Sobre ouvir e outras prosas

fones

Todo mundo tem algo a dizer. Todo mundo. A coisa é que as pessoas andam tão absortas em si mesmas e dando demasiada importância ao próprio umbigo, que mal notam o outro, de modo que se torna praticamente impossível que se lhe dê ouvidos. Que pena. As lições mais valiosas, os diálogos mais saborosos e as melhores surpresas vêm de quem menos se espera. Um tanto disso, desenvolvi exercendo o ofício de jornalista, que prescinde de um naco de sensibilidade e de humildade para entender que, ao menos em certas ocasiões, não são as perguntas o que mais importa, mas as respostas. A gente existe em função do outro – de contar a história – e não o contrário.

Tenho pra mim que dei de ouvir desde lá de casa, cedinho. Vó Dita – que, na verdade, era minha bisavó – era toda tradição oral. A velhinha morava em outra cidade e quando nos visitava, arrastava uma cadeira até o quintal ou ao terraço, acendia um cigarrinho de palha, fechava os olhinhos mirrados e desatava a falar, emendando causo atrás de causo. Versava sobre gente a quem não conhecíamos e, às vezes, sobre um tempo que não vivemos, mas o fazia com tanta graça e com fartos detalhes que é como se tudo nos fosse familiar. E era tão bonito vê-la, sentada muito ereta, com o coque bem atado no topo de cabeça, que eu desejava um dia ter jeito pra contar histórias daquele modo, prendendo a atenção de tudo quanto fosse ouvinte.

Quis o destino, no entanto, que eu me tornasse um rapaz tímido e sem traquejo pra falar, mas, por outra via, ganhei certo tino pra ouvir. Sou desses, que dá conversa ao chofer de táxi, ao tiozinho do ônibus, à mocinha da fila do cinema, ao zelador do prédio. Não que eu seja o cara mais simpático da América Latina. Pelo contrário. Sou acanhado pr’essas coisas, já disse, mas me interesso sinceramente pelas pessoas e não me furto em ouvi-las. Nessas, já calhou de eu convidar um morador de rua para tomar café da manhã numa padaria, só para trocar dois dedos de prosa com ele. Tratava-se de um velho de modos elegantes e cheio de dignidade, apesar de sujo e metido em molambos. Ante os olhares desaprovadores dos outros clientes, em reação, ele puxou um livro do saco de estopa que carregava e o brandiu, feito um padre que exorciza demônios. “Falta-lhes leitura”, sentenciou.

N’outra feita, interessei-me por uma senhora que se fixou na esquina meu prédio, no Centro, onde passou a mendigar. Era negra retinta, de corpo atarracado e que, apesar de morar na rua, vestia-se impecavelmente – sempre uma bata e um turbante. Cada vez que eu entabulava conversa, ela se apresentava com um nome diferente (estratégia comum dos que não têm teto, até sentirem confiança no outro). A surpresa: não era dada a pedir dinheiro ou comida, mas que lhe comprassem cadernos de folhas sem pauta e canetas pretas. Desenhava maravilhosamente e com um estilo muito próprio, a partir de pequenos círculos, com os quais formava o que quisesse – de pessoas a paisagens –, numa espécie de releitura do pontilhismo. Uma noite em que eu passava por ali, ela me chamou e me mostrou sua carteira de identidade: chamava-se Sebastiana. Depois daquele episódio, nunca mais a vi.

Quando me mudei para o bairro, notei que um dos vizinhos do bloco lateral é cego e anda com a bengala tateando o caminho. Calhou de encontrá-lo num domingo em que eu voltava do mercado. “Quer carona?”, perguntei, oferecendo o braço para guiá-lo e puxando prosa. Seu Aleixo mora na vizinhança desde o começo da década de 1980, é casado, mas gosta de ir sozinho às compras. No curto trajeto, ainda deu tempo de contar que é evangélico e que costuma viajar com os irmãos de igreja, cantando em tudo quanto é cidade. Tem um vozeirão de bom timbre e, à guisa de comprovar o talento, deu uma canja de “Deixa a luz do céu entrar”. Atualmente, torço para topar com ele novamente. Quero saber como que diabos ele acha as mercadorias e descobre os respectivos preços. Quem sabe ele me convide pra um café…

No outro bloco, há uma vizinha que todo-santo-dia permanece à janela do seu apartamento, no térreo. Traz sempre fones metidos nas orelhas e o celular à mão. Deve ter coisa de uns cinquenta anos e é dona de um olhar perdido em algum canto escuro de si mesma. Sempre tive ganas de parar e trocar umas palavras com ela, mas, sabe como é: a gente tende a adiar o que parece corriqueiro. Ontem, no fim da tarde, no entanto, fui surpreendido quando passava apressadamente: “É duro gostar de alguém, né, moço?”, tascou, como quem procura aprovação aos próprios dilemas. A pergunta me pegou desprevenido. Voltei, apoiei-me na grade e falei a primeira coisa que me veio à cabeça: “É duro. Mas é inevitável”. Por dois segundos, senti-a arisca, como se, talvez, tivesse se arrependido por ter dado margem para que eu descobrisse porque os olhos dela vivem à penumbra. “Mas, no fim, tudo se resolve. Assim é a vida”, acrescentei. Ela deu meia-volta e entrou sem dizer nada. De cá, espero que o gostar lhe faça bem e aguardo novos capítulos da prosa.

Curitiba 17 de dezembro de 2017

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