Castigo de Deus

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Dentre os inúmeros moleques que, com as mais diversas estripulias, davam vida às ruas do bairro em que eu morava, o que tinha a melhor pontaria era o Edgard. Quando ele empunhava o estilingue e, num cacoete que parecia uma espécie de rito, virava para trás o boné já encardido do “Curíntia”, punha a língua para fora, no canto esquerdo da boca, e fazia mira com concentração inabalável, não havia pássaro que escapasse. Pardais, rolinhas, pombas, caga-sebos… Todos sucumbiam aos disparos precisos do meu amigo. Havia ocasiões em que os garotos se juntavam apenas para acompanhá-lo em suas caçadas urbanas e, por conseguinte, vê-lo abater uma a uma as aves que lhe cruzavam o caminho. Alguns dos meninos mais entusiasmados com a matança chegavam a vilipendiar ou esquartejar o cadáver dos pobres passarinhos. Qual um snipper bem treinado, Edgard raramente errava, o que lhe rendeu certo prestígio entre os moleques. O estilingue era a brincadeira da estação e Edgard, seu esponte máximo.

De início, eu não cedi à moda. Não gostava de que judiassem de qualquer animal, que dirá exterminar à toa um bicho tão inofensivo, feito passarinho. É bem verdade que eu era dado a cortar rabos de lagartixas só para vê-los serpentear, como se tivessem vida própria. Mas o fazia porque sabia que a cauda lhes tornaria a crescer. Está bem! Confesso que também gostava de tacar sal sobre lesmas, mas, de todo modo, não as considerava como bicho, posto que não manifestavam dor. Além do mais, uma coisa era decepar um ou outro rabo de lagartixa ou fazer derreter um punhado de lesmas; outra coisa – muito mais grave, pensava eu – era promover uma chacina de pássaros, só para lhes ver o tombo.

Apesar disso, como a febre do estilingue custava a passar, resolvi aderir. Aliei-me ao Thiagão, que também precisava de uma arma para participar das caçadas. Munidos de um facão que ele pegara de sua avó (sem permissão, é claro), fomos a um pasto que ficava atrás da escola da vila, onde era possível encontrar árvores leiteiras, que são as que têm madeira ideal para cabos de atiradeiras. Cada um escolheu e cortou um galho em formato de “y”, com a angulação e empunhadura que considerava ideal para oferecer melhor mira. Voltamos com alguns carrapatos e esbaforidos por culpa de um boi que nos empreendera perseguição, mas triunfantes, cada com qual com a sua forquilha. Por fim, era descascar a madeira e deixá-la secar ao sol – caso contrário, a seiva poderia “comer” as tripas-de-mico (as tiras de borracha, para os leigos). Dentro em breve, teríamos nossos estilingues.

Com a arma em mãos, fraquejei. Por óbvio, eu já tivera estilingues, sabia atirar e até que gozava de boa mira, mas nunca tinha sido capaz de matar um pardal sequer. Quando apontava contra um passarinho e firmava pontaria, na última fração de segundo, o remorso prévio acabava fazendo com que eu desviasse levemente a empunhadura, errando o tiro propositalmente. De quebra, meus pelotaços tortos provocavam uma revoada de aves assustadiças, o que tolhia a oportunidade de meus amigos, que, fulos da vida, viam suas pretensas vítimas baterem asas pra longe.

Desta maneira, tornei-me um tipo de justiçador. A cada bando que eu espantava, sentia que havia salvado uns quantos passarinhos da sanha assassina dos meus amigos. Entretanto, como tudo na vida tem um preço, comecei a ser deixado de lado pelos moleques, que já desistiam de ralhar comigo a cada tiro errado. Aos poucos, fui voltando minha mira exclusivamente para latas de alumínio ou, quando muito, para frutas do pomar da dona Catarina – uma vizinha que furava as bolas que porventura, derrubávamos em seu quintal. Estava prestes a abandonar definitivamente o estilingue, mas uns quantos meninos, vendo meu bom desempenho no tiro-ao-alvo, começaram a suspeitar de que eu desviava os disparos de propósito e nisso passaram a pressionar pelo meu “batismo de sangue”.

