual seja – pode unir as pontas de uma existência e, ao olhar em retrospecto, concluí que ainda tenho muito daquele rapazote que almejava levar o mundo inteiro no bolso. Penso que isso seja essência. Talvez a gente nunca deixe de ser menino, de sentir saudade e de carregar sonhos na mochila. Vá entender… Talvez seja este o maior dos enigmas da esfinge.

Uns anos atrás, quando eu embarquei no ônibus que me levou a minha segunda passagem por São Paulo, foi minha mãe quem me levou à rodoviária. Era uma manhã fria de junho, uma sexta-feira, 13, e, embora fizesse sol, eu me peguei meio cismado em face da data de mau agouro. Pouco antes de me despedir, achei por bem partilhar da minha angústia – que é muito próprio das mães ter a palavra certa para as horas de infortúnio.

– Pense que é dia de Santo Antônio. E seu avô Antônio está lá em cima, olhando por você. – respondeu-me ela, com uma singeleza de desarmar qualquer um.

Beijei-a no rosto e entrei no ônibus, apto a enfrentar o que viesse pela frente. Ainda hoje, quando as coisas pendem a sair fora dos esquadros, gosto de recordar deste dia e de pensar que vô Antônio zela por mim, com seus olhos que sempre foram pura bondade. É mais fácil ter coragem quando se sente protegido. Tenho pra mim que há uma relação entre esta passagem e as aparições de “João e Maria” no meu caminho. Numa dessas, calha de a gente personificar o menino da música, enfrentar “os batalhões/ Os alemães e seus canhões”, quiçá gritar que “pela minha lei/ A gente era obrigado a ser feliz”.  Nem que seja só até o fim da brincadeira.

Curitiba, 9 de julho de 2017

 

João e Maria (música: Sivuca/ letra: Chico Buarque)