Última página

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“Que não seja imortal, posto que é chama,

Mas que seja infinito enquanto dure”

(Soneto da Fidelidade – Vinicius de Moraes)

 

Ela se deixou paralisar diante da estante com a graciosidade de criança que se deslumbra com algo novo. Com a cabeça levemente reclinada à esquerda, corria os olhos por cada um dos títulos perfilados metodicamente em ordem alfabética por sobrenome de autor nas oito prateleiras, que iam do chão ao teto do apartamento, de um extremo da sala a outro. Perto dela, o móvel que continha meu acervo parecia colossal, ao passo que ela, eu nunca a tinha visto tão miudinha e bela, tateando os exemplares que lhes chamavam a atenção, como se com isso pudesse lhes adivinhar o conteúdo. Era a primeira vez que pisava o meu espaço, mas parecia ter sempre estado ali.

Com cuidado, retirou um livro de capa dura cor de vinho com letras douradas, em que se lia “El amor en los tiempos del cólera”. Tratava-se de uma edição de páginas já amareladas, que eu havia garimpado em um sebo de Barranquilla, dois anos atrás. Na contracapa, havia uma dedicatória escrita à antiga dona, em caligrafia firme e esparramada: “Para Lucha, con amor. Paco”. Ela, contudo, não chegou a ver a enxuta declaração alheia, já que abriu o exemplar pelo fim e, com solenidade, espalmou a mão sobre a última página. Leu pausadamente os parágrafos derradeiros, alçando a ponta da língua aos dentes superiores, para imitar o sotaque andino – o que lhe conferiu um charme pitoresco –, enquanto eu a acompanhava mentalmente, posto que sabia o trecho decor.

“-¿Y hasta cuándo cree usted que podemos seguir en este ir y venir del carajo? –le preguntó.

Florentino Ariza tenía la respuesta preparada desde hacía cincuenta y tres años, siete meses y once días con sus noches.

-Toda la vida – dijo.”.

Confidenciou-me, em seguida, que aquilo, de ler primeiramente os últimos parágrafos do livro, era uma espécie de ritual pessoal. E o fazia sempre daquela forma: só ia para o início depois de passar pela página final. Não se tratava de uma superstição, mas de começar quando já sabia qual seria o desfecho. Por minha vez, ponderei que isso poderia tirar o sabor de determinadas leituras, já que a delícia de certas obras, em boa medida, está associada à surpresa do fim, à forma como o autor arremata a história. Eu ia mencionar o exemplo de “O ensaio sobre a cegueira”, cujo final é revelador, mas ela sorriu, estacionando o indicador sobre meus lábios, para, em seguida, beijá-los decididamente, mandando às favas todas as minhas teorias pedantes de professor universitário. A vida era, afinal, mais do que regras.

Daquele primeiro beijo ao derradeiro adeus, transcorreram-se quarenta e dois dias. Desde que pus meus olhos no azul dos dela e me percebi subitamente apaixonado, eu pressenti, de certo modo, que não seríamos perenes. Eu sempre soube que haveria um fim. Só com essa certeza é que pude mirar no que, com toda sua entrega e verdade, ela me mostrava: que a beleza também está no percurso e que o caminho é tão importante quanto o chegar. Deixei-me conduzir pelo dia de sol, sem racionalidades frias, sabendo que a noite logo viria. Talvez por isso ela tenha se ido da mesma forma com que chegou: suavemente. Percebi, enfim, que ela foi um livro que comecei a ler pela última página.

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