Disposto a provar coragem, no comecinho de uma tarde de céu azul de sábado, Thiagão e eu armamos tocaia sobre o muro do quintal de minha casa, de onde observávamos dois sanhaços e uma rolinha, que bicavam um mamão do pomar de dona Catarina. Mesmo à longa distância, bati no peito, como se chamasse a responsabilidade para mim. Ajeitei a munição e disparei, mas a pedra foi dar no caule do mamoeiro, afugentando os pássaros. Assustada, a rolinha pousou no galho de um limoeiro carregado, no quintal vizinho e bem mais perto de onde estávamos. O meu amigo reivindicou a vez:

-É agora, Felippão…

O tiro partiu certeiro e só quando pulamos o muro às pressas e nos achegamos é que constatamos que não havia uma, mas duas aves abatidas. Para nosso espanto, Thiagão havia alvejado um ninho, matando dois filhotes de rolinha, cuja plumagem mal tinha começado a despontar. Dali, vimos a rolinha-mãe voar de árvore em árvore, qual estivesse aflita, se lamentando em arrulhos que me soaram lancinantes. Era como se ela chorasse.

Arrependidos, tratamos de nos escafeder dali. Mal nos sentamos na calçada de minha casa, umas poucas nuvens despejaram uma garoa fina e sem força, mas que caiu por uns quinze minutos. Enquanto chovia, era possível ver o horizonte azul, ensolarado. Parecia mau agouro.

– É castigo de Deus. – sentenciei.

Desde então, nunca mais apontei mira a nenhum passarinho.

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Adeus em mi menor

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A mais recente foto que tenho com o maestro é também a de que mais gosto. Foi tirada pela Cris Seciuk, no fim de maio. Crédito: Cristina Seciuk

 

Na última vez em que o visitei, como de costume, subi ao quarto número 222 sem ser anunciado. Desta vez, no entanto, já o encontrei aprumado, sentado à escrivaninha, posto a vasculhar uma pasta que continha partituras escritas a próprio punho em papeis amarelados pelo tempo, como se, com o ato, pudesse revolver a própria memória. Já trazia o chapéu panamá metido à cabeça e envergava seu paletó de veludo, que parecia vir bem a calhar naquela manhã de julho de ar gélido. Quando deu por mim, insistiu para que eu alcançasse uma cadeira de madeira ali perto e tomasse assento. Não quis, contudo, estender muito a prosa.

– Vamos descer ali embaixo? Eu queria pegar um pouco de sol – disse-me, um pouco adiante.

Conduzi-o a um banco no calçadão, quase em frente à entrada do hotel. Sentamo-nos lado a lado e ficamos ali, calados, vendo a manhã se findar com vagar, como se dispuséssemos de todo o tempo do mundo. Sabíamos, contudo, que a realidade nos apontava o contrário: em questão de dias, ele embarcaria rumo ao Rio de Janeiro, onde passaria a morar com uma das filhas. Aquela poderia, portanto, ser a nossa última conversa antes que ele partisse. Nem por isso nos pesamos de qualquer urgência ou angústia. Era um entendimento quase mudo – que música também tem muito de silêncio.

Ora ou outra, ele puxava assunto. Banalidades típicas de quem parece estar em paz. Observou, por exemplo, que aumentara o número de moradores de rua ali nos arredores, de modo que ele já não os conhecia pela feição ou pelo nome; contou um causo sobre o funcionário de uma loja ao lado; reclamou do frio; e elogiou o porte das mulheres que passavam pelo calçadão (“Uns mulherões enormes pacas. Parece que antigamente elas não eram tão grandes nem tão bonitas assim, não”). De quando em quando, algum passante o saudava – “bom dia, maestro” –, ao que ele respondia com um sorriso ou aceno de cabeça. Parecia pertencer àquela ruela de petit-pavé.

