Cinquenta e sete anos

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Vô Indler: mais bonito que Clark Gable, diziam

Sentado junto da parede à esquerda da entrada do salão, meu avô Indler tinha o olhar perdido, como se não visse mais ninguém. Estava arqueado sobre si, acusando o peso que se abatia sobre sua existência. Em vão, tentava silenciar a própria aflição. Assim que cheguei e o encontrei ali, naquele desespero mudo, fui diretamente ter com ele. Desabou, com a dor escancarada em cada traço de sua feição. “Você viu que judiação, Felippe? Fazia cinquenta e sete anos que eu era feliz e não sabia”, balbuciou, já sem poder conter o choro, ao lado do caixão.

Cinquenta e sete anos foi o período em que minha avó Filhinha e ele permaneceram casados, até que a morte os separasse, levando-a na noite anterior. Por isso, ao longo do funeral, o velho Indler repetia a frase qual ladainha: “Fazia cinquenta e sete anos que eu era feliz e não sabia”. Era impossível não se comover com sua dor, afinal formaram um daqueles casais conhecidos por toda a cidadezinha. Às tardes, saiam a bordo do Uno branco e iam até a praça às margens do rio, onde passeavam de mãos dadas, jogavam pães para os peixes e davam de comer a um cachorro de rua, que dona Filhinha tratava como se deles fosse.

O dia havia nascido sem nuvens, azulzinho e de um sol brando, mas no exato instante em que se terminou o sepultamento, o céu fechou, desabando um pé d’água que espaventou toda gente num carreirão. Ficamos ali apenas minha irmã, meu primo e eu, ensopados, fitando o túmulo. Enquanto voltávamos lentamente e eu sentia as gotas grossas encharcarem minha camisa jeans, lembrei-me de que vó Filhinha gostava de fins de tarde com chuva. Achava bonito. Ponderei em voz alta que, talvez por isso, chovesse. Minha irmã opinou que, quem sabe, o temporal repentino se devesse ao fato de que ela não queria ter partido. O caso é que, assim que deixamos o cemitério, o aguaceiro cessou.

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Vô Indler e vó Filhinha

Vó Filhinha era uma mulher de fala doce, com mão boa para cozinhar e que mantinha a mesa posta o dia todo – lhe fazia gosto ver comer quem quer que se achegasse para uma visita. Era, no entanto, doente de ciúmes pelo meu avô, que fora um belo homem de olhos azuis, diziam, mais bonito que Clark Gable. No auge da ciumeira, já perto do fim, a vó fez plantar uma árvore no terraço, tapando a vista da rua que seu Indler gostava de contemplar, sentado à cadeira de corda. A velhinha cismava que ele queria era ver as moças passarem. “Eu nessa idade!”, protestava o avô, sem sucesso, diante do disparate.

Com a morte de minha avó, seu Indler sucumbiu a um desespero de dar pena. Passou a se martirizar por coisas das quais não tinha a menor culpa. Insistia que deveria ter elogiado mais a comida dela, lamentava por não a ter levado mais vezes para passear e se penalizava por não conseguir encontrá-la nos sonhos. Ora se responsabilizava por ter feito que não a via fumar no quintal, enquanto vó Filhinha fazia que se escondia. Talvez os cigarros não a tivessem levado. Ora se penalizava por ter ralhado com ela por pitar tanto, já que era um dos únicos prazeres que a vó ainda tinha na vida.

Em pouco tempo, o velho tombou na cama, da qual não teve mais forças para se levantar para nada. Definhou ali, deitado, embora não sofresse de nada que pudesse ser diagnosticado por médico algum. Com as saudades à flor da pele, focava na dor da perda. Dor de amor. Mas disso até ele sabia, já que não deixava de repetir um só dia que havia sido feliz por cinquenta e sete anos e que, agora, nada mais lhe restava. Não houve psicólogo, padre, médium, amigo ou familiar capaz de lhe aliviar a angústia. A cada dia, morria um pouco.

Três anos depois de minha avó ter-se ido, foi a vez de seu Indler. Não me lembro se fazia sol, mas tenho certeza de que não choveu. Não sei se porque o vô não ligava pra chuva ou se porque ele quisesse mesmo partir – era espírita e acreditava que encontraria dona Filhinha do outro lado. No velório, as pessoas repetiam, como coisa certa, que ele havia falecido por não ter suportado a falta de minha avó. Era uma sensação coletiva. Penso que assim tenha sido, mesmo. Seu Indler morreu de amor.

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