O velho aymara

 

puka pukara pb
Ruínas de Puka Pukara. Maio de 2011

 

O mochilão já se estendia por mais de vinte luas, nas quais não fazíamos senão mirar adiante, em direção ao porvir. Como era o nosso último dia antes do regresso, demo-nos o direito de olhar para trás. Vimos o legendário Tren de la Muerte e os vilarejos à beira da miséria que se estendiam às margens da ferrovia; Sucre e suas casas todas caiadas em branco para afugentar os maus espíritos que atraíam raios; as desumanas minas de prata de Potosí; Uyuni e o salar em que as nuvens se fundiam ao chão, lá no fundo do horizonte; o deserto boliviano, que esconde paz, lagunas e cemitérios de trens; La Paz e seu caos organizado; o Titiqaqa a reivindicar uma saída para o mar; e atmosfera ancestral de Machu Picchu. Não tínhamos uma noção clara de tempo e de espaço: ora a expedição parecia ter começado dia anterior, ora dava a impressão de que se arrastava havia décadas.

Estávamos, então, em Cuzco, a quem já havíamos esquadrinhado, como se não tivéssemos tempo a perder. Essa sanha, de certo modo, nos dava uma sensação de invulnerabilidade, o que talvez tenha me instado à ideia estúpida de alugar um cavalo – por excelência, um animal traiçoeiro – a fim de visitar outros quatro sítios arqueológicos que compõem o Vale Sagrado e que ficam a um raio de poucos quilômetros de onde estávamos hospedados. Cada um de meus colegas, por seu turno, já havia declinado de conhecer as ruínas incas e tiraram o dia para outros programas. Fui sozinho.

O ginete era desses bem treinados, capazes de percorrer o caminho de olhos fechados, como quem trilha um destino do qual não pode escapar. Era montar e esperar que o bicho conduzisse a jornada pela mesma senda de sempre. Quando dei por mim, vi o cavalo cabisbaixo, em um trotar monocórdio e insosso, quase triste. Era como se o animal  – cuja simbologia sempre esteve alinhada à condição de liberdade – sentisse vergonha do papel que desempenhava, subjugado. Senti-me um explorador vil. Tive ganas de dar meia volta, mas, acometido de uma inquietação medonha, tentei imprimir um ritmo menos débil. Foi como se eu tivesse despertado a condição selvagem do animal, que subitamente galopou para fora da trilha e, em seguida, desabalou em uma carreira sem fim, como se estivesse livre.

Do alto da cela, eu tentava me equilibrar, firmando pé nos estribos, quando, de relance e à esquerda da planície, avistei um vulto que fazia gestos bruscos, como se me orientasse a puxar as rédeas. Assim o fiz e com tal firmeza que o cavalo empinou sobre as patas traseiras, num relincho agudo – se eu não estivesse pasmo de medo, teria me sentido em um dos antigos comerciais do Marlboro. Como se tivesse voltado a si, o ginete deu meia volta e caminhou uns poucos passos até um charco, ali perto, onde passou a beber água desapressadamente, como se nada tivesse acontecido.

Acariciei o dorso do animal, como que para desfazer o mal-estar que porventura tivesse ficado entre nós e fui ter com o homem que havia orientado minha reação. Tratava-se de um senhor de feições indígenas, que me cumprimentou com um aceno. Tinha olhos diretos, trazia os longos cabelos brancos atados em um rabo-de-cavalo e, quando falava com seu vozeirão rouco, era como se portasse toda a verdade do universo. Era de linhagem aymara e, na língua de sua etnia, seu nome queria dizer “Filho da Terra”.

Havia nascido em um pueblo nos arredores do Titiqaqa, de onde havia saído décadas atrás para plantar milho na área rural de Cuzco. Só então notei que o velho aymara apontava para frente, ao mencionar o passado – fosse pra falar da infância no sul peruano, fosse para narrar a morte tranquila do pai. Por outro lado, ao se referir ao futuro – ainda que este fosse a feira que aconteceria dentro de dois dias – ele apontava para trás de si. Repetia sempre esses gestuais, como se indicasse o tempo, acompanhando sua voz pausada.

Intrigado, protestei em portunhol. O passado não poderia ficar à frente, mas devia permanecer às costas, posto que já passou. Por sua vez, o futuro está adiante, já que está por vir. O indígena sorriu com complacência e com uma tranquilidade cândida que me lembrou um monge, pôs-se a explicar: para os aymaras, o passado sempre estará adiante, porque se trata daquilo que você viveu, que passou diante dos seus olhos – e que, portanto, você viu. Por outro lado, o futuro é desconhecido, insondável. Por isso, seu lugar é às costas, como se ainda não tivesse nos alcançado ou nos espreitasse.

Se você põe o passado à frente,  se vive apegado a culpas ou a dívidas não pagas, não terá paz. Se você vive com medo do que vem atrás, se preocupando com o que ainda não chegou, também não terá paz”, explicou o aymara, em nítido castelhano. “A minha gente dá muito valor à experiência. Você só pode saber do que viveu”, completou.

Com o cavalo já tranquilizado, montei e retomei a jornada, me despedindo do velho. Naquele dia, visitei as ruínas de Puka Pukara, de Tambomachay e de Saqsaywanan. No dia seguinte, enquanto mirava o lago Titiqaqa lá do alto, pela janela do avião que nos levava de volta, eu vi toda a viagem dos últimos vinte e tantos dias passar diante de mim. Foi inevitável: pensei no ancião aymara. Desde então, é como se passado e futuro tivessem perdido seu peso excessivo , ao passo que a experiência tenha passado a reivindicar sua condição de protagonista. “Meu delírio é a experiência com coisas reais”, cantaria o velho Belchior. Em síntese, talvez o que a milenar sabedoria aymara ensine é que a vida está no presente. 

 

Curitiba, 5 de junho de 2018.

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Um comentário sobre “O velho aymara

  1. A gente começa a leitura e não da para parar . Sabe que , às vezes, quando estou viajando observo determinados acontecimentos e me vem à cabeça como seria o texto daquele momento , se narrado por você .

    Curtido por 1 pessoa

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