Perto do meio-dia, fiz alusão de me levantar para partir, ao que ele virou o rosto em minha direção e disse, com um meio-sorriso: “Já vai? Fica mais um pouco”.  Até então, eu nunca o havia visto reivindicar a presença de ninguém, afeito que é a fechar-se em seu mundo. Considerei o convite significativo, como um presságio de que aquela seria mesmo a última prosa antes do embarque. “Que seja, maestro”, respondi por fim, lisonjeado, ajeitando-me novamente no banco. Abri mão do meu almoço e permaneci ali, ao lado dele, até que, quase uma hora adiante, o dever me chamasse definitivamente.

Despedimo-nos sem cerimônia nem sentimentalismo, qual fôssemos nos ver novamente no dia seguinte. Se houvesse uma ou outra conversa mais, talvez ele desatasse a falar sobre João Gilberto ou escavasse alguma história dos tempos de parceria com Gebran Sabbag – como já havia feito nas dezenas e dezenas de prosas que tivemos (mais de trinta delas, gravadas em áudio) desde que me dispus a tentar resgatar sua biografia em livro. Com o tempo, percebi que havia me perdido na linha tênue que o Jornalismo insiste em traçar entre o repórter e a fonte. Tornamo-nos como amigos.

Só então entendi que é impossível entrevistá-lo, dentro do conceito que se tem de entrevista, com o jornalista fazendo as perguntas, dono da situação. O maestro só se entrega quando se sente parte e faz as revelações quando quer, quando menos se espera. Às vezes, a resposta para determinada pergunta só vai vir dias adiante, em meio a uma xícara de café ou a uma caminhada na praça. Dia desses, quando eu lhe disse que era ele quem conduzia as entrevistas, e não o oposto, ele riu: “Vai ver que é porque eu sou maestro, acostumado a reger orquestras, os músicos…”, disse, em tom de galhofa.

Em fins de maio, a Cris Seciuk – jornalista de peito aberto e fotógrafa oculta – também passou a visitá-lo, a fim de escrever sobre ele. Em uma dessas manhãs em que eu estava por lá, vi-a clicar uma série em que o maestro está a vasculhar partituras. Apareço em algumas das imagens e uma dessas é a de que mais gosto: estamos ele e eu, sorrindo com leveza. O ensaio da Cris parece ter captado a essência do personagem, que certa feita Alice Ruiz definiu com propriedade: “ele tem alma de passarinho”.

Recebi a notícia no meio da tarde de ontem: o maestro embarcaria naquela noite. Assim que encerrei expediente no jornal, acorri ao hotel, onde encontrei o porteiro sentado à porta. “Ele já foi tem mais de meia hora”, tascou, rispidamente. Telefonei ao Kito Pereira, seu grande amigo e fiel escudeiro, que me informou que a família achara por bem adiantar em uma hora a ida ao aeroporto, para garantir que não perderiam o voo. “Mas é isso. Tudo vai ficar bem”, tranquilizou-me.

Sob a garoa fina que caía, fiquei alguns minutos ali, petrificado por não ter conseguido me despedir. Fitando o banco vazio, lembrei-me de que, na última prosa com o maestro, eu divaguei que achava que o mi menor era o acorde mais triste que havia. O maestro entabulou uma explicação técnica, mencionando as terças e evocando a escala dórica, mas interrompeu o raciocínio do nada, com um movimento com as mãos, como se desistisse do próprio racionalismo teórico. “O mi menor é o mais triste, porque é o único que vai morrer no chão”, sacramentou, por fim. Enquanto voltava pela Rua XV quase deserta, eu pensei de novo no maestro e quase pude ouvir meu adeus em tom de mi menor.

 

Curitiba, 18 de julho de 2017

Fora da bola

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– Cabôôôôô! Caboôôôôôôô!

Era sempre assim. Lá pelas quatro e meia da tarde, quando o sol se tornava menos inclemente, os mais velhos invadiam o campinho de areia, cheios de autoridade, colocavam fim à nossa pelada e nos espaventavam sem dó nem piedade. Pouco importava se a partida estava empatada ou se faltava apenas dois minutinhos para o tempo regulamentar se esgotar. Capaz que se dignariam a esperar ou a negociar! Quando eles chegavam, cabia a nós, os mais novos, sair de banda, gritando “filhadaputas” e “àputaqueosparius”, fugindo dos cascudos e pontapés com os quais os maiores tentavam acelerar a nossa expulsão sumária.

