Irracional

bola

 

Uma das passagens de que mais gosto na adaptação de “A hora da estrela” (Clarice Lispector) para o cinema não é uma das cenas principais, mas uma sequência curta e que, em regra, passa despercebida aos espectadores. Nela, a protagonista Macabéa – uma jovem nordestina simplória que vai a São Paulo para tentar a vida – está num metrô lotado, espremida entre dois passageiros quaisquer, que trocam provocações por causa de seus respectivos times. A conversa termina rispidamente quando um deles faz menção à política. “Não mistura futebol com política. Futebol é coisa séria”, finaliza o outro. Embora tenha sido gravada há mais de trinta anos (a película é de 1985), ainda hoje a cena rápida ajuda a explicar muito do país. E mais: escancara o fascínio irracional que o esporte trazido por Charles Miller exerce sobre nós, meros mortais brasileiros, educados sob a égide de uma bola e um par de chuteiras.

Você já deve ter ouvido uma das teorias sobre a etimologia do verbo “torcer” aplicado ao futebol, segundo a qual a palavra deriva do grego e tem o sentido de “distorcer/ falsear/ adulterar” a realidade. Assim, o torcedor é aquele bicho destituído de razão, cego pela paixão e movido pelo fanatismo, que manda às favas quaisquer resquícios de isenção ou imparcialidade. Pelo contrário: “torce” os fatos, de modo a criar uma narrativa que lhe seja conveniente – e, é claro, ao seu time. Nada importa. Há sempre um “mas”, embora as imagens, o contexto, os números e/ou a própria História provem o contrário. Quem nunca?

É coisa de louco, eu sei, mas lembre-se de que não estamos falando de racionalidades. Prova disso é que futebol transforma mesmo os tipos mais pacíficos e cordiais. Meu amigo Maurício (que também atende pela alcunha de Ciorimau), por exemplo, é um cara afável, ótimo companheiro para dividir uma cerveja e, de quebra, ainda escreve contos arrebatadores. Porém basta discordar dele em matéria de futebol, para vê-lo se fechar mais que beque de time pequeno e se arvorar às próprias verdades, das quais não arreda pé nem se Garrincha voltasse para jogar no Atlético Paranaense – seu clube de coração. E quem é que vai condená-lo, oras?

Eu mesmo, entre o fim da infância e início da adolescência, quebrei uns quantos rádios, ouvindo partidas do meu Parmera, entre uma e outra saraivada de palavrões que pipocavam a cada gol perdido. Quando o Porco perdia clássicos, eu implorava para faltar à escola e, por conseguinte, escapar da gozação dos colegas. Por outro lado, quando levamos o Paulistão de 93 com o eterno 4 x 0 sobre o Curíntia, fiz questão de ir à aula no dia seguinte, usando o manto verde, embora estivéssemos em pleno inverno de partir os lábios. Mais recentemente, em 2016, eu estava de férias no Uruguai, onde o Verdão foi jogar contra o River Plate, de Maldonado. Assisti ao jogo na torcida adversária e, dali mesmo, cantei “Vamo ganhar, Porco” e comemorei os dois gols como se estivesse no velho Palestra – e sem me preocupar com as caras feias que os uruguaios me dispensavam, como se estivessem prestes a me dar uns pontapés.

A irracionalidade levada às últimas consequências, no entanto, tem nome: Dirceu do Bar. Trata-se do único dos trinta mil viventes de Piraju que torce pela Portuguesa de Desportos. Ninguém tem ideia de como começou, mas todos sabem que, por detrás do balcão do boteco da ponte, jaz um senhor setentão, bonachão, de bigode… e torcedor da Lusa. Vá entender. Houve uma época em que uns clientes iam ao bar só para discutir futebol e, por óbvio, fazer troça do Dirceu e de sua Portuguesinha. Por fim, no entanto, todos acabavam meio que se condoendo com ele e até adotando o clube do Canindé como segundo time do coração.

O velho Dirceu não comemora um título de primeira divisão desde 1973. Viu a última quase glória do seu time ser barrada naquele fatídico 1998, quando juiz argentino (tinha que ser…) Javier Castrilli garfou a Lusinha em favor do Curíntia (grande novidade…), na semifinal do Paulistão. Um pouco antes disso, na decisão do Brasileirão de 1996, a cidadezinha inteira torceu pela Portuguesa contra o Grêmio, só por causa do Dirceu – e todo mundo ficou triste, quando a Lusa deixou escapar o título por entre os dedos. Apesar de todo fervor, o nobre balconista não conseguiu transmitir sua paixão aos seus herdeiros, de modo que ele permanece como torcedor exclusivo da Portuguesa na província. Contudo, mesmo com todos os revezes, jejum de títulos e sem ter a quem passar o estandarte lusitano, Dirceu continua com fé inquebrantável de que o esquadrão do Canindé voltará aos tempos áureos. Eu duvido, você também. Talvez até o próprio Dirceu, em seu íntimo mais profundo, duvide. Mas não estamos lidando com a razão. Todo torcedor tem o direito inalienável de crer na realidade que lhe aprouver. Irracionalmente. É assim que é. E que assim seja. Salve, Dirceu.

 

A hora da estrela

 

 

 

 

 

 

 

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