Tínhamos, então, entre dez e doze anos – faixa etária que não nos credenciava a jogar com os maiores, que tinham pra mais de dezesseis e alguns adultos. Restava-nos o período anterior ao da chegada deles. O problema é que neste horário a areia fervilhava sob sol de verão e, como jogávamos descalços, tínhamos que suportar as bolhas de sangue que se formavam na sola dos pés e nos acostumarmos a ter o corpo torrado pelos raios ultravioleta. Quando a brisa de fim de tarde ameaçava começar a soprar, pronto: lá vinham eles, qual fossem dono do campinho, e nos botavam pra correr.

– Cabôôôôôôô! Cabôôôôôôô!

Em situação desfavorável, desenvolvemos alguns macetes com o passar do tempo. Para amenizar a incandescência da areia, formávamos pequenas poças d’água às margens do campo, onde metíamos os pés para aliviar a quentura. Outra tática era, assim que a gente visse os mais velhos chegando, meter um bicudão na bola, fazendo-a cair no meio do rio – que ficava ao lado da arena. Se nós perderíamos o direito de jogar, pelos menos lhes daríamos algum trabalho. Nessas ocasiões, no entanto, era melhor apertar o passo, posto que, caso nos pegassem, os pés-no-ouvido seriam mais fortes.

Sem bola e sem campinho, ficávamos à beira do rio, vociferando desaforos e maquinando vinganças. Numa dessas, arquitetamos um ardil mais elaborado, que levamos a cabo no dia seguinte: espalhamos meia dúzia de tijolos em pontos diferentes da quadra e os cobrimos com areia, dando feição de que se tratava de castelinhos de areia. Quando os marmanjos nos escorraçavam do campinho, em meio aos “vaitomarnocus”, vimos um deles chutar um dos montes e, ato contínuo, cair aos berros. Havia acertado uma das pedras ocultas e destroncado o dedão.

Talvez isso não dê conta de elucidar a questão, mas aprendemos, na prática, que a malandragem é tão somente o último recurso do mais fraco, um mecanismo de defesa de quem se vê exausto de sofrer injustiças imutáveis. Embrutecemo-nos por reação instintiva, por estratégia de sobrevivência, não por gosto ou má índole. Entre apanhar cotidianamente e sair com o rabo entre as pernas, optamos pelos riscos das mínimas desforras. Era a nossa forma de resistência.

Uns verões adiante, quando já contava quatorze anos, fui intimado a jogar com os mais velhos, numa tarde em que faltava um para completar o time. Eu não passava de um moleque magrelo, mas tinha fôlego sem fim, era um carrapato pra marcar e tinha passe regular. Deste modo, os convites se sucederam e passei a integrar o esquadrão dos maiores. Como tal, passei a chegar ao campinho com eles, gritando “cabôôôôôôô”, fazendo menção de chutar o traseiro dos meninos que demorassem a bater em retirada. Embora já tivesse sofrido com aquela prática, dei de agir como os que até ontem eram meus algozes.

Eu era muito moleque e, como tal, não tinha discernimento para avaliar a profundidade de minhas ações – apenas agia. Assim, só fui fazer um mea-culpa anos mais tarde. Agora, penso que aquelas passagens no campinho podem ser metáfora perfeita para a sociedade contemporânea e, por conseguinte, para muito do que se vê nesses dias de polarizações, de extremos e de devassas em direitos históricos. Brada-se por vidraças quebradas, mas se cala diante da fome do outro. Assimila-se e se legitima o discurso de quem fustiga, enquanto, no fundo no fundo, se sonha em ter o chicote para si. Em síntese, o poder corrompe quem não está apto a tê-lo nas mãos. Na época, eu não conhecia George Orwell, nem Paulo Freire. Hoje, sinto que eles tinham razão.

Agora eu era herói

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Assim que subi as escadas da estação do metrô Consolação, a Paulista (a avenida) se abriu, impávida feito esfinge: “Decifra-me ou te devoro”. Parecia que ela, toda concreto, arranha-céus, vai-e-vem incessante de gente e turbilhão de automóveis, era a síntese da capital que se me descortinava. Só ali tive certeza de que havia me lançado a nova vida. Poucos minutos atrás, eu, recém-formado, desembarcara na rodoviária da Barra Funda, trazendo nas costas uma mochila, a necessidade de me perder para me encontrar e uma gana sem fim de abraçar o mundo. O ano era 2005 e aquela seria a minha primeira passagem por São Paulo – dessas que a gente fica pra morar.

Os primeiros passos que meus All Star já gastos deram para além da boca do metrô se fizeram acompanhar pelas notas de uma sanfona. A música fez com que eu estacasse e seguisse até a lateral da entrada da estação, onde um sujeito com traços de caboclo tocava com graça e sorria para quem parasse para ouvi-lo. Do instrumento, saía “João e Maria”, que me soou com beleza ímpar, qual se a ouvisse pela primeira vez. Conforme a melodia dançava, eu me recordava da letra, de poesia tão leve, que contrastava com a magnitude daquela metrópole. À rua, um nordestino se apresentava para um caipira (eu), ambos retirantes. Serendipity (perdoe-me o anglicanismo). Aos acordes finais, apertei a mão do músico e disse um comovido “obrigado”. Aquela música fez com que eu sentisse certa coragem e começasse a decifrar a cidade grande.

(“E agora eu era um louco a perguntar/ O que é que a vida vai fazer de mim?”)

Lembrei-me desse episódio na semana passada, em típica manhã de impetuoso frio curitibano, em que eu andava contando os pinhões desenhados em mosaico no petit-pavé (“pedras portuguesas”, para os paulistas) do calçadão da Rua XV. Quando dei por mim, estava diante de um trio (violino, violão e percussão), que executava “João e Maria”. A música engatilhou o mesmo alumbramento de anos atrás, ajudando a me trazer de volta a um eixo do qual eu vinha um tanto fora de órbita. Não esperei o fim da apresentação. Enquanto deixava a melodia para trás, pensava em como uma canção – qual seja – pode unir as pontas de uma existência e, ao olhar em retrospecto, concluí que ainda tenho muito daquele rapazote que almejava levar o mundo inteiro no bolso. Penso que isso seja essência. Talvez a gente nunca deixe de ser menino, de sentir saudade e de carregar sonhos na mochila. Vá entender… Talvez seja este o maior dos enigmas da esfinge.

Uns anos atrás, quando eu embarquei no ônibus que me levou a minha segunda passagem por São Paulo, foi minha mãe quem me levou à rodoviária. Era uma manhã fria de junho, uma sexta-feira, 13, e, embora fizesse sol, eu me peguei meio cismado em face da data de mau agouro. Pouco antes de me despedir, achei por bem partilhar da minha angústia – que é muito próprio das mães ter a palavra certa para as horas de infortúnio.

– Pense que é dia de Santo Antônio. E seu avô Antônio está lá em cima, olhando por você. – respondeu-me ela, com uma singeleza de desarmar qualquer um.

Beijei-a no rosto e entrei no ônibus, apto a enfrentar o que viesse pela frente. Ainda hoje, quando as coisas pendem a sair fora dos esquadros, gosto de recordar deste dia e de pensar que vô Antônio zela por mim, com seus olhos que sempre foram pura bondade. É mais fácil ter coragem quando se sente protegido. Tenho pra mim que há uma relação entre esta passagem e as aparições de “João e Maria” no meu caminho. Numa dessas, calha de a gente personificar o menino da música, enfrentar “os batalhões/ Os alemães e seus canhões”, quiçá gritar que “pela minha lei/ A gente era obrigado a ser feliz”.  Nem que seja só até o fim da brincadeira.

Curitiba, 9 de julho de 2017

 

João e Maria (música: Sivuca/ letra: Chico Buarque)